{"id":1013,"date":"2021-03-05T10:36:29","date_gmt":"2021-03-05T13:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1013"},"modified":"2021-03-05T10:36:29","modified_gmt":"2021-03-05T13:36:29","slug":"entrevista-morar-fora-como-uma-recriacao-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=1013","title":{"rendered":"ENTREVISTA: Morar fora como uma recria\u00e7\u00e3o de si mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8317139192163255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enio Moraes J\u00fanior<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_1014\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1014\" class=\"size-medium wp-image-1014\" src=\"https:\/\/alterjor.ddev.site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2-300x220.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2-300x220.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2-1024x750.jpg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2-768x562.jpg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2-1536x1124.jpg 1536w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/daniela2.jpg 1910w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1014\" class=\"wp-caption-text\">\u201cSeria imposs\u00edvel passar por um processo de migra\u00e7\u00e3o sem desafios. E eu vejo isso de forma positiva\u201d. Foto: arquivo pessoal<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Daniela Martins Sch\u00fclke<\/strong> vive em Berlim desde 2010. Natural de S\u00e3o Paulo, ela migrou para a Alemanha pela mesma raz\u00e3o que conduz muitos estrangeiros a outros pa\u00edses: o encontro de um amor e o projeto de come\u00e7ar uma vida nova. Formada em administra\u00e7\u00e3o de empresas e com especializa\u00e7\u00e3o em marketing &amp; comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, Daniela viu suas chances profissionais se modificarem na nova casa. Paralelamente, os desafios serviram como fonte de amadurecimento pessoal e como escritora.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia na Alemanha est\u00e1 presente na alma dessa brasileira cheia de hist\u00f3rias para contar. Hist\u00f3rias que, muitas vezes, desmentem as narrativas de sucesso e felicidade sobre a experi\u00eancia de brasileiros no exterior, comumente encontradas em sites, canais de YouTube e programas de TV.<\/p>\n<p>Em Berlim, Daniela trabalha como Marketing Managerin em uma empresa alem\u00e3. Ela compartilha sua percep\u00e7\u00e3o sobre morar fora do Brasil em projetos sociais e em dois livros que escreveu: <em>Choque Cultural: Brasil x Alemanha<\/em>, de 2014, e <em>A Vida entre duas Culturas<\/em>, de 2020. Na entrevista a seguir, essa paulistana que vive na Europa h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada fala sobre suas conquistas e alerta: viver fora \u00e9 um desafio constante.<\/p>\n<p><strong>Enio Moraes J\u00fanior &#8211; O seu primeiro livro oscila entre o seu estranhamento e deslumbramento com a Alemanha. No segundo, voc\u00ea reconhece que migrar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 isso mesmo? Como tem sido a sua experi\u00eancia nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela Martins Sch\u00fclke &#8211; <\/strong>Exatamente. No meu primeiro livro, escrevo sobre o processo inicial de migra\u00e7\u00e3o, onde normalmente se passa por quatro etapas: a lua de mel, a crise, o relaxamento e a acultura\u00e7\u00e3o. O segundo livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o do primeiro, mas aborda outros temas. Apresento uma nova perspectiva e o foco maior est\u00e1 no processo de integra\u00e7\u00e3o na Alemanha. Ap\u00f3s onze anos vivendo em Berlim, vejo que passei por muitos desafios e os tr\u00eas maiores foram o idioma que, sem d\u00favida, \u00e9 uma das dificuldades na Alemanha; a recoloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho que, dentro da minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, foi um processo que exigiu muita paci\u00eancia; e o clima, a adapta\u00e7\u00e3o ao inverno. Hoje posso dizer que tem sido uma experi\u00eancia de aprendizado constante, muito enriquecedora e que mudou a minha vis\u00e3o sobre a vida fora do Brasil. Por\u00e9m, o maior aprendizado \u00e9 que pessoas s\u00e3o pessoas em qualquer lugar do mundo e n\u00e3o existe um pa\u00eds perfeito para se viver.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EMJ &#8211; De que forma voc\u00ea avalia a narrativa de sites, canais de YouTube e at\u00e9 mesmo da grande m\u00eddia sobre a vida no exterior? H\u00e1 uma <\/strong><strong>\u201cglamouriza\u00e7\u00e3o\u201d que contribui para que muitos brasileiros se iludam?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DMS &#8211; <\/strong>Existem sites, canais de YouTube e pessoas que conseguem narrar a verdadeira vida no exterior, mas infelizmente uma minoria. Os pr\u00f3prios canais de televis\u00e3o\u00a0apresentam diversas reportagens que n\u00e3o condizem com a realidade. As redes sociais tamb\u00e9m estimulam cada vez mais a glamouriza\u00e7\u00e3o que muitas vezes \u201cvende\u201d a ilus\u00e3o de uma vida perfeita ou a promessa de que quem vai para o exterior consegue ficar rico. Desta forma, muitas pessoas chegam \u00e0 Alemanha com expectativas equivocadas. Vejo que o excesso de informa\u00e7\u00f5es, que \u00e0s vezes n\u00e3o s\u00e3o ver\u00eddicas, prejudica muitos sonhos&#8230; Al\u00e9m disso, cada pessoa vive sua pr\u00f3pria experi\u00eancia em um novo pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EMJ &#8211; Em um de seus livros, voc\u00ea diz que mudar de pa\u00eds \u00e9 aceitar o desafio de se recriar dentro de uma nova cultura e mentalidade. Essa poderia ser uma boa pauta para o jornalismo de migra\u00e7\u00e3o brasileiro? Esse processo de recria\u00e7\u00e3o, de <\/strong><strong>reinven\u00e7\u00e3o de si mesmo, poderia render boas hist\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DMS &#8211; <\/strong>Sim. Afinal, seria imposs\u00edvel passar por um processo de migra\u00e7\u00e3o sem desafios. E eu vejo isso de forma positiva. Superar limites, medos e se recriar em uma nova cultura \u00e9 libertador. Essa seria uma excelente pauta para o jornalismo de migra\u00e7\u00e3o brasileiro e contribuiria muito para pessoas que, por algum motivo, sonham em mudar de pa\u00eds, como jovens que desejam fazer interc\u00e2mbio ou trabalhar no exterior, empreendedores que buscam novas oportunidades de neg\u00f3cios fora do Brasil etc. Posso citar como exemplo uma grande amiga que chegou \u00e0 Alemanha j\u00e1 formada em Direito. Como n\u00e3o poderia atuar como advogada &#8211; pois o diploma de v\u00e1rios pa\u00edses e profiss\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos aqui &#8211; ela pesquisou outras oportunidades que o mercado de trabalho alem\u00e3o oferecia. Hoje, al\u00e9m de trabalhar numa ONG, onde atende pessoas carentes, ela abriu o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio e presta consultoria social e jur\u00eddica para estrangeiros. Este era outro desejo que ela tinha: ajudar pessoas por meio de projetos sociais e que, como advogada no Brasil, n\u00e3o teve como realizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EMJ &#8211; Aprender o idioma do pa\u00eds onde se vive: uma mera quest\u00e3o pragm\u00e1tica ou tamb\u00e9m uma forma de compreender a cultura? Quais os limites trazidos para a vida do migrante que precisa se virar fora da sua <\/strong><strong>l\u00edngua materna?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DMS &#8211; <\/strong>O idioma transmite a cultura e aprender o idioma local, por mais dif\u00edcil que seja, \u00e9 a chave para a independ\u00eancia e integra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata, portanto, de uma mera quest\u00e3o pragm\u00e1tica. Isso resulta em limita\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho, na vida pessoal, emocional etc. Vale ressaltar que, no caso da Alemanha, \u00e9 poss\u00edvel trabalhar em empresas que possuem equipes multiculturais ou se comunicam em ingl\u00eas. Al\u00e9m disso, em Berlim, h\u00e1 muitas oportunidades em determinadas \u00e1reas que necessitam de profissionais, como TI e enfermagem. No entanto, acredito que a adapta\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o requerem o aprendizado do idioma. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel compreender a mentalidade, a din\u00e2mica e a cultura do novo pa\u00eds. Vejo que muitas dificuldades e conflitos que temos, como migrantes, ocorrem devido \u00e0 falta ou dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EMJ &#8211; As nacionalidades que vivem no exterior se aglutinam hoje em redes sociais como o Facebook. <\/strong><strong>H\u00e1 quem enxergue nesses espa\u00e7os um misto de solidariedade <em>versus<\/em> desconfian\u00e7a entre os pr\u00f3prios brasileiros que moram fora. Como voc\u00ea avalia essa quest\u00e3o nas comunidades virtuais na Alemanha, especialmente em Berlim?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DMS &#8211; <\/strong>Acredito que em qualquer grupo haja aspectos positivos e negativos, opini\u00f5es que divergem e temas pol\u00eamicos, mas o respeito deve prevalecer. Em alguns grupos em Berlim, infelizmente, h\u00e1 brasileiros que n\u00e3o s\u00e3o solid\u00e1rios com os pr\u00f3prios conterr\u00e2neos e \u00e0s vezes at\u00e9 agressivos. Tamb\u00e9m j\u00e1 vi golpes ou pessoas que agem de m\u00e1 f\u00e9. Por\u00e9m, h\u00e1 casos em que o administrador do grupo ou os pr\u00f3prios membros se manifestam para impedir este tipo de comportamento e alguns s\u00e3o exclu\u00eddos da comunidade. Mas trata-se de um percentual muito pequeno. Em geral, s\u00e3o grupos onde se pode encontrar muito apoio em quest\u00f5es burocr\u00e1ticas, jur\u00eddicas, alguns membros publicam oportunidades de trabalho e dados do setor imobili\u00e1rio. Al\u00e9m disso, h\u00e1 troca de experi\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es que ajudam em muitos processos na Alemanha.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EMJ &#8211; O migrante consegue voltar para casa, para suas origens? Se ele achar que o pa\u00eds para onde ele foi n\u00e3o \u00e9 o seu lugar e resolver regressar, essa casa ainda estar\u00e1 l\u00e1 e ele conseguir\u00e1 se (re)adequar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>DMS &#8211; <\/strong>Sim. No entanto, \u00e9 muito relativo e cada um tem uma experi\u00eancia individual. Tenho amigos que voltaram para o Brasil, n\u00e3o se readaptaram e tamb\u00e9m amigos que voltaram e est\u00e3o felizes com esta decis\u00e3o. Por\u00e9m, vejo que quanto mais tempo ficamos fora do nosso pa\u00eds de origem, mais desafiador ser\u00e1 o processo de retorno. Alguns migrantes que\u00a0passaram\u00a0pelo choque cultural do regresso, dizem\u00a0\u201cn\u00e3o\u00a0se\u00a0encaixar\u00a0mais\u00a0na\u00a0vida\u00a0que um dia\u00a0deixaram\u00a0para\u00a0tr\u00e1s\u201d,\u00a0afirmam ter\u00a0um\u00a0sentimento\u00a0de\u00a0\u201cn\u00e3o\u00a0pertencer\u00a0mais\u00a0a lugar algum\u201d. Para muitos, leva-se um bom tempo at\u00e9 se sentir novamente \u201cem casa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8317139192163255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enio Moraes J\u00fanior<\/a> \u00e9 um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Portf\u00f3lio do autor dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/enioonline.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">EnioOnLine<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Enio Moraes J\u00fanior. &nbsp; Daniela Martins Sch\u00fclke vive em Berlim desde 2010. Natural de S\u00e3o Paulo, ela migrou para a Alemanha pela mesma raz\u00e3o que conduz muitos estrangeiros a outros pa\u00edses: o encontro de um amor e o projeto de come\u00e7ar uma vida nova. 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