{"id":1294,"date":"2021-11-29T18:45:55","date_gmt":"2021-11-29T21:45:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1294"},"modified":"2021-11-30T11:25:20","modified_gmt":"2021-11-30T14:25:20","slug":"urihi-a-terra-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=1294","title":{"rendered":"URIHI, A TERRA-FLORESTA"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 em curso, no Brasil, mais um genoc\u00eddio ind\u00edgena, que, diferentemente dos anteriores e sucessivos genoc\u00eddios dos povos origin\u00e1rios perpetrados nas terras das Am\u00e9ricas desde a chegada do europeu, feitos em momentos hist\u00f3ricos em que pouco ou nada contava a opini\u00e3o dos outros e, menos ainda, contavam as vidas ind\u00edgenas, esse, o atual, est\u00e1 acontecendo sob os nossos olhos, ao nosso lado, sob a assist\u00eancia do mundo, noticiado pela imprensa nacional e estrangeira e com o benepl\u00e1cito do atual governo &#8211; a alcunha de genocida pode ser estendida tamb\u00e9m pelo descaso em rela\u00e7\u00e3o ao exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios. E enquanto ainda nos indignamos com a atua\u00e7\u00e3o criminosa do garimpo ilegal nas terras Yanomami, vem a divulga\u00e7\u00e3o, pela grande m\u00eddia, sobre a invas\u00e3o dos garimpeiros no rio Madeira. Uma revela\u00e7\u00e3o tardia, pois 300 balsas nao aparecem do dia para a noite, e a apenas alguns minutos de voo de Manaus. H\u00e1 uma dificuldade enorme de se falar sobre certas quest\u00f5es nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>A floresta Amaz\u00f4nica est\u00e1 a ponto de encontrar o seu ponto sem volta, aquele ponto de inflex\u00e3o em que o desmatamento j\u00e1 atingiu seu \u00e1pice e a floresta n\u00e3o ter\u00e1 mais a capacidade de se recuperar. A &#8220;savaniza\u00e7\u00e3o&#8221; est\u00e1 em curso. A dif\u00edcil escolha entre ouro e \u00e1rvore j\u00e1 encontrou a resposta.<\/p>\n<p>Para o homem branco, o &#8220;homem das coisas&#8221;, como diz Davi Kopenawa Yanomami, a floresta \u00e9 s\u00f3 mais um espa\u00e7o a ser ocupado, de prefer\u00eancia pelo gado e pela soja, essa vastid\u00e3o de terra de ningu\u00e9m, que precisa ser tomada por algum neg\u00f3cio, para que se transforme em lucro. Nem que para isso tenha que desaparecer a urihi, a terra-floresta, que acolhe sob seus galhos os povos origin\u00e1rios que vivem naquele espa\u00e7o h\u00e1 mil\u00eanios em permanente harmonia com uma biodiversidade que o homem das coisas jamais conhecer\u00e1 em sua totalidade, pois vai transformar a uhiri em coisa antes disso.<\/p>\n<blockquote><p>A terra-floresta s\u00f3 pode morrer se for destru\u00edda pelos brancos. Ent\u00e3o os riachos sumir\u00e3o, a terra ficar\u00e1 fri\u00e1vel, as \u00e1rvores secar\u00e3o, e as pedras das montanhas rachar\u00e3o com o calor. Os esp\u00edritos xapirip\u00ea, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabar\u00e3o fugindo. Seus pais, os xam\u00e3s, n\u00e3o poder\u00e3o mais cham\u00e1-los para nos proteger. A terra-floresta se tornar\u00e1 seca e vazia. Os xam\u00e3s n\u00e3o poder\u00e3o mais deter as fuma\u00e7as-epidemias e os seres mal\u00e9ficos que nos adoecem. Assim, todos morrer\u00e3o (Davi Kopenawa Yanomami). (<a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Yanomami\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Yanomami<\/a>).<\/p><\/blockquote>\n<p>A cada dia, os jornais noticiam: &#8220;a Amaz\u00f4nia perdeu nesse m\u00eas &#8216;X&#8217; campos de futebol?, para no m\u00eas seguinte repetir a informa\u00e7\u00e3o e assim sucessivamente, at\u00e9 que a popula\u00e7\u00e3 perca a refer\u00eancia de quantos campos de futebol j\u00e1 foram destru\u00eddos em extens\u00e3o na Amaz\u00f4nia nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>A m\u00eddia, ao publicar as not\u00edcias sobre a devasta\u00e7\u00e3o da floresta em conta-gotas, faz com que o p\u00fablico perca a dimens\u00e3o da profundidade do estrago, al\u00e9m de criar em seu imagin\u00e1rio a irreversibilidade do acontecimento, ou de que n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, o fato est\u00e1 dado, criando assim, a normaliza\u00e7\u00e3o do acontecimento. Ao n\u00e3o contextualizar, para o p\u00fablico, o que vem ocorrendo, as correla\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as econ\u00f4micas e os interesses pol\u00edticos, a grande m\u00eddia transforma a trag\u00e9dia em personagens sem rostos. D\u00e1 invisibilidade aos respons\u00e1veis. A decorr\u00eancia da devasta\u00e7\u00e3o &#8211; aquecimento global, com a substitui\u00e7\u00e3o da floresta por pastagens de gado, o efeito estufa, tudo parece distante, descontextualizado da realidade pelo senso comum.<\/p>\n<h3>Qual o papel do Jornalismo Ambiental nesse contexto?<\/h3>\n<p>Uma das editorias que mais se destaca na atualidade \u00e9 o Jornalismo Ambiental. Falar sobre o meio ambiente na m\u00eddia significa, mais do que reportar as constantes agress\u00f5es ao meio ambiente, tamb\u00e9m alertar para os desastres iminentes, as decis\u00f5es pol\u00edticas diretamente ligadas a eles, al\u00e9m de amparar a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica sobre como a Natureza est\u00e1 intimamente ligada ao nosso bem-estar, assim como \u00e0 sobreviv\u00eancia do Planeta. O Jornalismo Ambiental tamb\u00e9m pode contribuir para mostrar solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis al\u00e9m do n\u00edvel global e nacional, focando a\u00e7\u00f5es regionais e locais, e como aparentes pequenas atos individuais podem gerar impactos positivos em comunidades. E entre essas solu\u00e7\u00f5es est\u00e1 o nosso comportamento eco amig\u00e1vel, bem como o de grupos de pessoas, pequenas empresas, agricultores familiares que, atrav\u00e9s de suas atua\u00e7\u00f5es, t\u00eam refletido, ecoado, vibrado positivamente o seu entorno. Nesse sentido, a repercuss\u00e3o de seus projetos, inven\u00e7\u00f5es, solu\u00e7\u00f5es podem ter n\u00e3o s\u00f3 bom acolhimento como causar impacto positivo onde agem, de forma a replicar suas performances e ampliar a conscientiza\u00e7\u00e3o para uma vida mais sustent\u00e1vel, simples, pr\u00f3xima \u00e0 natureza e por isso mesmo, respeitosa a ela. Nesse contexto, a m\u00eddia alternativa, o jornalismo popular e comunit\u00e1rio, ou seja, os ve\u00edculos que se contrap\u00f5em \u00e0 m\u00eddia hegem\u00f4nica, t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Uma pesquisa sobre projetos sustent\u00e1veis ao redor do mundo mostra uma grande atividade nesse sentido. S\u00e3o ideias que se voltam para a humaniza\u00e7\u00e3o das grandes cidades, buscando solu\u00e7\u00f5es menos poluidoras, como transportes alternativos, transportes p\u00fablicos de qualidade, solu\u00e7\u00f5es combinadas entre transporte privado e p\u00fablico; pesquisas sobre filtros que controlam melhor a polui\u00e7\u00e3o do ar; arboriza\u00e7\u00e3o de ruas, constru\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as e ado\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes por comunidades; preserva\u00e7\u00e3o de reservas naturais; o crescimento dos agricultores voltados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e agroecol\u00f3gica, contra o surto de venenos na alimenta\u00e7\u00e3o; a arquitetura direcionada para o reaproveitamento de materiais, otimiza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os e melhor capta\u00e7\u00e3o da luz natural; o espalhamento dos simpatizantes ao uso da energia renov\u00e1vel, solar e e\u00f3lica.<\/p>\n<p>Vivemos um momento em que nunca se falou tanto em meio ambiente, justamente porque ele est\u00e1 chegando ao seu limite m\u00e1ximo de explora\u00e7\u00e3o, e se a popula\u00e7\u00e3o mundial, de uma maneira ampla, n\u00e3o tomar consci\u00eancia rapidamente sobre essa quest\u00e3o, estaremos beirando o caos dentro de pouco tempo. O recente encontro da COP 26, mais uma vez, patinou em suas inten\u00e7\u00f5es de dar uma chacoalhada no p\u00fablico em geral e de os grandes l\u00edderes mundiais tomarem decis\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p>Sabe-se que por tr\u00e1s de toda essa press\u00e3o sobre o meio ambiente est\u00e1 o modelo de vida ocidental, que desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial vem criando maneiras cada vez mais agressivas de fazer com que as pessoas consumam al\u00e9m da sua necessidade e at\u00e9 mesmo desejo. O resultado disso \u00e9 um mundo em que se extrai cada vez mais recursos naturais do planeta sem que nada &#8211; ou quase nada &#8211; seja reposto, mesmo porque uma quantidade consider\u00e1vel desses recursos \u00e9 finita e n\u00e3o renov\u00e1vel.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es positivas em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, solu\u00e7\u00f5es que, al\u00e9m de estarem mais pr\u00f3ximas do que se imagina, s\u00e3o poss\u00edveis de serem realizadas, s\u00e3o acess\u00edveis e podem ser replicadas sem grandes custos. No entanto, acabam n\u00e3o tendo visibilidade na grande m\u00eddia, as ideias n\u00e3o s\u00e3o disseminadas, n\u00e3o ecoam na sociedade com a import\u00e2ncia e velocidade que merecem. Temos que mudar o foco. Entender que a natureza somos n\u00f3s, n\u00e3o uma parte separada dela.<\/p>\n<p>Voltando ao in\u00edcio, \u00e0 terra-floresta, podemos pensar em alguns fatos, como a relev\u00e2ncia de se aprender com os povos originais e com a pr\u00f3pria natureza sobre o conv\u00edvio respeitoso com o nosso entorno, com as pessoas, abra\u00e7ando a ideia de co-habitar, de co-interagir, de entrela\u00e7ar, como as ra\u00edzes das \u00e1rvores na floresta, que mais do que a busca por espa\u00e7o e competi\u00e7\u00e3o, buscam coopera\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o invis\u00edvel do subsolo. Podemos aprender de que maneira povos que h\u00e1 tempos imemoriais conviveram de forma harmoniosa e respeitosa com o meio que habitam, conseguiram manter intacto o seu meio at\u00e9 a chegada do &#8220;homem das coisas&#8221;.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, quantos, no Brasil sabem a quantidade de na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que h\u00e1 no pa\u00eds hoje? Quantas l\u00ednguas s\u00e3o faladas no territ\u00f3rio nacional? Qu\u00e3o diverso \u00e9 o sistema cultural dessas in\u00fameras na\u00e7\u00f5es? Qual a popula\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios na atualidade? Quantos j\u00e1 desapareceram? Voc\u00ea j\u00e1 ouviu o som de uma l\u00edngua de alguma na\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que habita o Brasil?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 em curso, no Brasil, mais um genoc\u00eddio ind\u00edgena, que, diferentemente dos anteriores e sucessivos genoc\u00eddios dos povos origin\u00e1rios perpetrados nas terras das Am\u00e9ricas desde a chegada do europeu, feitos em momentos hist\u00f3ricos em que pouco ou nada contava a opini\u00e3o dos outros e, menos ainda, contavam as vidas ind\u00edgenas, esse, o atual, est\u00e1 acontecendo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1299,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[103,274],"tags":[],"class_list":["post-1294","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunistas","category-urihi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1294","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1294"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1294\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1297,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1294\/revisions\/1297"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1294"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1294"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1294"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}