{"id":1533,"date":"2022-08-25T11:14:05","date_gmt":"2022-08-25T14:14:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1533"},"modified":"2022-08-29T11:47:00","modified_gmt":"2022-08-29T14:47:00","slug":"brasil-e-o-erro-do-bom-senso-de-john-f-kennedy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=1533","title":{"rendered":"Brasil e o erro do \u201cbom senso\u201d de John F. Kennedy"},"content":{"rendered":"<p>Pol\u00edticas externas, assim como pactos sociais, funcionam em bases que compartilham regras escritas e \u201cn\u00e3o escritas\u201d. Codifica-se o que se imagina que \u00e9 necess\u00e1rio e assume-se que o que \u00e9 base compartilhada de valores se pode deixar \u00e0 naturalidade do conv\u00edvio, \u00e0s luzes do que supostamente deveria ser \u00f3bvio. Assim foi tamb\u00e9m na pol\u00edtica famosa do martirizado presidente estadunidense, John F. Kennedy, a Alliance for Progress.<br \/>\nDesde a leitura da carta do democrata, em Punta del Este, seus entusiastas assumiam que seu sucesso caminharia junto a valores que esta carta nunca explicitamente ditou, mas que faziam parte do discurso, ainda que seminal, de Kennedy. Traga progresso aos latino-americanos, com as aids do Norte, e naturalmente estes pa\u00edses v\u00e3o se desenvolver em democracias saud\u00e1veis, com mais acesso econ\u00f4mico a suas classes subalternizadas, assim \u201capagando\u201d o discurso vermelho do continente.<br \/>\nA base de tal ideal utiliza-se da assumida superioridade moral do padr\u00e3o civilizat\u00f3rio ocidental, oferecido aos pa\u00edses do Sul, em compara\u00e7\u00e3o com a alternativa de Castro e de Moscou. No concerto internacional, a ideia de padr\u00f5es civilizat\u00f3rios vem da Escola Inglesa de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, calcada no seu eurocentrismo e no conceito de que estes pa\u00edses, \u201cber\u00e7os da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d contempor\u00e2nea, poderiam ditar o que definia uma na\u00e7\u00e3o como \u201ccivilizada\u201d ou n\u00e3o.<br \/>\nQuando o mundo se desenhou inteiro em linhas de na\u00e7\u00e3o, aos moldes de Westf\u00e1lia, as ideias de fatores civilizat\u00f3rios foram supostamente superadas. Com o fim da Guerra Fria, a segunda gera\u00e7\u00e3o da Escola Inglesa recuperou tais \u201cest\u00e2ndares\u201d, adaptados \u00e0 nova realidade do mundo. A determina\u00e7\u00e3o de que pa\u00edses s\u00e3o civilizados (ou em que \u201cn\u00edvel\u201d de civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o) viria atrav\u00e9s de tr\u00eas fatores: estarem abertos ao livre mercado, serem democr\u00e1ticos e respeitarem os direitos humanos.<br \/>\nOficialmente estes valores s\u00f3 foram determinados depois que a URSS acabou e a nova ordem teria se iniciado, supostamente deixando o mundo da Guerra Fria para tr\u00e1s. Por\u00e9m, desde a bem intencionada pol\u00edtica de Kennedy, se v\u00ea o princ\u00edpio do que viriam a se tornar estes novos padr\u00f5es. Contudo, com o resumo perfeito j\u00e1 realizado por Jerome Levinson e Juan de On\u00eds, a pol\u00edtica do democrata foi um \u201cerro\u201d, e entre os pa\u00edses que \u201ccomprovaram\u201d este erro est\u00e1 o Brasil, especificamente o seu Regime Militar.<br \/>\nKennedy determinou que para que sua Alliance oferecesse ajudas aos pa\u00edses, haveria de se respeitar o livre mercado. Desta forma, o governo de Goulart, que ainda contava com m\u00faltiplas figuras do PTB (e o pr\u00f3prio Jango) enaltecendo os valores de Kennedy e usando do martirizado democrata como s\u00edmbolo, viu o \u201csubstituto\u201d Lyndon Johnson fechar a porta de muitas propostas de financiamento.<br \/>\nOnde entram aqui o respeito aos direitos humanos e \u00e0 democracia? Nos valores \u201cn\u00e3o ditos\u201d da Alliance, que se podem observar nos aflitos jornalistas estadunidenses que apoiavam os ideais e fatalmente n\u00e3o viam estes valores serem respeitados. Na pr\u00e1tica, Johnson s\u00f3 fez valer o que estava \u201cescrito\u201d, n\u00e3o se preocupou tanto com o \u201cbom senso\u201d de Kennedy. Goulart n\u00e3o desrespeitava os direitos humanos e estava democraticamente ocupando sua posi\u00e7\u00e3o, mesmo que as paranoias da Guerra Fria assombrassem seu governo, pelo medo do comunismo causado por figuras como Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.<br \/>\nJango n\u00e3o estava disposto a \u201cliberalizar\u201d toda a economia brasileira (em um contexto em que nem que quisera isso fora poss\u00edvel). Mantinha a lembran\u00e7a da trag\u00e9dia que era a avalia\u00e7\u00e3o popular de JK, em grande parte devido aos problemas que o \u201clivre mercado\u201d trouxera \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de um Estado de dif\u00edcil manejo, que era o Brasil dos anos 50.<br \/>\nPor isso, e por outros fatores, Jango \u201ctinha que sair\u201d. \u00c9 verdade que a \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d foi cogitada como poss\u00edvel e pass\u00edvel de apoio tanto por Kennedy, antes de sua morte, como por Johnson. \u00c9 verdade tamb\u00e9m que este modelo era o menos desejado pelos estadunidenses, que queriam algo muito mais \u201cconstitucional\u201d e civil, dentro dos valores ocidentais. Contudo, a hist\u00f3ria imp\u00f4s a eles que a \u00fanica sa\u00edda que se apareceu vi\u00e1vel foi o Golpe de 64.<br \/>\nAssim o foi, com o golpe saia o representante do \u201cvelho mundo\u201d da terceira via latino-americana e entrava um \u201cmoderado\u201d general que iria \u201carrumar a casa\u201d para as elei\u00e7\u00f5es de 65. Ao final, estas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocorreram, Castello Branco deixou de ser \u201cher\u00f3i revolucion\u00e1rio\u201d para se tornar \u201ccriador de partido oficial\u201d nas p\u00e1ginas do New York Times. Costa e Silva terminou de rasgar o pacto do morto democrata. Juan de On\u00eds, na \u00e9poca correspondente do NYT, carimbou o Regime brasileiro como \u201cMilitary Dictatorship\u201d quando o AI-5 foi decretado.<br \/>\nOs mais liberais (no sentido estadunidense da palavra) do Partido Democrata tiveram que assistir em horror os direitos humanos e a democracia, valores \u201cn\u00e3o escritos\u201d do plano que tanto gostavam, serem pisoteados pelo militarismo brasileiro, que serviu de exemplo para mais cru\u00e9is regimes que nasceram pelo continente depois, especialmente na Argentina e no Chile, os mais notoriamente violentos.<br \/>\nOn\u00eds n\u00e3o teve sa\u00edda a anunciar que a Alliance se perdeu. Tais valores s\u00f3 conseguiram ser recuperados na pol\u00edtica externa estadunidense quando o \u201cdistinto\u201d Jimmy Carter entrou na Casa Branca, para sair derrotado depois de um s\u00f3 mandato pelo \u00edcone conservador Ronald Reagan. Com o fim da Guerra Fria, estes valores civilizat\u00f3rios finalmente conseguiram se assentar, hoje defendidos inclusive pela enorme maioria de partidos de esquerda da Am\u00e9rica Latina e da Europa. Os direitos humanos e a democracia se tornaram tardiamente valores que todos decidiram colocar como \u201cbase\u201d da pol\u00edtica interna e externa dos pa\u00edses. No meio do caminho, o \u00fanico valor escrito foi justamente aquele que teve de ser abandonado por muitos pa\u00edses, quando as esquerdas ascenderam ao poder: o liberalismo econ\u00f4mico.<br \/>\nOs jornalistas americanos nunca aceitaram que o erro estava na ideia de Kennedy, dizendo que o problema eram os militares latino-americanos. Assim pode ter sido, talvez ent\u00e3o a falta de compreens\u00e3o vinha do fato de que o militarismo da \u00e9poca era igualmente antiliberal, como era anticomunista.<\/p>\n<ul>\n<li>Daniel Azevedo Mu\u00f1oz \u00e9 jornalista, mestre e doutorando em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidade Aut\u00f4noma de Madri (Espanha)<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pol\u00edticas externas, assim como pactos sociais, funcionam em bases que compartilham regras escritas e \u201cn\u00e3o escritas\u201d. Codifica-se o que se imagina que \u00e9 necess\u00e1rio e assume-se que o que \u00e9 base compartilhada de valores se pode deixar \u00e0 naturalidade do conv\u00edvio, \u00e0s luzes do que supostamente deveria ser \u00f3bvio. 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