{"id":1766,"date":"2023-02-12T07:56:37","date_gmt":"2023-02-12T10:56:37","guid":{"rendered":"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1766"},"modified":"2023-02-17T14:16:05","modified_gmt":"2023-02-17T17:16:05","slug":"moral-e-dolares-nas-relacoes-norte-sul-do-novo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=1766","title":{"rendered":"Moral e \u201cd\u00f3lares\u201d nas Rela\u00e7\u00f5es Norte-Sul do Novo Mundo"},"content":{"rendered":"<p>O governo de Alberto Fern\u00e1ndez (Argentina), em meio \u00e0 primeira viagem internacional do presidente Lula em seu terceiro mandato, mencionou os planos para que ambos os pa\u00edses criassem uma moeda comum, o chamado Sur. Entre as confus\u00f5es que as pessoas (e parte da m\u00eddia) fazia entre os conceitos de moeda comum e moeda \u00fanica, al\u00e9m da incompreens\u00e3o dos motivos de tais conversas, pode-se perguntar, para que isso? Apenas para ajudar uma Argentina que parece eternamente em crise?<\/p>\n<p>Al\u00e9m da parte conceitual sobre as diferen\u00e7as entre moeda comum e moeda \u00fanica, que n\u00e3o pretendo me ater muito nesta coluna, gostaria de convidar o leitor para ter uma vis\u00e3o hist\u00f3rica sobre os motivos pelos quais tais debates s\u00e3o v\u00e1lidos e importantes num contexto latino-americano. Por\u00e9m, para que n\u00e3o fique nenhuma d\u00favida: o Sur n\u00e3o ser\u00e1 como o Euro, voc\u00ea n\u00e3o o ter\u00e1 na sua carteira, o Real e o Peso n\u00e3o deixar\u00e3o de existir, isso somente poderia se pensar se estiv\u00e9ssemos falando de moeda \u00fanica. Moeda comum seria uma moeda virtual criada para que estes pa\u00edses possam fazer neg\u00f3cios com ela, sem a necessidade de trocar d\u00f3lares.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es internacionais s\u00e3o pautadas por m\u00faltiplos fatores, mas tenha-se claro que: no concerto atual das na\u00e7\u00f5es e j\u00e1 por um bom per\u00edodo da hist\u00f3ria da humanidade, a economia \u00e9 pilar principal do desenho das pol\u00edticas externas.<\/p>\n<p>Influ\u00eancia militar, cultural, defesa dos direitos humanos, s\u00e3o temas que aparecem muitas vezes ao nos debru\u00e7armos sobre a Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do final do s\u00e9culo passado. Contudo, as pautas econ\u00f4micas est\u00e3o sempre ali, apresentando padr\u00f5es de comportamento not\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se voltarmos para o final dos anos 1950 no Brasil, vemos uma \u00e9poca de abertura ao capital estrangeiro por parte de Juscelino Kubitschek. Eleito com uma campanha que prometia uma explos\u00e3o de progresso, especialmente na ind\u00fastria e na infraestrutura, JK manteve um olhar menos fechado ao capital estrangeiro que o de Get\u00falio Vargas, ou de seu vice eleito, que ainda seria presidente, Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>JK entregou muito, e criou uma d\u00edvida externa gigantesca para o Brasil.<\/p>\n<p>Essa d\u00edvida gerou pol\u00edticas econ\u00f4micas de austeridade, muitas vezes complicadas de serem aplicadas, pois agiam em detrimento dos interesses do crescimento do pa\u00eds. Gerou tamb\u00e9m uma infla\u00e7\u00e3o que assombrou o Brasil nos anos de J\u00e2nio Quadros e de Goulart, ap\u00f3s a \u201cfuga\u201d do presidente da vassourinha. Tal concerto da economia n\u00e3o afetou somente o Brasil, mas quase a totalidade dos pa\u00edses vizinhos, em momentos diferentes<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, que produzem quantidades consider\u00e1veis de <em>commodities<\/em> (e um dia at\u00e9 tiveram industrializa\u00e7\u00e3o relevante), entram num ciclo de d\u00edvidas impag\u00e1veis? Antes que um leitor ortodoxo tenda a culpar JK, o convido para outra an\u00e1lise. O problema n\u00e3o era o investimento \u2013 veja o progresso que ele gerou. Todo progresso envolve o uso de linhas de cr\u00e9dito e investimento, afinal o mercado n\u00e3o espontaneamente busca inova\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que ela costuma ser pouco rent\u00e1vel a curto prazo.<\/p>\n<p>Tampouco se pode afirmar que o problema era a origem estrangeira desse capital. O ponto \u00e9 sobre o controle que uma na\u00e7\u00e3o tem sobre as engrenagens do seu pr\u00f3prio processo produtivo e da sua economia. A quest\u00e3o cerne das d\u00edvidas externas gira atrav\u00e9s do valor delas e de como a flutua\u00e7\u00e3o pode afetar a capacidade de um pa\u00eds pagar suas importa\u00e7\u00f5es e ter o \u201cdinheiro\u201d para manter sua economia girando.<\/p>\n<p>Nos principais jornais da \u00e9poca, muito se falou nesses per\u00edodos sobre m\u00e1quina estatal inchada, altos sal\u00e1rios e o problema de \u201cgastar mais do que se arrecada\u201d. Em casos isolados, pode parecer que tal interpreta\u00e7\u00e3o explica bem o ocorrido. No entanto, h\u00e1 mais a se dizer. No caso de empr\u00e9stimos internacionais, comuns nesse per\u00edodo, os problemas para pag\u00e1-los costumam nascer das altera\u00e7\u00f5es das cadeias produtivas, em conjunto com a presen\u00e7a\/aus\u00eancia, e o pr\u00f3prio valor, do papel moeda utilizado para realizar tais pagamentos.<\/p>\n<p>Quando Richard Nixon decidiu que o Padr\u00e3o D\u00f3lar-Ouro beneficiava somente a Europa, ele prop\u00f4s que o mundo usasse da sua moeda como o padr\u00e3o de neg\u00f3cios internacionais, valendo-se do \u201clastro\u201d financeiro da sua economia para isso. O mundo ent\u00e3o passou a acumular d\u00f3lar, pelo simples fato de ter o valor de \u201cd\u00f3lar\u201d, para poder pagar suas importa\u00e7\u00f5es e manter a economia girando. Pois, o que acontece com a economia de um pa\u00eds que n\u00e3o controla a emiss\u00e3o de d\u00f3lar, quando essa moeda flutua devido a intemp\u00e9ries do mercado e do concerto internacional?<\/p>\n<p>Entra-se portanto em um cen\u00e1rio onde os pa\u00edses \u201cricos\u201d passam a ser necess\u00e1rios para aqueles \u201cem desenvolvimento\u201d, n\u00e3o somente para que suas economias se desenvolvam, mas tamb\u00e9m para resgat\u00e1-los quando deixem de conseguir honrar suas d\u00edvidas, especialmente para pagar importa\u00e7\u00f5es. \u00c9 necess\u00e1rio que fique claro que quando se fala de um pa\u00eds pagando importa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se trata de produtos importados num supermercado.<\/p>\n<p>Pa\u00edses em desenvolvimento historicamente n\u00e3o conseguem suprir uma escala produtiva completa e, com o advento da nova fase do capitalismo neoliberal, a globaliza\u00e7\u00e3o do processo produtivo fez com que nem mesmo o \u201ccentro do capitalismo\u201d tivesse mais f\u00e1bricas e mat\u00e9rias-primas ocupando o mesmo territ\u00f3rio nacional ou soberania de governo.<\/p>\n<p>Assim, essas \u201cimporta\u00e7\u00f5es\u201d na verdade s\u00e3o aquilo que \u00e9 imprescind\u00edvel para que a economia de um pa\u00eds n\u00e3o pare. H\u00e1 mais um agravante: em um pa\u00eds endividado, a economia n\u00e3o pode mesmo parar, porque ele precisa exportar os resultados dessa mesma economia para pagar a d\u00edvida anterior, que o impediu de conseguir \u201cquitar\u201d as importa\u00e7\u00f5es inicialmente. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma op\u00e7\u00e3o de resposta \u00e0 uma crise, mas muitas vezes uma outorga dos mecanismos de financiamento internacional, como o FMI, para garantir linhas de cr\u00e9dito emergencial que impe\u00e7am a insolv\u00eancia completa destes pa\u00edses (e comprar um lugar na mesa dos seus Minist\u00e9rios da Fazenda).<\/p>\n<p>Esse c\u00edrculo de depend\u00eancia de capital fez com que historicamente a Am\u00e9rica Latina fosse ref\u00e9m desse tipo de resgate, o que levou a m\u00faltiplas quest\u00f5es pol\u00edticas entre o Norte e o Sul do Novo Mundo. Basta que olhemos o cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa de John F. Kennedy, a <em>Alliance for Progress, <\/em>que era oferecer aux\u00edlios e investimentos de capital para \u201cdesenvolver\u201d os pa\u00edses ao Sul, assim os afastando da influ\u00eancia do eixo comunista. Tais investimentos, ao mesmo tempo que traziam progresso, levavam a uma depend\u00eancia geopol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds que os proporcionava, porque gerava mercados que precisavam girar \u201cem d\u00f3lar\u201d e utilizar parte da cadeia produtiva dos EUA para manterem-se ativos.<\/p>\n<p>Com isso, podemos compreender como as decis\u00f5es econ\u00f4micas passaram a andar de m\u00e3os dadas com as decis\u00f5es pol\u00edticas da Guerra Fria tardia. Jo\u00e3o Goulart tinha uma d\u00edvida externa complicada, que precisava de uma renegocia\u00e7\u00e3o por parte dos EUA para ser paga. O seu governo, contudo, sofreu um Golpe de Estado e caiu. Se olharmos para os pa\u00edses vizinhos, o governo do democrata-crist\u00e3o Eduardo Frei Montalva no Chile passou por algo semelhante, mas recebeu as renegocia\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para manter o m\u00ednimo de fluidez.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo governo que surgiu no Chile foi o do primeiro candidato abertamente marxista a ganhar elei\u00e7\u00f5es diretas, Salvador Allende. Ele havia recebido um conselho de Fidel Castro, para manter-se negociando e participando da cadeia econ\u00f4mica dos EUA pelo m\u00e1ximo de tempo que pudesse, evitando assim que o Chile criasse uma depend\u00eancia exacerbada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, como ocorreu em Cuba. Entretanto, o governo socialista chileno n\u00e3o s\u00f3 teve todas as portas econ\u00f4micas fechadas internacionalmente, como foi sabotado e terminou num brutal Golpe de Estado, que n\u00e3o s\u00f3 assassinou Allende, como mergulhou o pa\u00eds numa ditadura conhecida pela sua s\u00e1dica e cruel repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou seja, a economia foi um fator determinante de pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Voltando ao caso brasileiro, o mesmo problema de uma economia insol\u00favel perante suas d\u00edvidas, do governo de Goulart, foi resolvido ap\u00f3s o Golpe de 1964, j\u00e1 que com Castello Branco o Brasil voltou a ser um dos preferidos para receber os investimentos da <em>Alliance.<\/em><\/p>\n<p>Alguns anos \u00e0 frente, quando o mundo viu o caos econ\u00f4mico que um cartel de pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo podia causar, a Am\u00e9rica Latina inteira tornou-se insolvente de novo. As negocia\u00e7\u00f5es voltavam justamente mais uma vez aos EUA, para que se pudesse resolver essa quest\u00e3o econ\u00f4mica. Nesta \u00e9poca, havia um novo agravante, n\u00e3o era mais s\u00f3 um problema de capital para pagar importa\u00e7\u00f5es, mas de reserva cambial em d\u00f3lares, gra\u00e7as \u00e0 pol\u00edtica de Nixon. A quest\u00e3o muda: n\u00e3o importa o quanto de produtos se tenha, \u00e9 preciso ter d\u00f3lares. Esse problema assombra a economia argentina at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, \u00e9 importante ressaltar que nesse per\u00edodo hist\u00f3rico, essas ditaduras j\u00e1 n\u00e3o eram mais geopoliticamente imprescind\u00edveis aos EUA, que j\u00e1 gostaria de desvincular-se das viol\u00eancias e viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, para ganhar mais uma vez uma suposta \u201csuperioridade moral\u201d perante a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Dessa forma, a renegocia\u00e7\u00e3o destas d\u00edvidas externas, causadas pelo colapso do petr\u00f3leo e de d\u00f3lares dispon\u00edveis, n\u00e3o foi amig\u00e1vel como foi a da <em>Alliance <\/em>com Frei e Castello Branco.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses ao Sul foram massacrados com pol\u00edticas de completa austeridade, o que pauperizou suas popula\u00e7\u00f5es, destruiu suas ind\u00fastrias e causou revoltas pol\u00edticas not\u00e1veis. Os EUA j\u00e1 almejavam o fim destes regimes, portanto n\u00e3o se incomodavam com tais insurrei\u00e7\u00f5es populares com seus governos. Havia, por\u00e9m, uma preocupa\u00e7\u00e3o com a classe de governo civil que viria a nascer no continente. Eis que a Argentina larga na frente e elege Ra\u00fal Alfons\u00edn, um civil que passou a incomodar tais \u201ccredores\u201d internacionais.<\/p>\n<p>Enquanto o pa\u00eds n\u00e3o sa\u00eda das p\u00e1ginas de jornalismo internacional pelo julgamento de seus ditadores pelos crimes atrozes da ditadura, o presidente argentino passou a tamb\u00e9m ser figura de apreens\u00e3o nas p\u00e1ginas econ\u00f4micas, por estar supostamente tentando criar um \u201ccartel de devedores\u201d, onde os pa\u00edses latino-americanos se juntariam para for\u00e7ar os EUA a oferecer melhores condi\u00e7\u00f5es de pagamento de suas d\u00edvidas, sob amea\u00e7a de morat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Este \u201ccartel\u201d acabou n\u00e3o nascendo, e as solu\u00e7\u00f5es foram menos beligerantes do que previam as preocupadas p\u00e1ginas econ\u00f4micas do <em>New York Times<\/em>. Apesar disso, as crises econ\u00f4micas geradas nesses pa\u00edses foram resistentes, avan\u00e7ando at\u00e9 as d\u00e9cadas de 1990 e, em alguns casos, os anos 2000. Basta lembrarmos o qu\u00e3o duro foi para o Brasil resolver seu problema da infla\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo, que veio como um presente dos militares e persistiu at\u00e9 o meio da d\u00e9cada seguinte \u00e0 que eles voltaram para a caserna.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria deste per\u00edodo nos ajuda a ilustrar como n\u00e3o existe maneira de dissociar os estudos econ\u00f4micos dos estudos sociopol\u00edticos, no que concerne a Hist\u00f3ria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Talvez ela nos ofere\u00e7a tamb\u00e9m paralelos interessantes sobre o interesse repentino (ou nem tanto) dos pa\u00edses latino-americanos em criar mecanismos e mercados para seu desenvolvimento que n\u00e3o necessitem de \u201cd\u00f3lares\u201d e nem de capital do Norte.<\/p>\n<p>Afinal, ao contr\u00e1rio do dito popular, a Hist\u00f3ria n\u00e3o ensina nada, mas uma boa interpreta\u00e7\u00e3o do passado nos permite compreender melhor o que acontece no presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>* Daniel Azevedo Mu\u00f1oz \u00e9 jornalista, doutorando em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidade Aut\u00f4noma de Madri (Espanha) e, atualmente, faz est\u00e1gio doutoral na ECA-USP.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo de Alberto Fern\u00e1ndez (Argentina), em meio \u00e0 primeira viagem internacional do presidente Lula em seu terceiro mandato, mencionou os planos para que ambos os pa\u00edses criassem uma moeda comum, o chamado Sur. 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