{"id":2122,"date":"2023-09-06T05:57:08","date_gmt":"2023-09-06T08:57:08","guid":{"rendered":"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2122"},"modified":"2023-09-07T19:07:58","modified_gmt":"2023-09-07T22:07:58","slug":"condores-aguias-e-harpias-antes-do-11-de-setembro-de-1973","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2122","title":{"rendered":"Condores, \u00c1guias e Harpias antes do 11 de Setembro de 1973"},"content":{"rendered":"<div class=\"single-introducao\">\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1865 aligncenter\" src=\"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL.jpg 303w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong><span class=\"TextRun SCXW171825229 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW171825229 BCX0\">Qual foi o papel brasileiro e de sua pol\u00edtica <\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW171825229 BCX0\">externa<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW171825229 BCX0\"> militar, em conjunto com a influ\u00eancia estadunidense, no Chile dos anos 1960 e 1970, antes da Ditadura de Augusto Pinochet<\/span><\/span><\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Em 11 de setembro de 1973, o presidente chileno Salvador Allende foi assassinado enquanto seu pa\u00eds sofreu um violento Golpe de Estado Civil-Militar, encabe\u00e7ado por Augusto Pinochet, que ficou no poder por quase 17 anos. Poucos anos antes, o Chile chegou a receber nos anos 1960 uma esp\u00e9cie de \u201cselo de qualidade\u201d da mesma pol\u00edtica estadunidense que auxiliou e fomentou o Golpe Civil-Militar de 1964, no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A pol\u00edtica da Alian\u00e7a para o Progresso, idealizada por John F. Kennedy e posta em marcha majoritariamente por Lyndon B. Johnson, j\u00e1 demonstrava suas falhas no final da d\u00e9cada, percebidas inclusive pelos jornais de corte mais \u201c\u00e0 esquerda\u201d dos pr\u00f3prios EUA. Neste cen\u00e1rio, o pa\u00eds \u201cmodelo\u201d andino elegeu um marxista para a presid\u00eancia do pa\u00eds, Salvador Allende Gossens. Chega-se na d\u00e9cada de 1970 e na ascens\u00e3o republicana de Richard Nixon. Em conjunto, o Brasil j\u00e1 perdia seu acr\u00edtico apoio aos EUA, ambicionando outras e maiores posi\u00e7\u00f5es. Entenda como este cen\u00e1rio se deu at\u00e9 o momento em que a ruptura violenta aconteceu no Chile.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Na pr\u00f3xima semana, acompanhe mais um artigo sobre a pol\u00edtica externa da ditadura brasileira ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o do regime chileno, al\u00e9m das repercuss\u00f5es do pinochetismo at\u00e9 hoje no Chile, 50 anos depois.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Da Alian\u00e7a para o Progresso at\u00e9 a <\/span><\/b><b><i><span data-contrast=\"auto\">realpolitik<\/span><\/i><\/b><b><span data-contrast=\"auto\"> de Henry Kissinger<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">\u00c9 crucial para a compreens\u00e3o das rupturas democr\u00e1ticas e forma\u00e7\u00e3o dos modelos ditatoriais do continente latino-americano da segunda metade do s\u00e9culo XX o entendimento do cen\u00e1rio hist\u00f3rico. Trata-se da Guerra Fria tardia, que era o plano de fundo das pol\u00edticas de influ\u00eancia dos blocos bipolares. Na Am\u00e9rica Latina, vivia-se a esfera de influ\u00eancia norte-americana, que permeava todas as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do continente, internas e externas. \u00c9 correto tamb\u00e9m dizer que n\u00e3o se deve atrelar tudo que ocorre em movimentos de ruptura deste tipo \u00e0 influ\u00eancia internacional. Apesar disso, no contexto de conflito social nos pa\u00edses do continente, muitas vezes esta influ\u00eancia n\u00e3o necessariamente precisava ser a causa, mas o ponto de desequil\u00edbrio que levava uma situa\u00e7\u00e3o a um destino A ou B.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><span data-contrast=\"auto\">Assim, \u00e9 importante delimitar qual era o cen\u00e1rio nos EUA e no restante da Am\u00e9rica Latina para entender as formas e os porqu\u00eas de estas rupturas acontecerem. No caso do Brasil, \u00e9 documentado que se vivia uma pol\u00edtica de incentivos fiscais e potentes propagandas anticomunistas, vinculadas aos ideais e aos fundos financeiros da Alian\u00e7a do Kennedy. Essa pol\u00edtica, continuada por Johnson ap\u00f3s o assassinato do presidente em Dallas, basicamente reunia nos poderes do Estado dos EUA, fundos e programas de propaganda, que ent\u00e3o eram aplicados no continente latino-americano, visando retirar o palanque dos crescentes movimentos comunistas, animados pela vitoriosa e resistente Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que assombrava os democratas da vez.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A ret\u00f3rica desta pol\u00edtica era pac\u00edfica, sua prefer\u00eancia era fortalecer os civis da direita \u201clevemente liberal\u201d dos pa\u00edses latino-americanos, para que estes ganhassem ou mantivessem o poder pol\u00edtico, assim impedindo o ascenso \u201cvermelho\u201d. Neste momento, se pergunta, como ent\u00e3o chegamos no Brasil a uma ditadura militar? A quest\u00e3o \u00e9, em cada pa\u00eds do continente, uma pol\u00edtica assim se combinava com a cultura pol\u00edtica e a situa\u00e7\u00e3o anterior do pa\u00eds, gerando um resultado espec\u00edfico. Houve lugares em que um governo civil conservador se implantou e prosperou (com maior ou menor \u00eaxito, al\u00e9m de maior ou menor concilia\u00e7\u00e3o com as esquerdas de vi\u00e9s socialista\/comunista). Em outros, n\u00e3o se chegou a isso.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">No caso brasileiro, ao observarmos as conversas de Kennedy com o embaixador estadunidense no Brasil \u00e0 \u00e9poca, Lincoln Gordon, vemos que o democrata desejava derrubar Jo\u00e3o Goulart para a implanta\u00e7\u00e3o de um governo civil dos conservadores mais alinhados \u00e0 sua pol\u00edtica e a seus interesses. Contudo, atrav\u00e9s das paranoias do embaixador, que dizia que Jango estava \u201centregando o pa\u00eds aos comunistas\u201d, os democratas de alto escal\u00e3o foram aceitando a solu\u00e7\u00e3o de uma subleva\u00e7\u00e3o militar, j\u00e1 que passaram a v\u00ea-la como a \u00fanica forma vi\u00e1vel de retirar Goulart, que tinha um grande apoio popular e suficiente apoio militar, ao contr\u00e1rio do que se costuma relatar.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Dizer isso n\u00e3o \u00e9 dizer que os norte-americanos foram for\u00e7ados a aceitar os militares, mas certamente explica porque realizaram uma pol\u00edtica de apoio primeiro, e chegaram a uma pol\u00edtica de cr\u00edtica depois, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura brasileira. Essa mudan\u00e7a aconteceu tamb\u00e9m, entre muitos fatores, porque apenas um dos l\u00edderes da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d no Brasil era realmente um american\u00f3filo admitido, o marechal Castelo Branco. Os outros podiam at\u00e9 n\u00e3o odiar os EUA (e odiavam muito os comunistas), mas mantinham um tipo de nacionalismo espec\u00edfico, que n\u00e3o era o que desejavam os norte-americanos. Pelo que se observa nos arquivos de documentos consulares dos EUA e nas coberturas de seus jornais da \u00e9poca, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o governo de Washington esperasse que Castelo Branco sa\u00edsse ainda em 1965, para quando estavam previstas elei\u00e7\u00f5es. Dessa forma, o pa\u00eds poderia escolher entre as op\u00e7\u00f5es \u201cmais aceit\u00e1veis\u201d de Adhemar de Barros, Magalh\u00e3es Pinto ou Carlos Lacerda. Este \u00faltimo, embora mais \u201cpopular\u201d, era o menos preferido dos estadunidenses, porque n\u00e3o se continha em criticar suas pol\u00edticas em nome tamb\u00e9m de uma esp\u00e9cie de nacionalismo, mais ferrenho e direitista que o dos militares.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Ao final dos anos 1960, todavia, a hegemonia dos democratas naufragava, em conjunto com a pol\u00edtica da Alian\u00e7a. Os motivos not\u00e1veis para isso eram especialmente os problemas que nasciam do militarismo da regi\u00e3o, com destaque ao caso brasileiro. A observ\u00e2ncia da evolu\u00e7\u00e3o da ditadura brasileira era reconhecida como uma importante \u201cderrota\u201d estadunidense, sobre a efetividade da pol\u00edtica democrata. Nesta onda, cresce Nixon, com sua abordagem mais \u201cpr\u00e1tica\u201d da pol\u00edtica externa, personificada na figura de Kissinger, seu homem-forte de rela\u00e7\u00f5es internacionais. Entra-se ent\u00e3o na \u00e9poca desta <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">realpolitik<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, que parou de oferecer \u201cajudas\u201d e investimentos financeiros, passando a oferecer empr\u00e9stimos de bancos norte-americanos para o continente (o que viria a gerar a crise econ\u00f4mica da regi\u00e3o, uma d\u00e9cada depois).\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Na pr\u00e1tica, os republicanos \u201clibertaram\u201d essas rela\u00e7\u00f5es do Estado, privilegiando o poder privado estadunidense, que ganhava controles que n\u00e3o tinham. O que sobrou ao Estado de Nixon e Kissinger era o apoio log\u00edstico e militar, onde fosse \u201cestritamente\u201d necess\u00e1rio, mas jamais a administra\u00e7\u00e3o dessas influ\u00eancias e pol\u00edticas, j\u00e1 que as empresas podiam realiz\u00e1-las.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Dessa forma, o Golpe no Chile nasceu de um contexto de influ\u00eancia estadunidense claramente distinto. A ajuda do governo norte-americano vinha em conjunto com a a\u00e7\u00e3o privada de suas empresas, que estavam perdendo espa\u00e7o no pa\u00eds devido \u00e0s pol\u00edticas de Allende. Assim como foi no caso brasileiro, essas pol\u00edticas tachadas de \u201ccomunistas\u201d eram na realidade mais de cunho nacional, do que necessariamente socialistas. Mais um agravante era que, diferentemente de Jango, Allende era um socialista. Ficava mais f\u00e1cil culp\u00e1-lo de subvers\u00e3o, independentemente do que ele viesse a fazer como pol\u00edtica p\u00fablica. Ironicamente, inclusive nos jornais estadunidenses (especialmente os com vi\u00e9s mais democrata), via-se uma ruptura no Chile como imposs\u00edvel, especialmente devido \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, as mesmas que deram aval para a posse de Allende.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Entre uma disputa de interesses, de estadunidenses a brasileiros<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O interesse dos militares brasileiros em expandir sua influ\u00eancia frente aos pa\u00edses vizinhos nasceu ainda nos primeiros anos da ditadura, especialmente conforme o general Costa e Silva manifestava sua vontade de realmente presidir o pa\u00eds. Vale a lembran\u00e7a de que as lideran\u00e7as das For\u00e7as Armadas do Golpe Civil-Militar eram justamente Castelo Branco e Costa e Silva, al\u00e9m de uma quantidade importante de outros generais pelo pa\u00eds. A implanta\u00e7\u00e3o da ditadura tamb\u00e9m passou por in\u00fameras depura\u00e7\u00f5es militares dos fi\u00e9is ao governo constitucional de Jango, al\u00e9m de algumas cinematogr\u00e1ficas trai\u00e7\u00f5es de aliados, desde os civis desencantados como Lacerda, at\u00e9 o general da \u201clinha de frente\u201d, Ol\u00edmpio Mour\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Castelo Branco virou presidente porque se via nele a for\u00e7a mais estabilizadora, diferentemente de Costa e Silva, com tra\u00e7os mais truculentos. \u00c9 importante notar tamb\u00e9m que os estadunidenses confiavam muito mais na \u201cmodera\u00e7\u00e3o\u201d e na \u201clinha democr\u00e1tica\u201d do primeiro general que governou o Brasil. Contudo, os interesses de Costa e Silva persistiam e este n\u00e3o aceitaria que n\u00e3o teria sua \u201cmordida na ma\u00e7\u00e3\u201d de governar o pa\u00eds, tanto que soube surfar na onda da radicaliza\u00e7\u00e3o que os oficiais de mais baixo clero traziam ao governo militar. Isso foi percebido pelos EUA, inclusive atrav\u00e9s de seus jornais com correspondentes locais.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A partir desse ponto, a inten\u00e7\u00e3o do Brasil em se tornar um pequeno \u201cimp\u00e9rio\u201d de influ\u00eancia local crescia, especialmente com os militares se baseando em conceitos nacionalistas que misturavam uma estranha leitura de Gilberto Freyre (com toques de leituras estranhas tamb\u00e9m de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%A9rgio_Buarque_de_Holanda\">S\u00e9rgio Buarque de Holanda<\/a>, mesmo que este n\u00e3o pudesse jamais ser reconhecido como influ\u00eancia, por sua origem vinculada ao PSB dos anos de Get\u00falio Vargas), com suas teses particulares do mito do pa\u00eds da \u201cdemocracia mesti\u00e7a\u201d. Junto a isso, abusavam das teses da \u201cexcepcionalidade brasileira\u201d, frente aos vizinhos com suas ra\u00edzes de coloniza\u00e7\u00e3o espanhola. Naquela \u00e9poca, os militares apostavam que a ideia da \u201cexcepcionalidade\u201d era uma enorme for\u00e7a motriz de desenvolvimento e influ\u00eancia, possivelmente at\u00e9 observando o quanto ela funcionava para o caso dos estadunidenses.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Costa e Silva, e todos seus sucessores, mantinham uma vis\u00e3o muito mais estrat\u00e9gica do que id\u00edlica dos EUA, diferentemente de Castelo Branco. N\u00e3o enalteciam as solu\u00e7\u00f5es norte-americanas como aptas para o caso brasileiro, especialmente porque o pa\u00eds tinha elites distintas das estadunidenses, pelo hist\u00f3rico colonial e pol\u00edtico do s\u00e9culo anterior. Juntando essa ideia com o tradicional \u201cflorianismo\u201d das For\u00e7as Armadas, chegava-se a um ponto em que a pol\u00edtica externa da ditadura visava alinhar a Am\u00e9rica Latina ao seu lado. H\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o no caso argentino, que n\u00e3o era visto como um ponto de expans\u00e3o, mas como um competidor pela hegemonia do continente.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A partir deste ponto, a ditadura brasileira teve uma rela\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel com o Chile, que vinha de antes de Allende governar o pa\u00eds. Afinal, o Chile mantinha um ideal de democracia liberal que era fortemente atacado pelas ideias da ditadura brasileira, que era anticomunista mas tamb\u00e9m antiliberal a n\u00edvel pol\u00edtico. Para piorar, ainda no governo chileno do conservador Jorge Alessandri, o pa\u00eds recebia como refugiados e dava tratamento especial a professores universit\u00e1rios brasileiros que eram depurados pelos atos institucionais de Castelo Branco. Al\u00e9m disso, as universidades chilenas repudiavam o que ocorria no Brasil no dito \u201cexagero\u201d das persegui\u00e7\u00f5es, que passaram a atingir muito al\u00e9m dos \u201ccomunistas\u201d de Goulart. Pode parecer um ponto minorit\u00e1rio, mas foi neste mesmo momento que os jornais norte-americanos de corte mais \u201cliberal\u201d (no sentido estadunidense da palavra) passavam a questionar o que ocorria no Brasil como um \u201cgiro errado\u201d da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d. Nessa hora, o Chile se mostrava como um exemplo que os norte-americanos gostavam de usar de contraponto ao Brasil, como um lugar que realmente \u201cfez bom uso\u201d de suas influ\u00eancias. O New York Times, \u00e0 \u00e9poca, noticiou com algum destaque a pris\u00e3o no Brasil do l\u00edder estudantil chileno, Luis Maira.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Pouco depois, o Chile elegeu outro conservador, levemente mais moderado, Eduardo Frei (pai). L\u00edder do <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Partido Dem\u00f3crata Cristiano<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> (PDC), Frei levou ao Chile uma leve pol\u00edtica de reformas, chanceladas por diversos setores da sociedade. Assim, o pa\u00eds virou um dos preferidos da pol\u00edtica de Johnson para seus investimentos da Alian\u00e7a. O outro preferido era o Brasil. Contudo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a vital aqui: o Chile era o escolhido pelo \u201csucesso\u201d do modelo, o Brasil era escolhido justamente porque as coisas poderiam \u201cdesandar\u201d, e Kennedy j\u00e1 havia alertado que o Brasil era o pa\u00eds mais estrat\u00e9gico da regi\u00e3o, aquele que o continente \u201cseguiria\u201d. Tamb\u00e9m se deve recordar que os instrumentos de influ\u00eancia norte-americana no continente latino-americano dependiam de que os investimentos persuadissem os l\u00edderes a alinhar-se mais \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o de Estados Americanos (OEA), do que a Fidel Castro. Isso funcionou bem nos anos 1960, tendo pontos altos, como com o apoio de tropas brasileiras \u00e0 invas\u00e3o estadunidense \u00e0 Rep\u00fablica Dominicana e \u00e0 pol\u00edtica conjunta de \u201ccombate a guerrilhas\u201d, encampada pela OEA. Por\u00e9m, foi neste \u00faltimo caso que o \u201cbom modelo\u201d chileno deu um primeiro sinal de inc\u00f4modo, j\u00e1 que o pa\u00eds se recusara, sob o governo de Frei, a se juntar a essa pol\u00edtica.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Frei queria implantar no pa\u00eds uma pol\u00edtica antimilitarista, com uma ret\u00f3rica de que era necess\u00e1rio criar um ambiente mais pacifista no continente. Contudo, n\u00e3o s\u00f3 de vendas aos EUA vivia o pa\u00eds andino, o que fez com que o presidente chileno viesse ao Brasil participar das comemora\u00e7\u00f5es militarizadas do 7 de setembro de 1968, ano que marcou o \u00e1pice da viol\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds, quando o AI-5 viria para selar que o Brasil n\u00e3o mais daria uma volta \u00e0 \u201cdemocracia liberal\u201d que sonhou Kennedy e Johnson. Frei prestou \u00e0s honras ao Brasil porque necessitava fortalecer os mercados de seu pa\u00eds, e embora j\u00e1 tivesse tido sucesso na integra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses andinos, precisava do apoio de pa\u00edses \u201cmaiores\u201d economicamente, como o Brasil e a Argentina. Naquele momento, entre os militarismos de Juan Carlos Ongan\u00eda na Argentina e o de Costa e Silva no Brasil, se optou por preferir o Brasil, pelo fato de que a economia brasileira demonstrava mais sinais de \u00eaxito.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Mas Costa e Silva queria que o Brasil negociasse com o Norte global, e pouco a pouco ia tentando mostrar os dentes, para que o pa\u00eds n\u00e3o negociasse como um \u201cvassalo\u201d com estas pot\u00eancias. No Chile, se via um pa\u00eds acess\u00f3rio, sujeito a influ\u00eancia, n\u00e3o um parceiro estrat\u00e9gico.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">O terremoto nas estruturas \u2013 Salvador Allende Gossens<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Enquanto Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici subia ao \u201ctrono\u201d no Brasil e Nixon se assentava presidente, ocorreu algo inesperado no Chile. O recorrente candidato socialista conseguiu a maioria do parlamento chileno nas elei\u00e7\u00f5es (mesmo que por pouco). E n\u00e3o se fala aqui de um socialista \u201ceuropeu\u201d, mas sim de um marxista declarado, amigo de Castro. N\u00e3o obstante, Allende tinha inclina\u00e7\u00f5es de criar um caminho democr\u00e1tico ao socialismo, o que o diferenciava de seus pares cubanos. Imagina-se o tamanho do inc\u00f4modo para a \u201clinha-dura\u201d anticomunista que governava o Brasil neste momento, com a possibilidade de uma \u201cnova Cuba\u201d nascer no continente. Al\u00e9m disso, a vit\u00f3ria de Allende era o prego no caix\u00e3o da Alian\u00e7a dos democratas, j\u00e1 que provava que sua pol\u00edtica n\u00e3o somente trouxe militarismo \u00e0 Am\u00e9rica Latina, como n\u00e3o impediu a \u201cascens\u00e3o do Castrismo\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Quando Allende assumiu o Pal\u00e1cio de La Moneda, o <\/span><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2023\/08\/30\/world\/americas\/chile-military-coup-disappeared-search.html\"><i><span data-contrast=\"auto\">New York Times<\/span><\/i><\/a><span data-contrast=\"auto\"> j\u00e1 chamava o Brasil de <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201cmilitary dictatorship\u201d.<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> Importante dizer que essa ascens\u00e3o se deu depois de uma not\u00e1vel novela. No Chile, havia a tradi\u00e7\u00e3o de que o partido mais votado deveria formar governo sempre, mesmo que n\u00e3o tivesse necessariamente mais da metade dos votos. Contudo, devido \u00e0 excepcionalidade de Allende, se questionou se n\u00e3o haveria uma esp\u00e9cie de bloqueio parlamentar \u00e0 sua nomea\u00e7\u00e3o. Como isso tudo eram mais conven\u00e7\u00f5es do que realmente regras constitucionais, havia um poss\u00edvel caminho para que os Liberais e o PDC fechassem a porta a Allende.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Por\u00e9m, o pa\u00eds optou por seguir as suas tradi\u00e7\u00f5es de democracia representativa e apontou Allende presidente. Portanto, se o Chile j\u00e1 era um ponto de \u201cescape\u201d para perseguidos pela ditadura no Brasil, agora era realmente um <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">\u201chub\u201d<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> de oposi\u00e7\u00e3o ao militarismo latino-americano, atraindo dissidentes. Junta-se isso ao fato de que Allende havia colocado em marcha um plano estatizante e socialista no pa\u00eds, que afetaria n\u00e3o somente as <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/uma-transnacional-contra-allende\/\">empresas estadunidenses<\/a>, mas tamb\u00e9m a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o do t\u00e3o importante cobre do pa\u00eds, para as ind\u00fastrias de v\u00e1rios pontos do planeta. \u00c9 importante frisar que alguns eixos deste plano estatizador j\u00e1 haviam come\u00e7ado com Frei. Apesar disso, por n\u00e3o ser um marxista, Frei conseguiu que seus planos despertassem menos medo nos anticomunistas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Demorou algum tempo para que os jornais estadunidenses e brasileiros soubessem como interpretar Allende. De alguma forma, aquele governo n\u00e3o parecia t\u00e3o violento \u00e0s paranoias daquela \u00e9poca, em compara\u00e7\u00e3o com o que se desenhava para figuras como Castro, ou mesmo Juan Domingo Per\u00f3n (que tamb\u00e9m claramente n\u00e3o era comunista). O New York Times chegou a destacar o que o ent\u00e3o presidente chileno dissera: \u201cmeu governo n\u00e3o ser\u00e1 socialista, mas de um nacionalismo popular, democr\u00e1tico e revolucion\u00e1rio, que se mover\u00e1 com o tempo para o socialismo\u201d. Claro que em conjunto a essas afirma\u00e7\u00f5es, as coberturas norte-americanas abusavam de uma vis\u00e3o caricata de Allende, o desenhando como um \u201crico esquerdista\u201d, que vivia em uma casa confort\u00e1vel, cheia de presentes cubanos de seu amigo Castro, al\u00e9m de um livro com dedicat\u00f3ria de Che Guevara. No contexto da pol\u00edtica do medo da \u00e9poca, esse discurso seria inevit\u00e1vel, mesmo quando os correspondentes eram de vi\u00e9s mais \u201c\u00e0 esquerda\u201d. N\u00e3o se enganem, estes correspondentes existiam, mesmo entre os norte-americanos que trabalhavam para o New York Times, o Washington Post e o Los Angeles Times, entre outros jornais. Esse foi o caso de Joe Novitski, Juan de On\u00eds, e tantos outros, que correram ao pa\u00eds em setembro de 1973, para ver o que acontecia no \u201cpacifico\u201d territ\u00f3rio andino.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Para os generais brasileiros, um Allende socialista era uma afronta. E um nacionalista? Tamb\u00e9m. Lembremos que o pa\u00eds desejava um protagonismo no continente, que era mais f\u00e1cil de se atingir sem for\u00e7as nacionalistas nos pa\u00edses \u201cmenores\u201d ao redor. Diferentemente do que viria a ser contado depois pela historiografia militar (e at\u00e9 por alguns historiadores marxistas), Allende era um pol\u00edtico muito h\u00e1bil, por isso tentava navegar nesta turbul\u00eancia de influ\u00eancias internacionais com mais delicadeza do que se imagina. N\u00e3o houve uma ruptura direta com os EUA e com o Brasil, nem um alinhamento veloz com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) ou com Cuba. Uma prova dessa vontade de navegar com calma vinha da famosa cena em que Castro teria informado a seu amigo que \u201cse sua presen\u00e7a fosse inc\u00f4moda politicamente em sua posse, ele n\u00e3o iria, sem nenhum problema\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Obviamente acendia um alarme nos EUA de Nixon e Kissinger, que mesmo sendo menos \u201cinvasivos\u201d em suas pol\u00edticas que os democratas, sabiam que a presen\u00e7a de Allende no governo chileno era, al\u00e9m de um problema econ\u00f4mico, um problema pol\u00edtico. Os republicanos imaginavam que caso o modelo socialista chileno tivesse \u00eaxito, n\u00e3o tardaria para que o \u201ccomunismo\u201d tomasse conta tamb\u00e9m do Peru, da Bol\u00edvia e da Argentina. Juntando-se isso ao fato de que as empresas estadunidenses estavam irritadas com a perda de poder no pa\u00eds andino, pareceu \u00f3bvia a pol\u00edtica de usar da influ\u00eancia do Estado para \u201ciscar a fa\u00edsca\u201d dos conflitos no pa\u00eds, atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias empresas. \u00c9 mais uma grande diferen\u00e7a entre os golpes chileno e brasileiro.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">No Brasil, a influ\u00eancia estadunidense veio diretamente de pol\u00edticas do Estado, em conjunto com suas influ\u00eancias militares, que tamb\u00e9m vinham diretamente das For\u00e7as Armadas do pa\u00eds. No Chile, o processo foi mais \u201cdelicado\u201d, com espionagem e influ\u00eancias mais indiretas, se utilizando dos interesses privados como bucha de canh\u00e3o. Dessa forma, havia mais uma vantagem na pol\u00edtica de Nixon\/Kissinger: ao mesmo tempo que dava mais isen\u00e7\u00e3o ao seu Estado, para dizerem que \u201cn\u00e3o fizeram nada\u201d; tamb\u00e9m fortalecia o lado civil da ruptura, especialmente na figura de suas pr\u00f3prias empresas, garantindo que seja o que viesse depois, n\u00e3o causaria problemas de nacionalismos militares, como ocorria no Brasil.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Pensando assim, se pode imaginar que os exemplos negativos do Brasil e de outros pontos do continente, durante a pol\u00edtica democrata, moldaram a pol\u00edtica republicana para garantir \u00eaxito na maneira de derrotar o governo inc\u00f4modo no Chile. Esses planos faziam mais sentido, inclusive, porque resolveriam alguns outros problemas do governo Nixon, vindos do nacionalismo militar da regi\u00e3o, como nos casos do Peru e da Bol\u00edvia. Essas ditaduras, embora de extrema-direita, viram com bons olhos os ideais da \u201cvia chilena ao socialismo\u201d, no caso espec\u00edfico da estatiza\u00e7\u00e3o de minas e bancos. At\u00e9 mesmo o Brasil, nessa \u00e9poca de \u201cmilagre\u201d, come\u00e7ava a cada vez mais entrar em conflitos econ\u00f4micos com os interesses dos EUA e da Europa Ocidental, j\u00e1 que com a crescente ind\u00fastria nacional e o agroneg\u00f3cio em ascens\u00e3o, o pa\u00eds se tornava um competidor, n\u00e3o mais um simples fornecedor de mat\u00e9rias primas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Espelhos entre o Brasil e o Chile<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O governo dos generais brasileiros sabia que teria que manter algum n\u00edvel de rela\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica com inimigos ideol\u00f3gicos, especialmente quando estes n\u00e3o oferecessem nenhum tipo de poder de influ\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds. Obviamente n\u00e3o negociariam e nem lidariam com Cuba, que \u201cexportava revolu\u00e7\u00e3o\u201d, mas lidavam bem com o fato do M\u00e9xico ser um pa\u00eds que oferecia um contraponto inc\u00f4modo ao nacionalismo direitista brasileiro. Nessa \u00e9poca, at\u00e9 rela\u00e7\u00f5es com a URSS, a \u201cChina vermelha\u201d e com o socialismo africano da Arg\u00e9lia ocorreram. Quando o inimigo n\u00e3o \u201cinfluenciava\u201d as esquerdas brasileiras, a rela\u00e7\u00e3o existia, \u00e0s vezes at\u00e9 com com\u00e9rcio.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O governo de Allende se portou mais como quem queria essa rela\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s da que tinha Cuba com o Brasil. Apesar disso, nessa hora falou muito alto a quest\u00e3o da proximidade. Afinal, o M\u00e9xico e a Arg\u00e9lia, assim como a China e a URSS, eram \u201cdistantes\u201d o suficiente para n\u00e3o se tornarem um caminho f\u00e1cil para fomentar \u201csubvers\u00e3o\u201d. Contudo, o Chile estava \u201cao lado\u201d, e os militares detectaram que os grupos de esquerda brasileiros passaram a se reunir no pa\u00eds. O Chile passou a aparecer na lista de poss\u00edveis pa\u00edses para libertar presos pol\u00edticos, nas trocas que ocorriam em negocia\u00e7\u00f5es com as guerrilhas urbanas, na onda de sequestros de figuras diplom\u00e1ticas no Brasil durante os governos da Junta Militar e de M\u00e9dici.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Assim, o governo M\u00e9dici passou a limitar as possibilidades de viajantes comuns irem ao pa\u00eds. N\u00e3o importava tanto o quanto Allende queria ou n\u00e3o esse papel, ele j\u00e1 estava com ele, e acendia a raiva do imperialismo militar do Brasil. At\u00e9 padres cat\u00f3licos eram proibidos de viajar a certas reuni\u00f5es no Chile, quando se suspeitava que eram \u201ccomunistas\u201d da Igreja.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Com a vinda do <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/sociologia-do-massacre-50-anos-apos-o-golpe-no-chile\/\">Golpe de Pinochet<\/a>, se encerrava brutalmente essa \u201cvia socialista\u201d t\u00e3o pr\u00f3xima ao Brasil. Pode-se dizer que o erro cometido por Allende, que o havia levado a ser tra\u00eddo pelas For\u00e7as Armadas, carregava semelhan\u00e7a ao cometido por Jango. Mesmo que os militares chilenos fossem vistos como \u201cdiferenciados\u201d no continente, por levarem uma vida mais \u201caustera\u201d e menos ligada \u00e0 necessidade de enriquecimento e poder pol\u00edtico \u2013 o que acalmava at\u00e9 os \u201cliberais\u201d democratas dos EUA \u2013 eles partilharam da sedu\u00e7\u00e3o de uma trai\u00e7\u00e3o a um presidente que buscou neles um apoio constitucional.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">No Brasil, com o in\u00edcio da subleva\u00e7\u00e3o, foi somente quando o \u201ccompadre\u201d de Goulart, o general Amaury Kruel, o traiu, que o movimento tomou o corpo necess\u00e1rio para que Johnson movesse seus porta-avi\u00f5es para apoio log\u00edstico nos mares do Nordeste brasileiro. A partir da\u00ed, mesmo que Leonel Brizola e mais alguns quisessem lutar, a luta era perdida, como anunciou San Tiago Dantas, amigo de Goulart, ao inform\u00e1-lo que os \u201cyankees abra\u00e7aram os golpistas\u201d.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Jango imaginava que seu \u201cdispositivo\u201d de apoio militar era forte, mas a verdade \u00e9 que as for\u00e7as n\u00e3o resistiram ao aliciamento de generais com sanha de poder e fortalecidos por suas rela\u00e7\u00f5es com os EUA. Vale lembrar que no Brasil as For\u00e7as Armadas eram naquele momento provavelmente muito menos alinhadas aos EUA do que se imagina, contando com grande presen\u00e7a de figuras nacionalistas (ou at\u00e9 varguistas), que n\u00e3o desejavam uma ruptura constitucional. Sem contar que os \u201cbaixos cleros\u201d do Ex\u00e9rcito e da Marinha eram mais ligados a Jango, do que aos estrelados generais sublevados. N\u00e3o \u00e0 toa, o primeiro grupo depurado pela ditadura n\u00e3o foi nem os petebistas ou os \u201ccomunistas\u201d do governo Goulart, mas os militares que apoiaram a ordem constitucional.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">No Chile, n\u00e3o havia nas For\u00e7as Armadas alas com vieses mais \u201cdesenvolvimentistas\u201d, como no caso brasileiro. Era uma for\u00e7a realmente mais neutra e ligada a um ide\u00e1rio constitucional. Visto isso, Allende imaginou que bastava convencer essas tropas de que seu governo era leg\u00edtimo (assim como o pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico chileno tinha garantido), para que estivesse seguro no seu \u201cdispositivo\u201d militar. O aliciamento por l\u00e1, no entanto, talvez tenha sido at\u00e9 mais forte, j\u00e1 que n\u00e3o havia uma \u201cbase\u201d de tropas \u201cpr\u00f3-EUA\u201d, como no Brasil.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Mais uma vez, a maior queda veio de uma trai\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que Pinochet havia sido justamente um dos militares de alta patente que Allende escolhera para \u201ctrazer para o seu lado\u201d, em conjunto com o apoio dos <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">carabineros<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">, o an\u00e1logo ao \u201cbaixo clero\u201d brasileiro. Este, sim, pode entrar na conta como um erro do presidente socialista, j\u00e1 que foram esses grupos que perpetraram o Golpe e violentamente o mataram.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<div id=\"attachment_2123\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2123\" class=\"size-medium wp-image-2123\" src=\"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/salvador-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/salvador-300x201.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/salvador.jpg 710w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-2123\" class=\"wp-caption-text\">Salvador Allende no dia 11 de setembro de 1973, quando o Chile sofreu o golpe de Pinochet (Creative Commons)<\/p><\/div><\/blockquote>\n<p><em><b>* Daniel Azevedo Mu\u00f1oz <\/b>\u00e9 professor e jornalista, mestre e doutorando em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidad Aut\u00f3noma de Madrid. Integra o grupo de pesquisa em Jornalismo Popular &amp; Alternativo, da Universidade de S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>OBS<\/strong>: mat\u00e9ria publicada, originalmente, no Le Monde Diplomatique em Brasil 5<span class=\"year\"> de setembro de 2023 <\/span>e reproduzida com autoriza\u00e7\u00e3o do autor:\u00a0 https:\/\/diplomatique.org.br\/condores-aguias-e-harpias-antes-do-11-de-setembro-de-1973\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual foi o papel brasileiro e de sua pol\u00edtica externa militar, em conjunto com a influ\u00eancia estadunidense, no Chile dos anos 1960 e 1970, antes da Ditadura de Augusto Pinochet Em 11 de setembro de 1973, o presidente chileno Salvador Allende foi assassinado enquanto seu pa\u00eds sofreu um violento Golpe de Estado Civil-Militar, encabe\u00e7ado por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1865,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[305],"tags":[330],"class_list":["post-2122","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusiva","tag-chile"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2122"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2122\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2138,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2122\/revisions\/2138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}