{"id":2153,"date":"2023-09-26T12:32:07","date_gmt":"2023-09-26T15:32:07","guid":{"rendered":"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2153"},"modified":"2023-09-26T12:34:02","modified_gmt":"2023-09-26T15:34:02","slug":"depoimento-eu-minha-mae-e-o-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2153","title":{"rendered":"Depoimento: Eu, minha m\u00e3e e o c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Ser cuidadora de familiar com c\u00e2ncer \u00e9 engolir o choro permanente.<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<div id=\"attachment_2154\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2154\" class=\"wp-image-2154 size-medium\" src=\"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/bia-2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/bia-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/bia-2.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-2154\" class=\"wp-caption-text\"><strong>M\u00e3e e filha: parceiras<\/strong><\/p><\/div><\/blockquote>\n<p>Eu sentia um orgulho enorme da minha m\u00e3e. Dif\u00edcil explicar um s\u00f3 por qu\u00ea. Esse sentimento eu tinha desde muito pequena, sem que entendesse qualquer coisa do mundo. Eu tinha orgulho porque minha m\u00e3e sempre foi um porto seguro. N\u00e3o s\u00f3 meu. Mas de muita gente. Eu reconhecia nela essa habilidade de juntar afeto, seguran\u00e7a, humor, gentileza e sabedoria. E as pessoas ao redor dela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Percebia que dizer que era filha de In\u00eas n\u00e3o era pouca coisa. Pela rea\u00e7\u00e3o das pessoas. Lembro bem das rea\u00e7\u00f5es de alegria, respeito e das reafirma\u00e7\u00f5es de como ela era incr\u00edvel. Ainda em vida. E isso s\u00f3 se manteve ap\u00f3s a morte dela, em julho de 2020, ap\u00f3s 14 longos anos lutando contra um melanoma de cor\u00f3ide. Sim, no olho. Descobriu por acaso, ao tapar um olho numa brincadeira e perceber que n\u00e3o enxergava nada. Um dos piores c\u00e2nceres, o melanoma. Raro, muito raro. Mas como ela dizia rindo, \u201cculpa do DNA estragado da nossa fam\u00edlia\u201d! Somos todos um pouco raros por aqui\u2026<\/p>\n<p>Com minha m\u00e3e comigo, eu me sentia protegida. Porque ela dava solu\u00e7\u00e3o pra tudo. Ela lutava como podia para n\u00e3o ficar no sofrimento. Lutava para sair da tristeza. Era um custo alto n\u00e3o se acomodar em sofrer e reclamar. E quando eu fazia do ouvido dela dep\u00f3sito de reclama\u00e7\u00e3o, ela j\u00e1 disparava: n\u00e3o tem nada de bom pra contar?! Ela queria que eu tamb\u00e9m n\u00e3o me acomodasse em lamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa para a qual ela n\u00e3o tinha solu\u00e7\u00e3o era o c\u00e2ncer. Ela fez o que p\u00f4de. Pesquisou quem eram os melhores m\u00e9dicos, melhor hospital, leu muito sobre sa\u00fade, mudou seu estilo de vida, aceitou a nova rotina cheia de marca\u00e7\u00f5es de exames, consultas, de agulhadas. Virou ass\u00eddua frequentadora do Clube da Luta, como ela chamava o Hospital AC Camargo, um das refer\u00eancias no tratamento de c\u00e2ncer no Brasil. E ainda dizia: sorte nossa morar em S\u00e3o Paulo. E olhando por esse lado, sim, muita sorte. E tivemos muitas outras sortes. Privil\u00e9gio que chama.<\/p>\n<p>O meu desespero era n\u00e3o poder proteger quem me protegeu a vida toda. Era n\u00e3o poder solucionar o \u00fanico problema para o qual ela n\u00e3o tinha solu\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o tem manual para cuidar da m\u00e3e com c\u00e2ncer aos 25 anos (ela tinha 58 quando recebeu o diagn\u00f3stico), e sendo filha \u00fanica de pai falecido (de infarto, durante tratamento de leucemia rec\u00e9m-diagnosticada). Ali\u00e1s, ele morreu cinco meses depois do diagn\u00f3stico dela. Eu, que achava que perderia minha m\u00e3e naquele momento, perdi meu pai, aos 61 anos. E onde n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00e3o, a gente s\u00f3 engata a primeira e vai. E depois ganha o t\u00edtulo de guerreira e forte. Mas qual outro caminho seria poss\u00edvel? Desconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu fiz o que eu sabia. Amei muito minha m\u00e3e. Estive presente. Segurei a sua m\u00e3o nas dezenas de furos nas m\u00e3os e bra\u00e7os para tomar medica\u00e7\u00e3o. Fui com ela, dirigindo meu carro para aliviar ao menos essa obriga\u00e7\u00e3o do tratamento: sim, o transporte. Lidei com o plano de sa\u00fade para ela n\u00e3o ter esse estresse adicional. Eu pegava \u00e1gua para ela na sala de espera do hospital. Tamb\u00e9m criamos a rotina de tomar caf\u00e9 na lanchonete do hospital. E na volta pra casa, parar no supermercado para comprar o p\u00e3o preferido dela. Fiz at\u00e9 um blog para ela se culpar e falar sobre o que a interessava, inclusive o c\u00e2ncer, livros e nossas viagens. Manter o blog, certamente, deu mais dias de vida a ela.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>https:\/\/blogdaines.wordpress.com<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eu engoli muito o choro. Como quando precisei ver a cavidade ocular dela, ap\u00f3s a enuclea\u00e7\u00e3o (sim, retirada do globo ocular), para passar a pomada do p\u00f3s-operat\u00f3rio. Ela estava muito vulner\u00e1vel e constrangida. Eu diria que at\u00e9 envergonhada de me fazer passar por isso. Mas a gente precisava uma da outra. E nossa cumplicidade permitiu que pass\u00e1ssemos juntas, em profunda seguran\u00e7a emocional,por essa etapa trist\u00edssima. Choro ainda hoje s\u00f3 de lembrar\u00a0 esse dia.<\/p>\n<p>O c\u00e2ncer n\u00e3o era um tabu. Nem tinha como ser. Afinal, ele atravessa a vida do paciente e de quem cuida dele. E se voc\u00ea quer viver apesar do c\u00e2ncer, precisa cuidar muito bem do tratamento. E isso exige tempo, dinheiro, energia, mudan\u00e7a de prioridades. E apoio. Muito apoio.<\/p>\n<p>E tem uma cena que eu jamais esqueci nessa jornada de apoiar e cuidar da minha m\u00e3e ao longo desses tantos anos desde o diagn\u00f3stico. Ela ligou para uma amiga para contar a m\u00e1 not\u00edcia de que estava com c\u00e2ncer. Eu estava do lado, no sof\u00e1. Passados uns dois minutos de conversa, ou\u00e7o minha m\u00e3e falando: \u201cN\u00e3o fica assim. Vai ficar tudo bem\u201d. E assim, a pessoa que devia ser consolada, teve que ter for\u00e7a para consolar. E ela fez isso muitas vezes. E aposto que o fazia com muita dor.<\/p>\n<p>Ser cuidadora de familiar com c\u00e2ncer \u00e9 engolir o choro permanente. \u00c9 dar a volta por cima das m\u00e1s not\u00edcias, mesmo que voc\u00ea esteja s\u00f3 disfar\u00e7ando, algumas vezes. Ou muitas vezes. Porque voc\u00ea est\u00e1 apavorado, na verdade. Mas engolir o choro e resolver problemas do cotidiano e do tratamento era o que eu fiz por muito tempo. Anos. E faria por muito mais. Porque o que a gente sempre quer \u00e9 mais tempo. Era a meta de fazer ela viver bem e mais, e de eu n\u00e3o ser consolada por ela.<\/p>\n<p>Em julho de 2023, fez tr\u00eas anos que ela se foi. Ao longo dos 14 anos de tratamento, o meu medo desde sempre era que a ladeira chegasse. Aquela ladeira que voc\u00ea sabe que s\u00f3 desce. Era perceber que essa ladeira havia chegado e eu sabia onde ela ia terminar. E foi assim, no meio de uma pandemia mundial de covid-19 que chegamos no topo da ladeira. A descida foi veloz e durou cerca de um m\u00eas, no calend\u00e1rio. Porque pra mim durou anos. Come\u00e7amos de m\u00e3os dadas, n\u00e3o s\u00f3 entre n\u00f3s, mas com muitos profissionais de cuidados paliativos, muitos amigos e familiares, \u00e0 dist\u00e2ncia por causa do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u00c9 inenarr\u00e1vel o que passamos. Isoladas. Mas o que muito me marcou foi ela contando \u00e0s enfermeiras sobre o sonho que realizou quando viajamos juntas para a \u00c1frica do Sul, para a terra de Nelson Mandela. Ela sabia tudo sobre ele e estudava muito sobre o apartheid. Tamb\u00e9m amava a escritora Paulina Chiziane e Mia Couto, ambos de Mo\u00e7ambique. E para l\u00e1 fomos tamb\u00e9m. Quando ningu\u00e9m ainda conhecia Hugo Ch\u00e1vez, ela me levou para a Venezuela. E me contou de Sim\u00f3n Bol\u00edvar na viagem ao Paraguai. E sobre os tupamaros no Uruguai. E sobre o trio Fidel-Che-Camilo em Cuba. E eu t\u00f4 aqui sentindo uma enorme saudade, orgulho e agradecimento. E uma falta da minha guia espetacular. Mas, como ela dizia, \u201cvamos em frente que atr\u00e1s vem gente, Beatriz!\u201d Ent\u00e3o, estou indo\u2026 E como os azares vem aos pares, estive semana passada no AC Camargo para tirar um tumor (que depois se confirmou benigno!), chamado osteoma.<\/p>\n<p>Mas o pior n\u00e3o foi receber este diagn\u00f3stico. Foi reviver tudo. Ver a cafeteria que \u00edamos. Ver as cadeiras onde nos sentamos tantas e tantas horas. Ficar com o papelzinho da senha esperando o n\u00famero aparecer na tela. E come\u00e7ar a processar, finalmente, o que vivemos. Porque o luto \u00e9 assim. N\u00e3o tem data para acabar. N\u00e3o \u00e9 linear. \u00c9 um misto de saudade, de tristeza e de agradecimento por termos vivido e sobrevivido juntas.<\/p>\n<p>\u00c9 luto e trauma tamb\u00e9m. Mas a gente sobrevive. Nem que seja chorando. Ao entrar no centro cir\u00fargico para remover meu tumor na testa, imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar dela. E comecei a cantar mentalmente a m\u00fasica Timoneiro, do Paulinho da Viola. \u201cN\u00e3o sou eu quem me navega, quem me navega \u00e9 o mar\u2026\u201d. Ela cantava sempre ao entrar para os procedimentos\u2026 Chorei. Os m\u00e9dicos acharam que era nervosismo. Mas era saudades, na verdade. E tamb\u00e9m lamento de imaginar o que ela sentiu quando entrou no centro cir\u00fargico para a retirada do globo ocular. Esse tempo antes da anestesia, sabe?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem um dia sequer que eu n\u00e3o pense ou fale nela. Meus filhos j\u00e1 n\u00e3o se lembram direito da v\u00f3, mas ela \u00e9 presente nas mem\u00f3rias que cultivo. E a vov\u00f3 In\u00eas \u00e9 a \u00eddola deles. N\u00e3o tinha como ser diferente. Confesso que quando eles resistem a algo, tipo comer mam\u00e3o, eu falo &#8220;vov\u00f3 In\u00eas adorava mam\u00e3o&#8221;, e pronto. L\u00e1 est\u00e3o eles comendo&#8230; E eu estou j\u00e1 planejando como ser\u00e3o as viagens com eles.\u00a0 Em dezembro, vou lev\u00e1-los para a terra das madres da Plaza de Mayo. Um dia de cada vez.<\/p>\n<p><strong><em>* Beatriz Pasqualino \u00e9 jornalista e doutoranda no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da ECA-USP.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>OBS: mat\u00e9ria publicada no blog Morte Sem Tabu, da Folha de S. Paulo:<\/em><\/p>\n<p><em>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/morte-sem-tabu\/2023\/09\/depoimento-eu-minha-mae-e-o-cancer.shtml<\/em><\/p>\n<p><em>Reprodu\u00e7\u00e3o autorizada pela autora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser cuidadora de familiar com c\u00e2ncer \u00e9 engolir o choro permanente. Eu sentia um orgulho enorme da minha m\u00e3e. Dif\u00edcil explicar um s\u00f3 por qu\u00ea. Esse sentimento eu tinha desde muito pequena, sem que entendesse qualquer coisa do mundo. 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