{"id":2230,"date":"2023-11-25T08:48:03","date_gmt":"2023-11-25T11:48:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2230"},"modified":"2023-11-25T08:48:03","modified_gmt":"2023-11-25T11:48:03","slug":"a-representacao-artistica-da-natureza-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2230","title":{"rendered":"A representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica da Natureza\/Meio Ambiente"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2183 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-1024x562.jpeg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-768x422.jpeg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cA natureza era bela se ela ao mesmo tempo parecia ser arte; e a arte somente pode ser denominada bela se temos consci\u00eancia de que ela \u00e9 arte e de que ela apesar disso nos parece ser natureza\u201d (KANT, 2008, p. 152).<\/em><\/p>\n<p>A natureza na express\u00e3o da sua arte \u00e9 perfeita. Dificilmente n\u00e3o se pode deixar de pensar em quanto \u00e9 requintada na manifesta\u00e7\u00e3o de suas formas, cores, perfumes, equil\u00edbrio. Ao admirarmos o seu funcionamento e harmonia, o passo seguinte natural \u00e9 a admira\u00e7\u00e3o e nomea\u00e7\u00e3o dessa forma de encantamento como \u201cbelo\u201d. A no\u00e7\u00e3o de \u201cbelo\u201d foi amplamente discutida por fil\u00f3sofos, especialmente por Kant. Enquanto que para o senso comum parece ser f\u00e1cil definir o que \u00e9 belo, Kant traz a discuss\u00e3o para a esfera subjetiva, ou seja, ao admirar algo, o sujeito experimenta uma experi\u00eancia subjetiva, uma representa\u00e7\u00e3o para o sujeito, e n\u00e3o uma regra universal. Dessa forma, o que denominamos belo, estaria ligado<\/p>\n<p><em>\u201c&#8230;\u00e0s faculdades da imagina\u00e7\u00e3o e do entendimento, \u00e9 mecanismo livre, n\u00e3o enquadrando em conceitua\u00e7\u00f5es limitadas por ser fruto de medidas diferentes em cada sujeito\u201d. [&#8230;] sendo assim, \u201cseria estranho a exist\u00eancia de um conceito de belo universalmente aceito.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> (BRASIL, pp. 96-97).<\/em><\/p>\n<p>Para Kant,<\/p>\n<p><em>\u201cA beleza auto-subsistente da natureza revela-nos uma t\u00e9cnica da natureza, que a torna represent\u00e1vel como um sistema segundo leis, cujo princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 encontrado em nossa inteira faculdade do entendimento, ou seja, segundo uma conformidade a fins respectivamente ao uso da faculdade do ju\u00edzo com vistas aos fen\u00f4menos, de modo que estes t\u00eam de ser ajuizados como pertencentes n\u00e3o simplesmente \u00e0 natureza em seu mecanismo sem fim, mas tamb\u00e9m \u00e0 analogia com a arte. Portanto, ela na verdade n\u00e3o estende efetivamente o nosso conceito da natureza, ou seja, enquanto simples mecanismo, ao conceito da mesma como arte; o que convida a aprofundar as investiga\u00e7\u00f5es sobre a possibilidade de uma tal forma<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a> (KANT, 2008, p. 91).<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso a representa\u00e7\u00e3o da Natureza povoou o ide\u00e1rio art\u00edstico da humanidade na tentativa de apreender o \u201cbelo\u201d, a manifesta\u00e7\u00e3o mais perfeita dessa express\u00e3o, a captura da ess\u00eancia do que seria essa Natureza plena, sem falhas, e assim, uma ap\u00f3s outra das escolas art\u00edsticas se dispuseram a retratar o mundo origin\u00e1rio, natural.<\/p>\n<p><strong>Natureza e meio ambiente<\/strong><\/p>\n<p>Natureza e meio ambiente t\u00eam um amplo significado e ambos est\u00e3o ligados \u00e0s diferentes concep\u00e7\u00f5es com que s\u00e3o utilizadas, como o contexto acad\u00eamico, pol\u00edtico, social e art\u00edstico.<\/p>\n<p>A palavra Natureza \u00e9 empregada desde os fil\u00f3sofos gregos para referir-se \u00e0s \u201ccoisas naturais\u201d e, portanto, ligada aos seus pr\u00f3prios processos e movimentos. J\u00e1 na Idade M\u00e9dia, a Natureza surge subordinada ao homem e dominada por ele. No Renascimento, desvincula-se a Natureza do Divino, associando-a a fen\u00f4menos cient\u00edficos. \u00c9 atrav\u00e9s da vis\u00e3o mecanicista de Descartes que a Natureza deixa seu car\u00e1ter de sacralidade e passa a ser objeto de interfer\u00eancia do humano.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 o termo Meio Ambiente surge como resultado de estudos sobre o impacto do ser humano sobre a natureza, especialmente a partir da segunda metade do s\u00e9culo 20, sendo utilizado, mormente, por movimentos sociais, como o movimento ambientalista e entidades ligadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da fauna e flora, com \u201cdiferentes enfoques, desde o protecionismo, ao conservacionismo, \u00e0 ecologia pol\u00edtica [na d\u00e9cada de 1960] \u00e0 gest\u00e3o articulada at\u00e9 a gest\u00e3o de sustentabilidade (LOUREIRO, 2006, apud, SANTOS e IBERNON, 2014, p. 153). Haveria, ent\u00e3o, um cunho s\u00f3cio-pol\u00edtico, de den\u00fancia, alerta, envolvendo o conceito de Meio Ambiente, no qual as a\u00e7\u00f5es humanas seriam respons\u00e1veis pela modifica\u00e7\u00e3o e interfer\u00eancia no se curso natural e consequente devasta\u00e7\u00e3o. A ecologia pol\u00edtica tamb\u00e9m procurava levar a sociedade a repensar sobre suas a\u00e7\u00f5es, especialmente no campo industrial e seus impactos no mundo moderno e para as gera\u00e7\u00f5es futuras, da mesma forma como na atualidade h\u00e1 movimentos que procuram discutir sobre a desacelera\u00e7\u00e3o do consumo, energia limpa, impactos ambientais das grandes produ\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1rias, veganismo, entre outros.<\/p>\n<p>J\u00e1 a ideia de uma natureza intocada, cercada, apartada do ser humano, d\u00e1 lugar \u00e0 concep\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-ambiental, em que h\u00e1 uma intera\u00e7\u00e3o constante entre o humano e a natureza, sendo o primeiro parte integrante da segunda. O conceito meio ambiente, por sua vez, envolve situa\u00e7\u00f5es complexas, ligadas a quest\u00f5es filos\u00f3ficas, pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas, cient\u00edficas. Ou seja, uma defini\u00e7\u00e3o recortada do seu entendimento seria perigosa por deixar de lado seu car\u00e1ter sist\u00eamico.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A Natureza no cen\u00e1rio art\u00edstico\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo do Romantismo no s\u00e9culo 19, a Natureza passa a exercer certo fasc\u00ednio nos artistas, seja na pintura, na escultura, na arquitetura e na literatura. \u00c9 retratada de forma exuberante e ultrapassa o pano de fundo das obras para exercer certo protagonismo. Os artistas desse per\u00edodo acreditavam na possibilidade de uma harmonia entre o home e a natureza:<\/p>\n<p><em>\u201c&#8230;paisagem s\u00f3 pode passar a existir a partir do momento que a humanidade se viu fora da natureza. Esta se tornou a maneira pela qual acessamos a natureza, uma natureza estetizada, permeada pela emo\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es da import\u00e2ncia dada \u00e0 paisagem hoje, e mostra a rela\u00e7\u00e3o que se pode tecer entre o pensamento rom\u00e2ntico e o pensamento ecol\u00f3gico que cultivamos, ainda sentindo os ecos da perda e da nostalgia de um ambiente ancestral\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>As paisagens id\u00edlicas retratadas ent\u00e3o se contrapunham \u00e0s novas ideias que surgiam amparadas na ci\u00eancia, na qual a natureza era vista como algo controlado, como um objeto de estudo. A arte tenta, assim, resgatar seu aspecto intr\u00ednseco, interior, espiritual, m\u00e1gico e at\u00e9 protetor. Rousseau, o precursor do Romantismo, exaltava a perfei\u00e7\u00e3o da natureza em contraposi\u00e7\u00e3o ao homem, respons\u00e1vel por corromp\u00ea-la.<\/p>\n<p>No per\u00edodo Rom\u00e2ntico surge, desse modo, a ideia de preservar a natureza, de manter uma rela\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio poss\u00edvel entre o homem e a natureza, pensamento esse que vai desaguar no pensamento ecol\u00f3gico que pavimenta o caminho de uma poss\u00edvel intera\u00e7\u00e3o entre ambos.<\/p>\n<p><em>\u201cA inexist\u00eancia de espa\u00e7os naturais levaria a um desequil\u00edbrio e desestrutura\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que sem esta parte n\u00e3o seria mais poss\u00edvel a reconstru\u00e7\u00e3o e a exist\u00eancia do todo, ou seja, a pr\u00f3pria humanidade n\u00e3o poderia mais existir com a aniquila\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os naturais. Dentro dessa vis\u00e3o, como tudo est\u00e1 conectado, nada pode ser subtra\u00eddo ou alterado, e h\u00e1 uma urg\u00eancia em retornar a um estado mais \u201cequilibrado\u201d, restituindo aquilo que foi modificado pela a\u00e7\u00e3o humana<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Literatura<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A literatura no Romantismo brasileiro tamb\u00e9m pagou seu tributo \u00e0 Natureza atrav\u00e9s, principalmente, das obras de Jos\u00e9 de Alencar, romances chamados de indianistas, nos quais a natureza era sacralizada, as rela\u00e7\u00f5es entre o colonizador e os habitantes nativos idealizados, mascarando a viol\u00eancia da conviv\u00eancia for\u00e7ada entre as diferentes culturas, e a floresta e seus habitantes eram os protagonistas, embora descritos de forma a n\u00e3o representarem a realidade e realocados em sua ess\u00eancia. Al\u00e9m de colocar em cena a natureza robusta do Brasil, os romances indianistas idealizaram os habitantes das florestas colocando-os no papel de her\u00f3is, como o \u00edndio Peri, quase um fidalgo, de <strong>O Guarani<\/strong> e protagonistas de amores miscigenados \u2013 o romance entre Peri e Cec\u00edlia, e entre Iracema e Martin Soares Moreno, no romance <strong>Iracema<\/strong>. Os ind\u00edgenas, por\u00e9m, eram representados descaracterizados de sua cultura verdadeira, representando valores da sociedade burguesa da \u00e9poca. A idealiza\u00e7\u00e3o da Natureza est\u00e1 presente como forte apelo \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o da ambi\u00eancia brasileira e da forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n<p>Um belo exemplo da personifica\u00e7\u00e3o da natureza na literatura africana de l\u00edngua portuguesa \u00e9 o romance <strong>Mayombe<\/strong>, do angolano Pepetela. A hist\u00f3ria \u00e9 situada no interior da floresta Mayombe e pode-se dizer que ela \u00e9 a protagonista da a\u00e7\u00e3o, tanto que personificada pelo autor: o Mayombe.<\/p>\n<p><em>\u201cO Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invis\u00edvel do alto, dos avi\u00f5es que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presen\u00e7a dos guerrilheiros. (&#8230;) Assim foi parida pelo Mayombe a base guerrilheira.\u201d(p. 67)<\/em><\/p>\n<p><em>(&#8230;) O Mayombe tinha criado o fruto, mas n\u00e3o se dignou a mostr\u00e1-lo aos homens. Encarregou os gorilas de o fazer, que deixaram os caro\u00e7os partidos perto da base, misturados com as suas pegadas. E os guerrilheiros perceberam ent\u00e3o que o deus-Mayombe lhes indicava assim que ali estava o seu tributo \u00e0 coragem dos que o desafiafam.\u201d(p. 69)<\/em><\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o h\u00e1 concess\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza: ela \u00e9 dura, sombria, perigosa, por\u00e9m tem um papel importante, o de abrigar e camuflar os soldados: \u201cN\u00e3o fizeram guarda. \u00c0 noite, na mata, o melhor guarda era a impenetrabilidade do Mayombe\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> (p. 54)<\/p>\n<p><strong>Meio Ambiente pelas imagens art\u00edsticas<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Cinema<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A cena inicial \u00e9 devastadora e o entorno des\u00e9rtico e destru\u00eddo indicam o calor extremo ao redor. Caminhando sozinho pela rua desabitada entre escombros, um homem com um equipamento r\u00fastico de prote\u00e7\u00e3o lembra um astronauta que se locomove com dificuldade, talvez pelo peso e desconforto do traje e pelo calor. A temperatura ultrapassa os 60 C.<\/p>\n<p>A primavera de 2023 no hemisf\u00e9rio Sul come\u00e7ou com ondas de calor que ultrapassaram os 40\u00b0C.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Em Goi\u00e1s, a temperatura no munic\u00edpio de Aragar\u00e7as atingiu 44,3\u00baC no dia 19 de outubro e Ara\u00e7ua\u00ed, cidade no nordeste do Estado de Minas Gerais, teve a maior temperatura j\u00e1 registrada no pa\u00eds: 44,8\u00baC no domingo, 19 de novembro 2023<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Durante os dias em que a temperatura batia recordes de calor, a lembran\u00e7a de algumas cenas do dist\u00f3pico road movie <em>Finch<\/em> (Miguel Sapochnik, 2021), como a descrita acima, vinha em mente naturalmente, assim como a que o personagem e seu cachorro s\u00e3o impedidos de sair ao sol sem prote\u00e7\u00e3o sob pena de terem suas peles torradas. O ano em que a terra sofreu com tempestades solares que acabaram com a camada de oz\u00f4nio (2028) parece estar pr\u00f3ximo demais da atualidade. Embora n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado o apoio da cr\u00edtica especializada, o filme faz parte do rol das grandes produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas p\u00f3s-apocal\u00edpticas, nas quais praticamente ningu\u00e9m se salva, mas que mostra situa\u00e7\u00f5es nem t\u00e3o inveross\u00edmeis quanto nem t\u00e3o distantes da realidade em que vivemos. Curiosamente, os sobreviventes da cat\u00e1strofe ambiental mostrada por Sapochnik s\u00e3o um cachorro e um rob\u00f4.<\/p>\n<p>A arte imita a vida? Um dos filmes cat\u00e1strofes que prev\u00ea um futuro aterrador para humanidade, <em>O Dia Depois de Amanh\u00e3<\/em> (Roland Emmerich, 2004), mostra os desastres naturais como resultado da interfer\u00eancia humana no equil\u00edbrio da Terra: geadas, tsunamis, terremotos, furac\u00f5es. O longa tem, al\u00e9m do cientista que alerta sobre os perigos do aquecimento global e suas consequ\u00eancias desastrosas para a humanidade, o governo norte-americano negacionista que ignora os sinais de alerta.<\/p>\n<p><em><strong>Fotografia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo Araqu\u00e9m Alc\u00e2ntara retrata artisticamente a natureza brasileira h\u00e1 mais de cinquenta anos. Em 2019 deixou o mundo com o cora\u00e7\u00e3o partido de dor ao mostrar os efeitos das queimadas criminosas sobre os animais do Pantanal, como o tamandu\u00e1 cego e queimado saindo de uma floresta em chamas em 2019. Neste ano volta \u00e0 cena mostrando a grande seca que atinge a regi\u00e3o amaz\u00f4nica e \u00e9 incr\u00edvel como consegue extrair tanta beleza art\u00edstica em meio a t\u00e3o grave cat\u00e1strofe. S\u00e3o imagens fortes como as do Pantanal de quatro anos atr\u00e1s. Sua trajet\u00f3ria como fot\u00f3grafo \u00e9 a de registrar a grande transforma\u00e7\u00e3o sofrida pela devasta\u00e7\u00e3o dos nossos grandes biomas pelas m\u00e3os humanas.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas Sebasti\u00e3o Salgado percorre o mundo registrando diversas culturas e sua rela\u00e7\u00e3o com o seu entorno, um misto de beleza est\u00e9tica e cr\u00edtica social, como a obra <em>Sahel: O Homem em Agonia<\/em> (1986),\u00a0que retrata os habitantes de lugares mais atingidos pela seca extrema da \u00c1frica. Em 2022 realizou a exposi\u00e7\u00e3o <em>Amaz\u00f4nia<\/em>, com 205 fotografias, em S\u00e3o Paulo. Salgado fotografou os chamados \u201crios voadores\u201d, importante fen\u00f4meno que ocorre sobre a floresta amaz\u00f4nica e que \u00e9 respons\u00e1vel pela estabiliza\u00e7\u00e3o do clima ao longo de todo o continente sul americano. Al\u00e9m de fot\u00f3grafo, Salgado \u00e9 tamb\u00e9m um ambientalista, uma das vozes mais importantes que clama pela prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e de outros biomas brasileiros. O document\u00e1rio <em>O Sal da Terra<\/em> (Wim Wenders, 2014) sobre Sebasti\u00e3o Salgado, nos convida a refletir sobre a condi\u00e7\u00e3o humana sobre a Terra em que vivemos, enquanto Salgado apresenta seu projeto G\u00eanesis, uma expedi\u00e7\u00e3o para mostrar \u00e1reas do planeta ainda inexploradas. O fot\u00f3grafo e sua esposa, L\u00e9lia Wanick Salgado mant\u00eam uma \u00e1rea em Minas Gerais onde fazem um trabalho de reflorestamento na antiga propriedade de seus pais, que, no final de 1990, encontraram deteriorada. \u00c9 fundador, junto com L\u00e9lia, do Instituto Terra<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> (1998), uma institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, cujo objetivo \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas da bacia do rio Doce.<\/p>\n<p>A arte de Alc\u00e2ntara e Salgado retrata a realidade de transforma\u00e7\u00e3o ambiental de forma pl\u00e1stica, que tocam os sentidos esteticamente e servem como reflex\u00e3o da a\u00e7\u00e3o humana sobre o meio ambiente. Que a arte possa, al\u00e9m de registrar a dor, tocar os cora\u00e7\u00f5es e mentes sobre a realidade ambiental em que vivemos.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J\u00falio C\u00e9sar Brasil. <em>Concep\u00e7\u00f5es kantianas sobre o belo, o sublime e a arte<\/em>. Dispon\u00edvel em https:\/\/doi.org\/10.18830\/issn2238-362X.v10.n2.2020.07<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Immanuel Kant. <strong>Cr\u00edtica da faculdade do ju\u00edzo<\/strong>. Rio de Janeiro: Forence Universit\u00e1ria, 2008, apud Citro, Danilo. Sobre a analogia entre natureza e arte em Kant. <strong>Revista Ambiente<\/strong>: Gest\u00e3o e Desenvolvimento &#8211; Volume 9, n. 2, Dezembro\/2016 \u2013 ISSN ONLINE: 1981-4127, p. 2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> As autoras Joseane Aparecida Euclides dos Santos e Rosely Aparecida Liguori Imbernon trazem uma interessante pesquisa sobre os diferentes usos dos termos natureza e meio ambiente em A concep\u00e7\u00e3o sobre \u201cnatureza\u201d e \u201cmeio ambiente\u201d para distintos atores sociais. <strong>TERR\u00c6 DIDATICA<\/strong> 10-2:151-159 2014, p. 152.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ludwig Bertalanffy. <strong>Teoria geral dos sistemas<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2010.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Santos e Imbernon, 2014, p. 207.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Franciele Favero. O Romantismo e a Estetiza\u00e7\u00e3o da Natureza. Pal\u00edndromo. <strong>Revista de Artes Visuais<\/strong> da Udesc \u2013 Universidade do Estado de Santa Catarina, s\/d., p. 215.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Pepetela. <strong>Mayombe<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Leya, 2013.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/metsul.com\/primavera-de-calor-extremo-e-sinal-de-verao-ainda-mais-quente-no-brasil\/\">https:\/\/metsul.com\/primavera-de-calor-extremo-e-sinal-de-verao-ainda-mais-quente-no-brasil\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> https:\/\/www.poder360.com.br\/brasil\/cidade-de-mg-registra-maior-temperatura-da-historia-no-brasil\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> https:\/\/institutoterra.org\/o-instituto\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* Andreia Terzariol Couto \u00e9 jornalista e p\u00f3s-doutora pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da ECA-USP.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA natureza era bela se ela ao mesmo tempo parecia ser arte; e a arte somente pode ser denominada bela se temos consci\u00eancia de que ela \u00e9 arte e de que ela apesar disso nos parece ser natureza\u201d (KANT, 2008, p. 152). A natureza na express\u00e3o da sua arte \u00e9 perfeita. 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