{"id":2374,"date":"2024-02-02T21:56:42","date_gmt":"2024-02-03T00:56:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2374"},"modified":"2024-02-02T21:56:42","modified_gmt":"2024-02-03T00:56:42","slug":"os-fenomenos-meteorologicos-frente-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2374","title":{"rendered":"Os fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2183 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-1024x562.jpeg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-768x422.jpeg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Embora o tema sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas venha sendo recorrente na m\u00eddia cotidiana nos \u00faltimos tempos, alguns conceitos relacionados ao assunto ainda podem trazer confus\u00e3o para o p\u00fablico.\u00a0 Muitas vezes a repeti\u00e7\u00e3o nos jornais sobre t\u00f3picos relacionados ao clima sem os esclarecimentos necess\u00e1rios pode causar confus\u00e3o ou uma banaliza\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da quest\u00e3o conceitual, que deve ser colocada para o grande p\u00fablico de forma clara sem perder a precis\u00e3o, a contextualiza\u00e7\u00e3o em que os fen\u00f4menos clim\u00e1ticos ocorrem tamb\u00e9m deve ser levada em conta para quem informa sobre meio ambiente. \u00a0N\u00e3o \u00e9 raro que quest\u00f5es colocadas hoje para o p\u00fablico, referentes ao tema ambiental, venham envoltas em simplifica\u00e7\u00f5es como se os termos se explicassem por si mesmos.\u00a0 A pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 uma delas. O que \u00e9 de fato? J\u00e1 est\u00e1 ocorrendo? Quais s\u00e3o seus desdobramentos, consequ\u00eancias? \u00c9 poss\u00edvel evitar? Em que momento do debate aparece a discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre as ondas de calor, enchentes, secas e invernos rigorosos e o aquecimento global? \u00a0S\u00e3o muitas as perguntas que surgem entre o p\u00fablico em geral nesse contexto clim\u00e1tico da atualidade, e interligar os pontos \u00e9 uma necessidade para que se informe com exatid\u00e3o os aspectos mais t\u00e9cnicos. Afinal, como afirmou o pesquisador Bruno Kabke Bainy, do Cepagri \u2013 Centro de Pesquisas Meteorol\u00f3gicas e Clim\u00e1ticas Aplicadas \u00e0 Agricultura \u2013 Unicamp, \u00e9 fato que os fen\u00f4menos apresentam intensidades maiores nas \u00faltimas d\u00e9cadas por causa das mudan\u00e7as no sistema terrestre, por\u00e9m \u00e9 importante frisar que \u00e9 um sistema muito complexo e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel isolar mudan\u00e7as, confin\u00e1-las a um aspecto s\u00f3.<\/p>\n<p>Outros fen\u00f4menos ocorrem ao redor do planeta, mas acabam obscurecidos pelo protagonismo midi\u00e1tico do El Ni\u00f1o, que parece se encaixar em qualquer explica\u00e7\u00e3o para alguma altera\u00e7\u00e3o no sistema clim\u00e1tico terrestre, como se a \u201cculpa\u201d de toda a mudan\u00e7a fosse proveniente do El Ni\u00f1o, enquanto que as a\u00e7\u00f5es humanas que est\u00e3o levando \u00e0s altera\u00e7\u00f5es de fato s\u00e3o escamoteadas. Bainy tamb\u00e9m falou sobre outros fen\u00f4menos n\u00e3o t\u00e3o mencionados pela m\u00eddia, mas que acontecem ao redor do globo e que s\u00e3o t\u00e3o impactantes como o acima mencionado. Paralelamente, as a\u00e7\u00f5es antropog\u00eanicas \u2013 as geradas pela a\u00e7\u00e3o humana \u2013 deveriam ganhar relevo no debate sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Sabemos do comportamento da m\u00eddia corporativa e seu n\u00e3o comprometimento sobre certos debates, e a quest\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 uma delas. Manter o p\u00fablico informado, por\u00e9m na superf\u00edcie do sistema \u00e9 seu ideal, pois um mergulho mais profundo em determinadas quest\u00f5es pode atrapalhar interesses pol\u00edticos, econ\u00f4micos, como \u00e9 o caso dos agrot\u00f3xicos, da transforma\u00e7\u00e3o dos biomas naturais em pastagens, entre outros. O lobby dos grandes interesses corporativos \u00e9 grande, assim como o dinheiro gasto em publicidade na grande m\u00eddia.<\/p>\n<p><em>Variabilidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; clima e tempo<\/em><\/p>\n<p>O pesquisador inicialmente falou da import\u00e2ncia de distinguir para o p\u00fablico as diferen\u00e7as entre variabilidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u201cdois conceitos que t\u00eam a ver com perturba\u00e7\u00f5es no sistema clim\u00e1tico da Terra\u201d. Enquanto que o \u2018clima\u2019 \u00e9 assinalado para escalas regionais \u2013 embora haja tamb\u00e9m \u201cescalas globais, mas sempre com foco em cada regi\u00e3o do planeta\u201d, h\u00e1 um padr\u00e3o para caracterizar o clima em uma janela de tempo de trinta anos.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cAo longo desses trinta anos a gente obt\u00e9m m\u00e9dias estat\u00edsticas que servem como refer\u00eancia para fazer a caracteriza\u00e7\u00e3o do clima de uma regi\u00e3o e a\u00ed se comp\u00f5e tamb\u00e9m o clima global, \u00e9 uma m\u00e9dia de longo prazo que nos ajuda a fazer avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>As avalia\u00e7\u00f5es que se fazem ao longo desse tempo partem de algumas vari\u00e1veis, como precipita\u00e7\u00e3o e temperatura. Esses per\u00edodos de trinta anos s\u00e3o uma recomenda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, e os per\u00edodos padr\u00e3o come\u00e7am em um ano que termina em um e vai at\u00e9 um ano que termina em zero, ou seja, de 1931 a 1960; 1961 a 1990; 1991 a 2020, e por a\u00ed segue, sendo cada per\u00edodo chamado de normal climatol\u00f3gica. No entanto, h\u00e1 tamb\u00e9m valores de refer\u00eancia intermedi\u00e1rios, por\u00e9m n\u00e3o t\u00eam tanto peso como os normais climatol\u00f3gicos que abrangem o per\u00edodo de trinta anos, pois o que ocorre nessa janela de tempo \u00e9 classificado como um modelo, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Dessa forma, a no\u00e7\u00e3o de clima \u00e9 sempre trabalhada com escalas temporais maiores e, portanto, os modelos de variabilidade podem ser observados atrav\u00e9s dessas janelas temporais e a partir de ent\u00e3o medir suas altera\u00e7\u00f5es. Ou seja, desse modo fica mais f\u00e1cil compreender a no\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, uma vez que os modelos apontam para uma varia\u00e7\u00e3o real desde per\u00edodos muito anteriores, que \u00e9 uma mudan\u00e7a global e tamb\u00e9m de longo prazo. Assim, h\u00e1 a diferen\u00e7a entre o clima e o tempo meteorol\u00f3gico, o primeiro trabalhado com escalas temporais maiores, enquanto que o tempo diz respeito a condi\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas. Por exemplo, se h\u00e1 uma previs\u00e3o de uma frente fria passando no final de semana, seria incorreto dizer que vai haver uma mudan\u00e7a no clima, e sim, uma mudan\u00e7a no tempo.<\/p>\n<p>Em se tratando de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, elas dizem respeito ao desequil\u00edbrio do sistema terrestre, que est\u00e1 sendo alterado, tornando-se diferente do que conhecemos hoje em dia \u2013 ou no passado \u2013 em dire\u00e7\u00e3o a um padr\u00e3o diverso do que \u00e9 na atualidade, al\u00e9m de ser uma mudan\u00e7a definitiva.\u00a0 A migra\u00e7\u00e3o para essa mudan\u00e7a definitiva \u00e9 certa, o que \u00e9 incerto \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao quanto vai ser essa mudan\u00e7a: \u201ch\u00e1 um consenso de que o clima est\u00e1 mudando e que isso vai acarretar eventos meteorol\u00f3gicos mais extremos. Seja em quest\u00e3o de secas, de calor, quanto de chuvas\u201d, afirma Bruno.<\/p>\n<p>O ano de 2023 trouxe alguns eventos at\u00edpicos,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> como as ondas de calor que aconteceram ao longo do ano. No entanto, segundo o pesquisador, as ondas de calor intensas registradas em 2023 ainda n\u00e3o podem ser caracterizadas como eventos t\u00edpicos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, uma vez que a ci\u00eancia meteorol\u00f3gica trabalha com o conceito de equil\u00edbrio, ou seja, temos um equil\u00edbrio na atualidade, que vai passar por um processo que leva a outro grau de equil\u00edbrio futuro, e para chegar a esse novo grau de equil\u00edbrio, para ter a mudan\u00e7a realmente consolidada, leva ainda um tempo. Por\u00e9m, h\u00e1 evid\u00eancias que j\u00e1 mostram algumas mudan\u00e7as, como no regime de chuvas no Estado de S\u00e3o Paulo, em que estudos demonstram que a esta\u00e7\u00e3o chuvosa est\u00e1 mais curta, al\u00e9m de haver mais eventos de chuvas intensas e volumosas.<\/p>\n<p>Em contraste com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es definitivas, h\u00e1 a variabilidade clim\u00e1tica, que s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias das condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que ocorrem em per\u00edodos que podem ser de semanas, meses, anos e at\u00e9 d\u00e9cadas, que mesmo alteradas temporariamente, podem voltar ao estado de origem, \u201cs\u00e3o perturba\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias que voltam ao ponto de equil\u00edbrio\u201d. Como exemplo desse tipo de perturba\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria Bainy citou o El Ni\u00f1o. Tanto El Ni\u00f1o como La Ni\u00f1a \u2013 esta \u00faltima esteve presente ao longo dos anos anteriores \u2013 s\u00e3o mecanismos de variabilidade clim\u00e1tica \u201cassociados ao acoplamento oce\u00e2nico atmosf\u00e9rico relacionado \u00e0s temperaturas ou \u00e0s anomalias de temperatura no oceano Pac\u00edfico Equatorial na costa da Am\u00e9rica do Sul, principalmente.\u201d \u00c9 um fen\u00f4meno que se desenvolve gerando uma mudan\u00e7a no padr\u00e3o de ventos na regi\u00e3o do Pac\u00edfico Equatorial favorecendo a ressurg\u00eancia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, o deslocamento de \u00e1guas mais frias que v\u00eam do fundo oce\u00e2nico at\u00e9 a superf\u00edcie, no caso de La Ni\u00f1a. Em rela\u00e7\u00e3o ao El Ni\u00f1o \u2013 El Ni\u00f1o Oscila\u00e7\u00e3o Sul (ENOS),<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> h\u00e1 um enfraquecimento dos al\u00edsios [que s\u00e3o ventos de leste para oeste] e que \u201cempurram \u00e1guas da parte leste do Pac\u00edfico, fazendo com que diminuam ou mudem de sentido, favorecendo um ac\u00famulo de \u00e1guas mais quentes, provocando uma anomalia de temperatura naquela regi\u00e3o\u201d. Esse movimento leva um tempo, alguns meses, para se estabelecer, e para gerar impactos na atmosfera.<\/p>\n<p>As anomalias provocadas pelos fen\u00f4menos El Ni\u00f1o e\/ou La Ni\u00f1a<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201ccausam impactos globais, em v\u00e1rias partes do mundo atrav\u00e9s do que se chama tele conex\u00f5es, porque isso altera a circula\u00e7\u00e3o geral da atmosfera e refor\u00e7a alguns tipos de circula\u00e7\u00e3o ou altera outros. Na Am\u00e9rica do Sul, quando temos La Ni\u00f1a a tend\u00eancia \u00e9 de ocorrer mais chuvas na por\u00e7\u00e3o norte do pa\u00eds, Amaz\u00f4nia, Nordeste, e secas no Sul, e com o El Ni\u00f1o, no Sudeste, principalmente, tem anomalias de temperatura, que fica mais quente. Isso em longo prazo e falando em termos m\u00e9dios\u201d. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em>Os dois fen\u00f4menos n\u00e3o ocorrem concomitantemente, \u201cem geral eles t\u00eam uma dura\u00e7\u00e3o de nove a dezoito meses, pode se estender um pouquinho mais, e a recorr\u00eancia deles \u00e9 um tanto quanto incerta, de dois a sete anos\u201d, importando observar esse padr\u00e3o de oscila\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a, h\u00e1 outros modos de variabilidade clim\u00e1tica, \u201calguns deles s\u00e3o da ordem de algumas semanas, dois meses, e outros que podem ficar por d\u00e9cadas, mas geralmente n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o difundidos, s\u00e3o mais dif\u00edceis de serem percebidos, e alguns deles ficam praticamente um per\u00edodo que dura uma gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><em>A ci\u00eancia como aliada diante das incertezas clim\u00e1ticas<\/em><\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, \u00e9 poss\u00edvel posicionar a maior frequ\u00eancia dos fen\u00f4menos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, referindo-se a alguns estudos, que, embora tidos como preliminares apontam para uma maior intensidade desses fen\u00f4menos nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por causa das mudan\u00e7as no sistema terrestre.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cNovos Estudos da Sociedade Meteorol\u00f3gica Norte-Americana (American Meteorological Society) apontam que possivelmente os modelos que simulam as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas estariam at\u00e9 subestimando os eventos de chuva extrema, o que \u00e9 preocupante, porque pode ser talvez pior do que a gente tem conseguido simular at\u00e9 agora. Essas simula\u00e7\u00f5es, esses modelos s\u00e3o softwares que resolvem as equa\u00e7\u00f5es da din\u00e2mica da atmosfera, da termodin\u00e2mica, ent\u00e3o quanto mais entendimento f\u00edsico a gente tem e tamb\u00e9m a capacidade computacional, quanto melhor for mais se consegue melhorar essa representa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo Bainy, essas simula\u00e7\u00f5es s\u00e3o capazes de montar diferentes cen\u00e1rios de emiss\u00e3o, al\u00e9m da influ\u00eancia antropog\u00eanica, gerando resultados distintos e os caminhos que se pode tomar. \u00a0Por\u00e9m, seja qual for o cen\u00e1rio exibido, as simula\u00e7\u00f5es s\u00e3o capazes de mostrar todos esses caminhos, desde os mais t\u00eanues at\u00e9 os mais graves, mais cr\u00edticos, se seguirmos no caminho que estamos, ou reduzindo um pouco, ou muito, tomados com base no comportamento humano recente, o quanto isso vai impactar. Esses modelos s\u00e3o calibrados fazendo tamb\u00e9m simula\u00e7\u00f5es retroativas, ent\u00e3o a \u201chabilidade desses modelos de reproduzir o clima futuro est\u00e1 no fato de que eles conseguiram representar o clima passado tamb\u00e9m, por isso que se tem a confian\u00e7a de que o que eles est\u00e3o representando \u00e9 significativo\u201d.<\/p>\n<p><em>Estudar o passado para conhecer o futuro<\/em><\/p>\n<p>Olhando para o passado, a ci\u00eancia, atrav\u00e9s das ag\u00eancias internacionais de pesquisa, \u00e9 capaz de representar modelos para o futuro, ao comparar diferentes modelos e avaliar os impactos, elaborando, montando seus modelos, usando diferentes t\u00e9cnicas, realizando todo um processo de modelagem, simula\u00e7\u00e3o, e assim extrair n\u00edveis de precis\u00e3o, fazendo a representa\u00e7\u00e3o o mais fiel poss\u00edvel, tanto de previsibilidade quanto de imprevisibilidade e ap\u00f3s as pesquisas, esses modelos s\u00e3o avaliados por especialistas nesses assuntos. Os resultados das pesquisas s\u00e3o periodicamente publicados nos relat\u00f3rios do IPCC \u2013 Intergovernmental Panel on Climate Change, o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m pesquisas em andamento que se voltam, por exemplo, para a circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica, uma vez que algumas delas s\u00e3o uma das principais formas de redistribui\u00e7\u00e3o de energia t\u00e9rmica no planeta e, considerando que elas podem colapsar, como, por exemplo, a Circula\u00e7\u00e3o Meridional de Fundo do Atl\u00e2ntico<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> \u2013 que passa pela corrente do Golfo do M\u00e9xico, vai at\u00e9 a Groel\u00e2ndia e volta pelo fundo \u2013 \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia compreender todo o seu comportamento futuro, tendo como base de estudo sua atua\u00e7\u00e3o em tempos passados, embora seu monitoramento seja relativamente recente. De acordo com Bainy, essa circula\u00e7\u00e3o pode colapsar, pode deixar de existir, o que implicaria em uma mudan\u00e7a inclusive para a Am\u00e9rica do Sul. O pesquisador cita ainda estudos no Instituto de Geologia da Unicamp, que est\u00e3o sendo conduzidos para verificar padr\u00f5es passados para fazer o estudo de an\u00e1logos modernos. \u201cS\u00e9culos ou talvez mil\u00eanios atr\u00e1s, essa circula\u00e7\u00e3o se enfraqueceu ou colapsou e se busca atrav\u00e9s de registros geol\u00f3gicos identificar o que houve para termos uma id\u00e9ia do que pode ocorrer caso isso venha acontecer novamente\u201d.<\/p>\n<p><em>Impactos das a\u00e7\u00f5es humanas sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas <\/em><\/p>\n<p>As pesquisas apontam que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o contribuindo para que tenhamos eventos cada vez mais intensos, uma vez que o equil\u00edbrio, que foi falado acima, era analisado como sendo mais regular, com uma variabilidade inerente, por\u00e9m na atualidade percebe-se a ocorr\u00eancia de eventos mais intensos que podem ser associados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, especialmente a partir da d\u00e9cada de 1980, devido aos impactos das a\u00e7\u00f5es humanas sobre o planeta.<\/p>\n<p>Eventos como o desmatamento descontrolado, no caso do Brasil, dos nossos principais biomas, geram altera\u00e7\u00f5es, porque a atmosfera responde a todas essas mudan\u00e7as, e quando h\u00e1 o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa, vai ocorrer uma mudan\u00e7a no balan\u00e7o radioativo do sistema terrestre, com uma maior reten\u00e7\u00e3o de calor.\u00a0 Segundo o pesquisador, \u201ca Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial e grandes centros regionais de pesquisa apontam que vai ser recorrente a quebra sucessiva de recordes de temperatura, de meses com temperaturas mais elevadas, isso em escala global\u201d.<\/p>\n<p>O desmatamento altera tamb\u00e9m o comportamento da forma\u00e7\u00e3o dos rios voadores, que ajudam a balancear o clima do sul do hemisf\u00e9rio, uma vez que a Amaz\u00f4nia \u00e9 um grande gerador de umidade. Bainy explica que os rios voadores t\u00eam uma combina\u00e7\u00e3o de dois fatores principais, um que \u00e9 a conflu\u00eancia dos ventos al\u00edsios, que carregam a umidade evaporada pelo oceano Atl\u00e2ntico e passam pela Amaz\u00f4nia, sendo defletidos e canalizados pelos Andes, e a Amaz\u00f4nia, a floresta tropical que prov\u00ea muita umidade pela evapotranspira\u00e7\u00e3o,<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> ent\u00e3o os rios voadores s\u00e3o alimentados por esses dois elementos, a umidade dos oceanos, e a umidade da floresta.<\/p>\n<p>Sobre as ondas de calor ocorridas em 2023, ser\u00e1 que podemos esperar ondas mais intensas ainda futuramente? Segundo Bruno Bainy sim, ressaltando que o progn\u00f3stico para as ondas de calor \u00e9 feito \u00e0 medida que elas v\u00e3o se aproximando, podendo haver uma previs\u00e3o com algumas semanas de anteced\u00eancia, algum per\u00edodo que \u00e9 mais propenso a desenvolver essas ondas de calor, chamada de previs\u00e3o subsazonal. Ou seja, \u00e9 poss\u00edvel prever semana a semana, por\u00e9m n\u00e3o se consegue ter detalhes de dias. Os modelos de previs\u00e3o sazonal para os pr\u00f3ximos meses, praticamente para todo o pa\u00eds, apontam para uma alt\u00edssima probabilidade de que as temperaturas v\u00e3o ficar acima da m\u00e9dia. Ent\u00e3o, em longo prazo, a expectativa \u00e9 de uma predomin\u00e2ncia de dias quentes e ocasionais ondas de calor.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Segundo o Inmet \u2013 Instituto Nacional de Meteorologia, o Brasil vivenciou a oitava onda de calor em [novembro] de 2023. As primeiras ondas foram entre janeiro e mar\u00e7o, com temperaturas em torno de 40,7\u00b0C. Em agosto, foram emitidos alertas de \u201cGrande Perigo\u201d e \u201cPerigo\u201d para o Centro-Oeste e o Nordeste do pa\u00eds, entre os dias 22 e 28. Em setembro, uma onda de calor intensa come\u00e7ou no dia 18 no Centro-Oeste e se deslocou para o Nordeste no dia 24, que gerou temperaturas acima de 40\u00a0\u00b0C nas regi\u00f5es. No m\u00eas [de outubro], duas ondas de calor assolaram os brasileiros, com temperatura m\u00e1xima de 44,3\u00a0\u00b0C em Cuiab\u00e1 (MT). As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de <strong>O Globo<\/strong>. https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/noticia\/2023\/11\/11\/brasil-vive-8a-onda-de-calor-em-2023<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A ressurg\u00eancia\u00a0\u00e9 um processo oceanogr\u00e1fico de afloramento de \u00e1guas frias, controlado em grande parte pela dire\u00e7\u00e3o e intensidade dos ventos na regi\u00e3o. https:\/\/www.marinha.mil.br\/ieapm\/content\/laboratorio-de-monitoramento<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O El Ni\u00f1o Oscila\u00e7\u00e3o Sul (ENSO)\u00a0\u00e9 uma mudan\u00e7a peri\u00f3dica do sistema oceano-atmosfera no Pac\u00edfico tropical que impacta o clima em todo o mundo. Isso acontece a cada 3-7 anos (5 anos em m\u00e9dia) e normalmente dura de nove meses a dois anos. Est\u00e1 associada a inunda\u00e7\u00f5es, secas e outros dist\u00farbios globais. https:\/\/reefresilience.org\/pt\/stressors\/climate-and-ocean-change\/el-nino-southern-oscillation<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> A Circula\u00e7\u00e3o Meridional de Capotamento do Atl\u00e2ntico (CMCA) \u00e9 um grande sistema de correntes oce\u00e2nicas (que inclui a famosa Corrente do Golfo), respons\u00e1vel por regular a transfer\u00eancia de calor oce\u00e2nico dos tr\u00f3picos para o hemisf\u00e9rio norte. Suas atividades, portanto, impactam o clima de todo o planeta, sendo considerado um dos pontos irrevers\u00edveis (ou de inflex\u00e3o) do clima na Terra, ou seja, uma mudan\u00e7a grande nesse sistema causar\u00e1 problemas imposs\u00edveis de se remediar. Caso a CMCA realmente colapse, as esta\u00e7\u00f5es de mon\u00e7\u00e3o poder\u00e3o ser prejudicadas nos tr\u00f3picos, deixando o hemisf\u00e9rio norte com invernos perigosamente frios. Ecossistemas e seguran\u00e7a alimentar de todo o planeta seriam severamente impactados. A CMCA s\u00f3 tem sido monitorada diretamente desde 2004, o que dificulta entender completamente a trajet\u00f3ria de desacelera\u00e7\u00e3o atual \u2014 e se ela est\u00e1 acontecendo mesmo. https:\/\/canaltech.com.br\/meio-ambiente\/sistema-de-circulacao-do-oceano-atlantico-pode-colapsar-ate-2050-257226\/ 25 de jul. de 2023<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> A\u00a0<strong>evapotranspira\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 a transfer\u00eancia de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.biologianet.com\/biologia-celular\/agua.htm\">\u00e1gua<\/a>, em estado gasoso, para a atmosfera, por meio da soma da evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua de superf\u00edcies como oceanos e solos e a transpira\u00e7\u00e3o dos vegetais. Esses processos ocorrem simultaneamente, por isso s\u00e3o descritos juntos, e o fen\u00f4meno recebe esse nome (evapora\u00e7\u00e3o + transpira\u00e7\u00e3o). https:\/\/www.biologianet.com\/ecologia\/evapotranspiracao.htm<\/p>\n<p><strong>* Andreia Terzariol Couto \u00e9 jornalista, professora, pesquisadora e p\u00f3s-doutora pela ECA-USP.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora o tema sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas venha sendo recorrente na m\u00eddia cotidiana nos \u00faltimos tempos, alguns conceitos relacionados ao assunto ainda podem trazer confus\u00e3o para o p\u00fablico.\u00a0 Muitas vezes a repeti\u00e7\u00e3o nos jornais sobre t\u00f3picos relacionados ao clima sem os esclarecimentos necess\u00e1rios pode causar confus\u00e3o ou uma banaliza\u00e7\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o. 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