{"id":2488,"date":"2024-04-29T15:35:34","date_gmt":"2024-04-29T18:35:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2488"},"modified":"2024-04-29T15:40:49","modified_gmt":"2024-04-29T18:40:49","slug":"a-invisibilidade-na-grande-midia-sobre-os-impactos-ambientais-causados-pela-construcao-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2488","title":{"rendered":"A invisibilidade na grande m\u00eddia sobre os impactos ambientais causados pela constru\u00e7\u00e3o civil"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2183 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-1024x562.jpeg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-768x422.jpeg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>O que a arquitetura vernacular tem a oferecer \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas ditas \u201csustent\u00e1veis\u201d como forma de gerar menos impacto ambiental<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o civil \u00e9 um dos setores que mais impactam o meio ambiente. Al\u00e9m da agressividade com que ocupa os espa\u00e7os de forma cada vez mais r\u00e1pida, n\u00e3o apenas os vazios, mas demolindo constru\u00e7\u00f5es antigas para dar lugar a projetos modernos, extrai os mais variados recursos naturais, al\u00e9m de gerar uma quantidade enorme de res\u00edduos que, na maioria das vezes, pelo menos em muitos lugares do Brasil, acabam n\u00e3o tendo um destino correto, indo parar em descartes inadequados que impactam o meio ambiente. Al\u00e9m do desmatamento para a introdu\u00e7\u00e3o de novos loteamentos e condom\u00ednios, abalam tamb\u00e9m os recursos h\u00eddricos, com contamina\u00e7\u00e3o, desvio, ou canaliza\u00e7\u00e3o. Nas grandes cidades, bairros antigos com casas tradicionais d\u00e3o lugar a edif\u00edcios cada vez mais altos, impactando o meio urbano sem uma adequa\u00e7\u00e3o do sistema vi\u00e1rio. A quantidade de recursos utilizados nessas constru\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e1gua, areia, terra, brita, pedra, cimento, ferro, entre outros, \u00e9 altamente nociva ao meio ambiente. S\u00e3o muitos os caminhos que podem levar a uma cidade mais humanizada, e para tanto, n\u00e3o basta a utiliza\u00e7\u00e3o de recursos ditos \u201csustent\u00e1veis\u201d na arquitetura.<\/p>\n<p>S\u00e3o os fatores acima listados que mostram a necessidade de o jornalismo ambiental dar maior visibilidade a esse setor e priorizar esse debate, uma vez que o dano gerado por grandes empreendimentos arquitet\u00f4nicos, bancados muitas vezes por capital estrangeiro, gera um estrago irrecuper\u00e1vel na paisagem natural. Falamos aqui, por exemplo, dos resorts no literal nordestino, de privatiza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas para fins condominiais privativos, de matas, regi\u00f5es lacustres, que em uma cidade bem planejada, poderiam incorporar parques para que toda a popula\u00e7\u00e3o pudesse usufruir, por\u00e9m o que se v\u00ea \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o por grandes empreendimentos que acabam privilegiando uma pequena elite.<\/p>\n<p>Por que a discuss\u00e3o n\u00e3o tem ader\u00eancia por parte da grande m\u00eddia? Pelos motivos de sempre: \u00e9 atrav\u00e9s da m\u00eddia corporativa que as grandes incorporadoras da constru\u00e7\u00e3o civil fazem sua grande propaganda, gerando um lucro significativo para jornais, TVs, r\u00e1dio.<\/p>\n<p><strong><em>O que poder\u00edamos chamar de arquitetura sustent\u00e1vel?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 todo um sistema que vai desde a escolha do material da constru\u00e7\u00e3o, passando pela utiliza\u00e7\u00e3o de recursos, m\u00e3o de obra e saberes locais, at\u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do terreno escolhido. De acordo com a arquiteta Christiane Lisboa, \u00e9 importante olhar para o material utilizado na constru\u00e7\u00e3o, pois mesmo n\u00e3o tendo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o o material <em>bio<\/em>, ou mesmo n\u00e3o tendo acesso \u00e0 m\u00e3o de obra para fazer uma constru\u00e7\u00e3o de taipa, deve-se procurar o material dispon\u00edvel perto da constru\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o utilizar recursos que viriam de lugares distantes. Por exemplo, trazer pedras que existem no interior de Goi\u00e1s, ao inv\u00e9s de utilizar as que temos por aqui, ou seja,<\/p>\n<blockquote><p><em>Tentar ao m\u00e1ximo ver quais as t\u00e9cnicas locais, o que cada cidade, cada regi\u00e3o do Brasil tem de material que pode ser utilizado, o saber local, a t\u00e9cnica local e a m\u00e3o de obra local. N\u00e3o adianta querer fazer aqui uma casa que eu vi em Manaus. N\u00e3o vai ser adequado para o nosso clima e fica fora do lugar, e n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, porque eu vou pegar o material sabe-se onde. Sobre o uso do material, d\u00e1 para ser criativo com o que se tem em volta e pesquisar. Nas casas de algumas regi\u00f5es de Minas os forros s\u00e3o de esteiras, de palha tran\u00e7ada, que respira, e s\u00e3o feitas na regi\u00e3o. Por isso que cada lugar tem uma arquitetura para aquele lugar, em quest\u00e3o de material, de m\u00e3o de obra, e o arquiteto, com aquilo que tem na m\u00e3o, ele pode ser criativo, ent\u00e3o a forma de construir, a luminosidade, a ventila\u00e7\u00e3o, controle da temperatura, na hora do projeto, desde o come\u00e7o da obra, do come\u00e7o do projeto, j\u00e1 tem que ser sustent\u00e1vel.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Como em todas as esferas do conhecimento que se importa com o meio ambiente, a arquitetura tamb\u00e9m apresenta solu\u00e7\u00f5es para projetos menos impactantes ao meio, seja em rela\u00e7\u00e3o ao uso do terreno, dos detritos gerados em constru\u00e7\u00f5es,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> do material utilizado, al\u00e9m do uso das fontes de energia renov\u00e1vel, capta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas pluviais e armazenamento em cisternas, aproveitamento m\u00e1ximo da ilumina\u00e7\u00e3o natural, reciclagem, tratamento de res\u00edduos, compostagem,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> do uso inteligente do paisagismo como forma de controlar a temperatura interna dos ambientes. Isso parece fazer parte de uma preocupa\u00e7\u00e3o, pelo menos no Brasil, recente, al\u00e9m de promover um estilo de vida, no qual est\u00e3o ligados tamb\u00e9m o veganismo, o consumo m\u00ednimo, uso de materiais de reuso, entre outros. Por isso, a arquiteta refor\u00e7a que desde o princ\u00edpio da obra, a partir da escolha do terreno, \u00e9 preciso estudar suas possibilidades e interfer\u00eancias, como movimento de terra, para causar o m\u00ednimo de impacto poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 apenas seguir o padr\u00e3o de reutiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, usar energia solar; h\u00e1 mais detalhes sobre isso que come\u00e7am no desenho do projeto.<\/p>\n<blockquote><p><em>O que seria uma arquitetura sustent\u00e1vel e quais os benef\u00edcios para o meio ambiente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de construir, aos materiais utilizados, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luminosidade, ventila\u00e7\u00e3o, energia, \u00e1gua, mobili\u00e1rio, materiais provenientes de reuso, reciclagem?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Para Christiane Lisboa,<\/p>\n<blockquote><p><em>Na Universidade de S\u00e3o Paulo, na d\u00e9cada de 1970, 1980, a gente falava em boa arquitetura, e esse termo sustent\u00e1vel veio bem depois, porque a boa arquitetura tem que considerar o clima, a orienta\u00e7\u00e3o solar, tem que considerar o subsolo, tem que considerar a parte de recursos de m\u00e3o de obra, de recursos de materiais para poder fazer uma arquitetura que seja o m\u00ednimo invasiva e ter o m\u00e1ximo de aproveitamento. Quando gente estudou na faculdade sobre o que \u00e9 a boa arquitetura, sempre se falou nisso. Agora se d\u00e1 o nome de sustent\u00e1vel. Porque a gente estudava arquitetura justamente para ver a adequa\u00e7\u00e3o de material, de m\u00e3o de obra aos locais, quais eram as solu\u00e7\u00f5es. Depois veio esse termo arquitetura sustent\u00e1vel, porque a arquitetura por um tempo virou uma coisa de fachadas de vidro, ent\u00e3o precisava por muito ar condicionado, mas antigamente,\u00a0 na arquitetura vernacular,<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a> se aproveitava de outro jeito, se aproveitava o vento. Na arquitetura dos pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, do Mediterr\u00e2neo, faziam t\u00faneis de ar, n\u00e3o existia o ar condicionado, mas a casa era refrescada, enquanto que hoje se apoia sempre na tecnologia do ar condicionado precisa de mais hidrel\u00e9trica para suprir tanta eletricidade que todas as casas precisam, todas as cidades precisam.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Aparentemente toda essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 atual, marcada pela discuss\u00e3o sobre constru\u00e7\u00f5es inteligentes que se mimetizariam ao entorno natural, causando menos impacto com sua presen\u00e7a. De acordo com Lisboa, s\u00e3o os clientes mais jovens que t\u00eam se preocupado mais com a quest\u00e3o ambiental, como uso de cisterna, armazenamento de \u00e1gua da chuva, aquecimento solar, as mesmas pessoas que hoje em dia s\u00e3o veganas, usam material de reuso, de demoli\u00e7\u00e3o, m\u00f3veis reutilizados e reformados, compram em brech\u00f3s&#8230; \u201cest\u00e3o vendo que o mundo n\u00e3o d\u00e1 mais, eles t\u00eam essa preocupa\u00e7\u00e3o, gente de quarenta anos para baixo, o pessoal mais velho j\u00e1 n\u00e3o tem tanto essa preocupa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Adapta\u00e7\u00e3o das moradias \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Esse tipo de constru\u00e7\u00e3o com p\u00e1tio interno como forma de refrescar a moradia pode ser observado na arquitetura de origem \u00e1rabe, bem como as solu\u00e7\u00f5es para o mesmo fim nas moradias da Am\u00e9rica Latina, trazidas pelos povos ib\u00e9ricos, como as varandas, na arquitetura colonial, muitas vezes circundando as casas, ou em forma de \u201cL\u201d ou na parte frontal e de fundos. Por\u00e9m, andando mais para tr\u00e1s, a arquitetura ind\u00edgena dos amer\u00edndios comporta solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis invej\u00e1veis, a come\u00e7ar pela forma construtiva das ocas, com o m\u00e1ximo aproveitamento de espa\u00e7o, uso coletivo, al\u00e9m de o material utilizado ser de baixo impacto ambiental, coletado no entorno das constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses orientais, as ventila\u00e7\u00f5es cruzadas, os po\u00e7os de ar, \u00e0s vezes enriquecidos com um fio de \u00e1gua, tornavam os ambientes frescos e agrad\u00e1veis apesar do calor t\u00f3rrido do exterior. Constru\u00e7\u00f5es utilizando materiais locais como bambu, abundante em muitas regi\u00f5es, serviam como forma construtiva inteligente e de baixo impacto na natureza.<\/p>\n<p>Ainda no continente asi\u00e1tico, Singapura \u00e9 um exemplo de constru\u00e7\u00f5es com a utiliza\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas inteligentes para fazer frente ao aquecimento global. No entanto, um olhar na arquitetura do passado diria que algumas dessas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o recentes. Muitos arquitetos da antiguidade projetaram constru\u00e7\u00f5es que hoje seriam consideradas como muito adequadas aos projetos contempor\u00e2neos chamados de sustent\u00e1veis.<\/p>\n<blockquote><p><em>Se voc\u00ea olhar uma casa de Pompeia, todas elas tinham um p\u00e1tio interno com um espelho d\u2019\u00e1gua e duas entradas, o vento entrava por uma, passava por cima da \u00e1gua naquele espelho d\u2019\u00e1gua e saia pela outra. T\u00fanel de vento \u00e9 o que pega o vento por cima e encana para baixo, mas existe essa parte que tem o p\u00e1tio interno. Se voc\u00ea estudar as plantas dessas casas da antiguidade de lugares quentes, voc\u00ea vai ver quantos modos de resfriar uma casa havia, sem eletricidade. A gente tem que ver que a arquitetura vernacular, aquela sem arquiteto, culturalmente dos povos antigos, ou se for ver os ind\u00edgenas brasileiros, eles fazem arquitetura sustent\u00e1vel a vida inteira at\u00e9 hoje, utilizam materiais naturais, biodegrad\u00e1veis, bambu, palhas das palmeiras, ent\u00e3o sempre se fez arquitetura sustent\u00e1vel e agora est\u00e3o querendo voltar para uma arquitetura que os mais jovens querem que seja sustent\u00e1vel. Para tanto, o material de constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltando muito para t\u00e9cnicas como o adobe, solo cimento, taipa de pil\u00e3o. Tem casas agora em condom\u00ednios car\u00edssimas com taipa de pil\u00e3o.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Se olharmos ainda mais distante no passado e longe do mundo ocidental, \u00e9 poss\u00edvel observar constru\u00e7\u00f5es completamente integradas ao clima, \u00e0 geografia e \u00e0s necessidades de conforto dos povos. Na \u00c1frica, desde a do Norte, ocupada pelos \u00e1rabes, passando pelos povos do deserto, como na Maurit\u00e2nia, Nig\u00e9ria, nas habita\u00e7\u00f5es tradicionais de Camar\u00f5es, nas casas dos povos kassena, De Burkina Fasso e Gana, \u00e9 poss\u00edvel observar solu\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas criativas e de baixo custo para solucionar problemas com as altas temperaturas. \u00c9 conhecido que as constru\u00e7\u00f5es \u00e1rabes organizavam suas moradas de forma a que todos os c\u00f4modos convergissem para um p\u00e1tio interno, o qual era provido de plantas ornamentais, pomares e fontes. Al\u00e9m disso, muitas casas que davam para as ruas tinham as janelas cobertas por muxarabis \u2013 atualmente redescobertos pela arquitetura ocidental \u2013 elementos vazados em madeira que permitiam a entrada de ar, ventila\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de resguardar a privacidade de quem chegasse \u00e0 janela sem ser visto de fora. Esses elementos vazados podem ser vistos no Brasil, al\u00e9m do seu desenho original, na forma dos conhecidos cobog\u00f3s. Christiane Lisboa chama a aten\u00e7\u00e3o para a dupla fun\u00e7\u00e3o dos muxarabis: \u201ctinha uma fun\u00e7\u00e3o cultural das pessoas na rua n\u00e3o verem as mulheres nos balc\u00f5es, mas tamb\u00e9m dava para abrir a janela e por tr\u00e1s daquele elemento tinha ventila\u00e7\u00e3o. Hoje muitos arquitetos jovens lan\u00e7am m\u00e3o disso\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos materiais, o adobe, a taipa e mesmo o ch\u00e3o batido de terra eram as solu\u00e7\u00f5es encontradas para baratear o custo da constru\u00e7\u00e3o e ainda controlar termicamente o ambiente. Um conceito que tem aparecido na arquitetura hoje \u00e9 o da bioconstru\u00e7\u00e3o, unida \u00e0 id\u00e9ia de integra\u00e7\u00e3o entre as necessidades habitacionais, tanto de moradia como de trabalho, que n\u00e3o interfiram significativamente na natureza, evitando o desperd\u00edcio e uso consciente dos recursos naturais e para tanto, s\u00e3o utilizados materiais naturais e renov\u00e1veis, reciclados e reaproveitados, al\u00e9m dos considerados sustent\u00e1veis, como bambu, palha, madeira certificada, al\u00e9m de uma grande aten\u00e7\u00e3o aos saberes locais, condi\u00e7\u00f5es naturais e clim\u00e1ticas.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong><em>O papel do paisagismo na arquitetura sustent\u00e1vel<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para Lisboa, um dos papeis importantes do paisagismo \u00e9 o da constitui\u00e7\u00e3o de barreiras, tanto t\u00e9rmicas como de vento, impedindo a forma\u00e7\u00e3o de ilhas de calor, e como exemplo menciona a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios inteiros com os andares repletos de plantas, como o<\/p>\n<p>Cidade Matarazzo, em S\u00e3o Paulo, do arquiteto Jean Novel e paisagismo do Benedito Abbud,<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> que foi professor da FAU \u2013 USP, e da PUCC Campinas. O pr\u00e9dio tem uma estrutura que possibilita \u201cter terra em todos os andares e varandas para as plantas de grande porte, elas formam uma barreira que ajuda contra a polui\u00e7\u00e3o sonora, do ar, e cria um microclima mais \u00famido, n\u00e3o aquela secura de uma cidade como S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do paisagismo na atualidade pode ser comprovada pelo n\u00famero crescente de profissionais dessa \u00e1rea que est\u00e3o se formando, pois se percebe que h\u00e1 um interesse muito maior hoje pelo paisagismo do que h\u00e1 quarenta anos, segundo Lisboa. Al\u00e9m disso, muitos programas de arquitetura, decora\u00e7\u00e3o, design, realizados por <em>youtubers<\/em>, conseguem atingir um grande p\u00fablico, mostrando a import\u00e2ncia de ter plantas mesmo que seja em pequenos terra\u00e7os de apartamentos: \u201choje apartamento com um terra\u00e7o que d\u00ea para voc\u00ea ter um m\u00ednimo de vegeta\u00e7\u00e3o, vale mais \u2013 talvez mais do que se tivesse uma churrasqueira. E as pessoas est\u00e3o ligando mais para jardim\u201d. Ressalta tamb\u00e9m que a mat\u00e9ria paisagismo \u00e9 muito mais que jardinagem, est\u00e1 conectada ao planejamento urbano, \u00e0 id\u00e9ia do que queremos para a cidade, para a paisagem local e a fun\u00e7\u00e3o das \u00e1reas verdes coletivas.<\/p>\n<p>A realidade da arquitetura sustent\u00e1vel no Brasil \u00e9 que ainda \u00e9 minoria, pois n\u00e3o apenas os projetos, mas os pr\u00f3prios clientes ainda optam por procedimentos mais convencionais, sendo reticentes \u00e0s propostas mais inovadoras.<\/p>\n<blockquote><p><em>No Brasil a arquitetura sustent\u00e1vel ainda \u00e9 minoria, porque os processos construtivos mais comuns hoje ainda s\u00e3o artesanais, ent\u00e3o encarece a obra. As obras ainda est\u00e3o num est\u00e1gio muito n\u00e3o sustent\u00e1vel, por exemplo, existe uma parede, de tijolo, de bloco, que durante a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 revestida e depois se quebra tudo aquilo para por os condu\u00edtes para passar os encanamentos, eletricidade. J\u00e1 existem blocos para voc\u00ea passar por dentro, s\u00f3 que as pessoas continuam fazendo aquela arquitetura convencional. Ent\u00e3o voc\u00ea tem uma parede prontinha, e quando chega o eletricista ou encanador, vem com uma marreta e vai quebrando. Se voc\u00ea olhar o tanto de entulho que sai daquilo&#8230;vai pra onde? Vai pra um aterro? Uma ca\u00e7amba?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A arquitetura modernista brasileira \u00e9 repleta de exemplos de solu\u00e7\u00f5es simples, como o uso do concreto bruto, com formas de concreto cheias e os condu\u00edtes aparentes. Chris cita como exemplos emblem\u00e1ticos desse tipo arquitet\u00f4nico o Sesc Pompeia, o MASP, o pr\u00e9dio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, al\u00e9m dos projetos de \u00a0Niemayer.<\/p>\n<blockquote><p><em>Por isso que no Brasil se apurou muito o c\u00e1lculo do concreto, porque essas cascas de concreto que fazia o Lefevre,<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> o S\u00e9rgio Ferro, esses arquitetos paulistas e os cariocas tamb\u00e9m, em outros pa\u00edses se dizia que n\u00e3o, isso n\u00e3o vai dar, deveria ser muito mais espessa essa laje, e aqui desenvolveram c\u00e1lculos de concreto com calculistas que deixaram a arquitetura leve.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>O papel do arquiteto na atualidade com o compromisso ambiental<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>Eu gostaria que todos os arquitetos pensassem em todos esses par\u00e2metros na hora de projetar, mas, mesmo que a gente pense, \u00e9 dif\u00edcil, porque a m\u00e3o de obra \u2013 e o cliente tamb\u00e9m \u2013 resistem muito, elas querem aquele tradicional, tem uma resist\u00eancia, uma in\u00e9rcia de mudar, pois \u00e0s vezes acham o alternativo mais caro. \u00c9 mais caro, mas no fim, \u00e9 mais caro o outro, que tem que quebrar e depois refazer por cima. Mas vai mudar, est\u00e3o chegando clientes mais novos, que est\u00e3o vendo que o mundo n\u00e3o comporta esse volume de lixo e consumo.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>Sobre a Entrevistada<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Christiane Terra Lisboa \u00e9 arquiteta formada pela FAU \u2013 USP, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Arquitetura pela Unicamp.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong><em>Refer\u00eancias<\/em><\/strong><\/p>\n<p>HOFFMANN, M. V. Arquitetura e constru\u00e7\u00e3o com terra: taipa de pil\u00e3o. <strong>Revista Restauro<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/web.revistarestauro.com.br\/arquitetura-e-construcao-com-terra-taipa-de-pilao\/ &gt; Acesso em: 26\/04\/2024. Apud <strong>Aproxima\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas: arquitetura vernacular como alternativa sustent\u00e1vel para edifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. <\/strong>MEURER, Sabrina Patricia; CARDOSO, Sandra Magda Mattei. Simp\u00f3sio de sustentabilidade e contemporaneidade nas Ci\u00eancias Sociais. Jun. 2017.<\/p>\n<p>TASCHEN, Angelika (Ed.) e SCHAEWEN, Deidi Von (Photos). <strong>African Style<\/strong>. Koln: Taschen, 2005.<\/p>\n<p>TEIXEIRA, Rubenilson Braz\u00e3o. Arquitetura vernacular. Em busca de uma defini\u00e7\u00e3o. <strong>Arquitextos<\/strong>, S\u00e3o Paulo, ano 17, n. 201.01, fev. 2017. http:\/\/www.vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/17.201\/6431. Acesso 26\/04\/2024.<\/p>\n<p>https:\/\/www.gbcbrasil.org.br\/cidade-matarazzo-impressiona-pela-arquitetura-pelo-luxo-e-pela-mata-exuberante\/<\/p>\n<p><em><strong>Notas<\/strong><\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Questionada se h\u00e1 lugares espec\u00edficos para descarte de res\u00edduos da constru\u00e7\u00e3o civil, Christiane respondeu que \u201cexistem empresas que pegam os res\u00edduos e moem, fazendo outras coisas, mas isso \u00e9 a minoria. Muitas empresas de ca\u00e7amba saem andando por a\u00ed e derrubam num terreno, pode observar, saia um pouco da mancha urbana que voc\u00ea vai ver um despejo\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u00a0Processo de reciclagem do lixo org\u00e2nico.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> De acordo com Teixeira (2017, p. 6) a arquitetura vernacular pode ser reconhecida como aquela em que h\u00e1 uma grande integra\u00e7\u00e3o com o meio f\u00edsico, com as condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e locais, como clima, vegeta\u00e7\u00e3o, topografia, respeito ao conhecimento local, uma vez que seu desenvolvimento se d\u00e1 entre aqueles que disp\u00f5em de um n\u00edvel de conhecimento tecnol\u00f3gico\/construtivo diferente dos considerados \u201cmodernos\u201d, reconhecendo, entretanto, que aqueles povos desenvolveram solu\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas tamb\u00e9m bastante modernas, \u00e0 sua maneira. Sendo assim, esse tipo de arquitetura est\u00e1 amplamente ligada ao meio f\u00edsico-geogr\u00e1fico onde se desenvolve, posto que os habitantes procuram solucionar problemas de calor ou frio a partir do que disp\u00f5em \u00e0 sua volta. Por exemplo, as habita\u00e7\u00f5es de clima frio s\u00e3o compactas e com poucas aberturas para o exterior, enquanto que as localizadas em regi\u00f5es des\u00e9rticas com grande varia\u00e7\u00e3o de temperatura entre dia e noite e com muita luminosidade, s\u00e3o tamb\u00e9m fechadas para o exterior, como as do deserto africano, al\u00e9m de possu\u00edrem paredes espessas; nas regi\u00f5es de clima tropical, observa-se o uso de varandas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> T\u00e9cnica adotada em constru\u00e7\u00f5es brasileiras no per\u00edodo colonial no Brasil, a taipa \u00e9 um processo em que a terra \u00e9 colocada dentro de formas bem travadas e compactada com o aux\u00edlio de um pil\u00e3o, atualmente podendo-se utilizar compactadores mec\u00e2nicos (HOFFMANN, 2017, p. 7).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> https:\/\/habitability.com.br\/bioconstrucao.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O projeto arquitet\u00f4nico Cidade Matarazzo, na regi\u00e3o da Avenida Paulista, na cidade de S\u00e3o Paulo, chama a aten\u00e7\u00e3o pelas 10 mil \u00e1rvores nativas plantadas pelos andares da Torre Mata Atl\u00e2ntica. O projeto \u00e9 de Jean Nouvel, pr\u00eamio Pritzker de Arquitetura e projeto paisag\u00edstico do arquiteto Benedito Abbud,<\/p>\n<p>https:\/\/www.gbcbrasil.org.br\/cidade-matarazzo-impressiona-pela-arquitetura-pelo-luxo-e-pela-mata-exuberante\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Rodrigo Brotero Lef\u00e8vre foi professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU\/USP) e juntamente com S\u00e9rgio Ferro e Fl\u00e1vio Imp\u00e9rio, foi um dos personagens emblem\u00e1ticos que marcaram o debate arquitet\u00f4nico dos anos 1960 e 1970, problematizando a associa\u00e7\u00e3o entre arquitetura moderna e estado, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho no canteiro de obras, \u201cpropondo a ruptura da hierarquia baseada em saberes t\u00e9cnicos, frente aos saberes construtivos correntes desenvolvidos pelos trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/www.iau.usp.br\/institucional\/lancamento-do-livro-rodrigo-brotero-lefevre-e-a-ideia-de-vanguarda-no-brasil\/<\/p>\n<p><strong>* Andr\u00e9ia Terzariol Couto \u00e9 jornalista, professora e pesquisadora com p\u00f3s-doutorado pela ECA-USP.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que a arquitetura vernacular tem a oferecer \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas ditas \u201csustent\u00e1veis\u201d como forma de gerar menos impacto ambiental A constru\u00e7\u00e3o civil \u00e9 um dos setores que mais impactam o meio ambiente. Al\u00e9m da agressividade com que ocupa os espa\u00e7os de forma cada vez mais r\u00e1pida, n\u00e3o apenas os vazios, mas demolindo constru\u00e7\u00f5es antigas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1299,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[351],"tags":[107],"class_list":["post-2488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-urihi-a-terra-floresta","tag-meio-ambiente"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2488"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2490,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488\/revisions\/2490"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}