{"id":2494,"date":"2024-04-26T15:41:50","date_gmt":"2024-04-26T18:41:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2494"},"modified":"2024-04-29T15:50:08","modified_gmt":"2024-04-29T18:50:08","slug":"chega-de-cravos-vermelhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2494","title":{"rendered":"Chega de cravos vermelhos?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><span class=\"TextRun SCXW257535371 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW257535371 BCX0\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1865 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL.jpg 303w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span class=\"TextRun SCXW257535371 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW257535371 BCX0\">Nos 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, como os estudos sobre o fascismo de Fernando Rosas nos ajudam a fazer sentido sobre o mundo, o Brasil e o Portugal contempor\u00e2neo<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Em 25 de abril de 1974, um movimento militar liderava uma marcha pol\u00edtica em Portugal. Parafraseado as palavras do capit\u00e3o Salgueiro Maia, naquela noite solene, foram acabar com o Estado a que tinham chegado, os restos do Estado Novo fundado por Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar em 1933. Aquele dia ficou marcado como o estopim da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, que ganhou esse nome em refer\u00eancia \u00e0s tradicionais flores ib\u00e9ricas vermelhas que adornaram os fuzis militares naquela marcha contra o longo <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/o-avanco-da-extrema-direita-portuguesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fascismo portugu\u00eas<\/a>.<\/span><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><span data-contrast=\"auto\">At\u00e9 o dia 25 de novembro de 1975, Portugal viveu o chamado Processo Revolucion\u00e1rio em Curso (PRC), em que as esquerdas dominaram a pol\u00edtica nacional e implantaram uma s\u00e9rie de reformas que rumavam ao socialismo, alicer\u00e7adas nos \u201cideais de Abril\u201d. Ap\u00f3s esse dia, o pa\u00eds se assentou politicamente no que se tornou o per\u00edodo democr\u00e1tico atual, com o conv\u00edvio tamb\u00e9m com a direita pol\u00edtica (n\u00e3o a extrema-direita). Essa atual rep\u00fablica teve m\u00faltiplos primeiros-ministros (chefes de governo) socialistas, mas tamb\u00e9m conservadores da Alian\u00e7a Democr\u00e1tica (AD) e alguns poucos independentes, no seu per\u00edodo inicial.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Meio s\u00e9culo depois dessa revolu\u00e7\u00e3o, que fundou a hist\u00f3ria mais recente de Portugal, alguns novos v\u00ednculos com o Brasil marcam o pa\u00eds hoje. Entre eles est\u00e3o uma renovada xenofobia contra o grande contingente de brasileiros que marchou para Portugal na \u00faltima d\u00e9cada e o estranho <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">lavajatismo<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> do Minist\u00e9rio P\u00fablico portugu\u00eas, que levou a um abrupto e question\u00e1vel fim do governo socialista de Ant\u00f3nio Costa, cuja administra\u00e7\u00e3o durou de 2015 at\u00e9 2 de abril deste ano. Por fim, outro paralelo com o Brasil \u00e9 o retorno da direita ao poder com o atual governo de Lu\u00eds Montenegro, da AD, com o congresso portugu\u00eas contando pela primeira vez com uma expressiva extrema-direita, o partido Chega.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">At\u00e9 o momento, Montenegro\u00a0n\u00e3o governa com o apoio da extrema-direita e por isso se mant\u00e9m como um primeiro-ministro de minoria parlament\u00e1ria. Seu movimento provavelmente se explica por ter observado, na vizinha Espanha, a intentona de Alberto N\u00fa\u00f1ez Feij\u00f3o, da tradicional direita do Partido Popular (PP), ser derrotada amargamente ap\u00f3s ganhar a maior bancada no parlamento. Feij\u00f3o foi impedido de governar porque n\u00e3o conseguiu uma maioria com o <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/la-esperanza-vencio-el-miedo-na-espanha-que-esperava-o-vox\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">partido extremista Vox<\/a>, e, por causa da alian\u00e7a com a extrema-direita, teve as portas fechadas por todas as outras for\u00e7as pol\u00edticas do pa\u00eds. No entanto, assim como fez Feij\u00f3o, Montenegro incluiu umas tantas pautas da extrema-direita no seu governo, para n\u00e3o ser derrubado e catalisar apoio de massas que anseiam por votar na nova onda extremista.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Para al\u00e9m das caricaturas j\u00e1 exploradas de Marcus Santos, brasileiro negro que foi eleito pelo Chega em Portugal e defende uma pauta anti-imigra\u00e7\u00e3o repleta de nuances discursivas racistas, o intuito da reflex\u00e3o deste artigo \u00e9 conversar com as bases de forma\u00e7\u00e3o do fascismo na atualidade, buscando entender o que se passa em Portugal, na Europa e no mundo. Para isso, uso de base os trabalhos do catedr\u00e1tico professor de Hist\u00f3ria da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Fernando Rosas.<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Para al\u00e9m da Era dos Fascismos \u2013 a quest\u00e3o contempor\u00e2nea<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Rosas \u00e9 um dos mais importantes intelectuais globais no estudo do fascismo, n\u00e3o apenas como movimento pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m como governo em seus regimes ao longo do s\u00e9culo XX. Entre tantas importantes obras do historiador portugu\u00eas, a mais recente, de 2019, foi publicada somente em 2023 no Brasil pela Tinta da China, e chama-se <\/span><a href=\"https:\/\/www.tintadachina.com.br\/produtos\/pre-venda-salazar-e-os-fascismos-ensaio-breve-de-historia-comparada-fernando-rosas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span data-contrast=\"none\">Salazar e os Fascismos<\/span><\/i><\/a><i><span data-contrast=\"auto\">.<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> Trata-se de um ensaio, segundo o autor, embora tenha bases de pesquisa historiogr\u00e1fica, em que Rosas faz um esfor\u00e7o de Hist\u00f3ria Comparada para explicar o Salazarismo em Portugal.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Para al\u00e9m de explicar as bases do fascismo do s\u00e9culo XX, o autor nos brinda com um cap\u00edtulo final em que discute \u201cOs Desafios do Presente\u201d. Utilizando-se da famosa frase da obra <\/span><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-18-de-brumario-de-luis-bonaparte-152733\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span data-contrast=\"auto\">O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/span><\/i><\/a><span data-contrast=\"auto\">, de Karl Marx, Rosas inicia seu pensamento relembrando o que o intelectual alem\u00e3o cravou no pensamento contempor\u00e2neo: \u201cHegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande import\u00e2ncia na hist\u00f3ria do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como trag\u00e9dia, a segunda como farsa\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A partir da\u00ed, Rosas relembra que o que hoje chamamos de fascismo n\u00e3o \u00e9 exatamente o que foi o fascismo da Europa do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Contudo, paralelismos existem a ponto de se debater at\u00e9 onde podemos falar de fascismo hoje. No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, os extremismos desse tipo se forjaram das crises do capitalismo liberal, j\u00e1 cont\u00ednuas e com seu grande <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">crash<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> em 1929. Rosas relembra: \u201cde forma id\u00eantica ao per\u00edodo entre as guerras do s\u00e9culo passado, o capitalismo conhece, desde os finais dos anos 70 do s\u00e9culo XX, uma prolongada crise sist\u00eamica, de que a grande depress\u00e3o de 2008\/09 n\u00e3o foi sen\u00e3o o seu abalo mais profundo e recente.\u201d<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Dessas crises nasceram, tamb\u00e9m, as respostas das revolu\u00e7\u00f5es socialistas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. No entanto, como tamb\u00e9m recorda Rosas, com o fim do socialismo real no mundo, n\u00e3o h\u00e1 nada que pare\u00e7a fazer frente ao neoliberalismo corro\u00eddo sen\u00e3o esse neofascismo rampante. A partir desse ponto, questiona-se como os \u00faltimos cinco anos, desde que Rosas escreveu sua obra, cimentam mais ainda esse problema. Mesmo com alguns governos com novas pol\u00edticas contr\u00e1rias aos ideais do neoliberalismo se mostrando com melhores resultados econ\u00f4micos e sociais atualmente, isso n\u00e3o parece mais fazer diferen\u00e7a para frear o avan\u00e7o dos fanatismos fascistizantes que os antagonizam.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Milei faz um governo atroz na Argentina, seguindo as cartilhas neoliberais, fazendo com que o n\u00edvel da pobreza de um dos pa\u00edses que historicamente tem a maior classe m\u00e9dia da Am\u00e9rica Latina chegasse, em janeiro, a 57,4% da popula\u00e7\u00e3o. Ainda assim, seus apoiadores parecem firmes. Sob o governo do socialista Pedro S\u00e1nchez, a Espanha tem indicativos econ\u00f4micos raros na Europa atual, crescendo acima da m\u00e9dia continental em 2023 (o pa\u00eds cresceu 2,5% e a Zona do Euro apenas 0,4%). Portugal acompanhou seu vizinho, crescendo 2,3%. Ambos fizeram isso enquanto a t\u00e3o potente Alemanha v\u00ea sua economia regredir (caiu 0,3%). Isso tamb\u00e9m parece n\u00e3o importar para os extremistas que querem derrubar o governo socialista na Espanha e tampouco impediu a manobra estranha que derrubou Ant\u00f3nio Costa em Portugal e abriu as alas para o retorno do neoliberalismo de Montenegro.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Joe Biden termina seu mandato com os EUA na melhor situa\u00e7\u00e3o de emprego dos \u00faltimos 50 anos, e isso tampouco parece fazer a menor diferen\u00e7a para a sua iminente derrota para Donald Trump no fim deste ano. Lula apresentou n\u00fameros melhores que as previs\u00f5es do FMI para o Brasil em 2023 (como tantas vezes j\u00e1 mencionou em discursos), ainda assim falam como se a economia do pa\u00eds fosse um caos. A realidade parece n\u00e3o importar para os fan\u00e1ticos do Bolsonarismo. Ter\u00edamos perdido a janela da oportunidade para curar as crises econ\u00f4micas de modo a enfraquecer os ascensos neofascistas?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h4><b><span data-contrast=\"auto\">Representatividade e subvers\u00e3o pol\u00edtica<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/h4>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Rosas explica, como j\u00e1 vimos em consenso entre tantos autores, como a quantidade gigantesca de prejudicados pelo neoliberalismo desde os anos 80 se viu \u00f3rf\u00e3 de quem pudesse representar suas ang\u00fastias na pol\u00edtica atual, com as esquerdas destru\u00eddas pela d\u00e9cada de Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Sem ter a quem recorrer, essas massas foram atra\u00eddas pelo populismo fascistizante, que, por sua vez, empurrou as direitas tradicionais dos pa\u00edses a se unirem a ele, como descreve o intelectual portugu\u00eas. Agora, esses movimentos tinham bases populares, que a direita tradicional nunca teve. \u00c9 mais um paralelo com o que houve na gesta\u00e7\u00e3o da Era dos Fascismos do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O mundo definitivamente demorou para ter a coragem de abandonar o neoliberalismo e ainda hoje s\u00e3o pouqu\u00edssimos os governos progressistas que efetivamente o fazem.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Rosas aponta tamb\u00e9m que at\u00e9 o momento em que escrevia (em 2019), n\u00e3o parecia que a ordem neoliberal estava disposta a implodir os Estados democr\u00e1ticos de direito em nome da fascistiza\u00e7\u00e3o. Segundo ele, especialmente porque n\u00e3o havia uma amea\u00e7a real de revolu\u00e7\u00e3o, por parte do campo da esquerda, a este sistema econ\u00f4mico. Se chegamos a um ponto onde parece que algumas esquerdas pelo mundo v\u00e3o tentar questionar a cartilha neoliberal econ\u00f4mica, ainda que delicadamente, isso poderia estar mudando?<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A transnacionalidade da macroeconomia atual tamb\u00e9m pode ser um fator que contribui para o aumento dos extremismos, j\u00e1 que os Estados-Na\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis pela democracia, s\u00e3o cada vez mais ref\u00e9ns de cen\u00e1rios que n\u00e3o podem alterar. Segundo Rosas, isso gestou na Europa uma nova onda de nacionalismos xen\u00f3fobos e racistas que se aproveita do sentimento de impot\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es, e que parece n\u00e3o se frear pelo Velho Continente, mesmo cinco anos depois dos escritos do professor portugu\u00eas.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Por fim, h\u00e1 uma quest\u00e3o midi\u00e1tica, como demonstra Rosas: \u201cneste quadro, a concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e das redes sociais sob o controle de um punhado de multinacionais tem um duplo efeito perverso: tende inevitavelmente para a restri\u00e7\u00e3o do pluralismo informativo e da liberdade de express\u00e3o, por um lado; e, por outro, \u00e0 atomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais por via inform\u00e1tica, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de cada um em objeto f\u00e1cil de manipula\u00e7\u00e3o centralizada e generalizada, \u00e0 exacerba\u00e7\u00e3o de novas modalidades de ignor\u00e2ncia, iliteracia e desmobiliza\u00e7\u00e3o c\u00edvica\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Outra vez h\u00e1 de se apontar que o intelectual portugu\u00eas resumiu perfeitamente o cen\u00e1rio desfavor\u00e1vel, sendo que as consequ\u00eancias de cada um destes fatores s\u00e3o ainda mais percept\u00edveis hoje, cinco anos depois. Ficando apenas no caso brasileiro: o <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">olavismo<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> saiu da internet e se tornou o c\u00e2non intelectual do Bolsonarismo atual, defendendo fal\u00e1cias cient\u00edficas e ideais francamente perigosos agora tamb\u00e9m nas ruas e no Congresso Nacional; a atomiza\u00e7\u00e3o das pessoas no mundo online fortaleceu os n\u00facleos de \u00f3dio contra minorias a ponto de dar origem, por exemplo, ao movimento <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">red pill,<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> dedicado exclusivamente a ser um baluarte masculino antifeminista; o pluralismo das redes sumiu entre as ondas de <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">bots <\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">j\u00e1 abertamente neonazistas, alimentados pela nova onda de \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d de figuras como <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/as-caras-e-a-sincronia-da-internacional-fascista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Elon Musk<\/a>.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Um novo passo foi dado desde os escritos de Rosas: Musk j\u00e1 se colocou como ator pol\u00edtico transnacional, comprando brigas com o Estado brasileiro em nome de defender o projeto extremista de Bolsonaro e frear os movimentos de regulamenta\u00e7\u00e3o das redes sociais, que minaram suas possibilidades midi\u00e1ticas quando ocorreram recentemente na Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">\u201c\u00c9 certo que a polariza\u00e7\u00e3o tende, tamb\u00e9m, a facilitar e refor\u00e7ar o campo das esquerdas\u201d, \u00e9 um contraponto v\u00e1lido j\u00e1 apontado pelo estudioso portugu\u00eas. Contudo, ele mesmo rebate que esse contragolpe est\u00e1 se mostrando lento e muito fragmentado. Hoje, provavelmente \u00e9 justo dizer que est\u00e1 mais unido e forte do que h\u00e1 cinco anos, com uma corrente antifascista cada vez mais vis\u00edvel pelo planeta, ainda que n\u00e3o com a for\u00e7a que deveria ter frente aos horrores do avan\u00e7o da extrema-direita, alimentada pelas guerras no Leste Europeu e no Oriente M\u00e9dio.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Rosas finaliza suas reflex\u00f5es recordando que n\u00e3o quer terminar numa nota pessimista. Acredito que estes cinco anos deram algumas notas otimistas que devemos ressaltar. S\u00f3 no campo da pol\u00edtica, temos as vit\u00f3rias eleitorais de Biden, Lula, S\u00e1nchez e Donald Tusk (na Pol\u00f4nia), para citar alguns exemplos. N\u00e3o s\u00e3o vit\u00f3rias decisivas em nenhum destes pa\u00edses, mas s\u00e3o, no m\u00ednimo, freios ao avan\u00e7o neofascista. A regulamenta\u00e7\u00e3o das m\u00eddias sociais na UE \u00e9 outra importante raz\u00e3o para comemorar. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil imaginar que estes pequenos lampejos de otimismo possam fazer frente \u00e0 onda de motivos para temermos o futuro, mas talvez sejam os \u00faltimos respiros de esperan\u00e7a para mantermos ao menos um ideal de n\u00e3o abandonar a condi\u00e7\u00e3o antifascista nas disputas travadas neste momento.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Portugal, 50 anos depois da sua Revolu\u00e7\u00e3o pela liberdade e contra o fascismo, se encontra agora pouco sol\u00edcito aos brasileiros, o que entristece quem j\u00e1 viu naquele pa\u00eds uma recep\u00e7\u00e3o positiva de valores socialistas importantes para a Europa e at\u00e9 para o Brasil. Resta esperar e trabalhar para que, na efem\u00e9ride de 60 anos, uma visita \u00e0 <\/span><i><span data-contrast=\"auto\">Coimbra do Choupal<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\"> (que este autor tanto gostou de fazer h\u00e1 alguns anos) possa acontecer em um pa\u00eds n\u00e3o mais envenenado pela xenofobia e pelo \u00f3dio. Afinal, se os portugueses lerem a obra de Rosas, ter\u00e3o em vista \u00f3timos motivos para n\u00e3o engrandecer o passado fascista do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:259}\">\u00a0* <\/span><strong>Daniel Azevedo Mu\u00f1oz \u00e9 professor e jornalista, mestre e doutorando em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidad Aut\u00f3noma de Madrid. Integra o grupo de pesquisa em Jornalismo Popular &amp; Alternativo, da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>OBS: artigo publicado, originalmente, no <em>Le Monde Diplomatique Brasil<\/em> e reproduzido com autoriza\u00e7\u00e3o do autor:<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/revolucao-dos-cravos-50-anos-chega-de-cravos-vermelhos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Nos 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, como os estudos sobre o fascismo de Fernando Rosas nos ajudam a fazer sentido sobre o mundo, o Brasil e o Portugal contempor\u00e2neo &nbsp; Em 25 de abril de 1974, um movimento militar liderava uma marcha pol\u00edtica em Portugal. Parafraseado as palavras do capit\u00e3o Salgueiro Maia, naquela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1865,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[305],"tags":[367,366,368],"class_list":["post-2494","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusiva","tag-jornalismo-internacional","tag-portugal","tag-revolucao-dos-cravos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2494","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2494"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2494\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2496,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2494\/revisions\/2496"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2494"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2494"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2494"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}