{"id":2640,"date":"2024-09-04T05:54:42","date_gmt":"2024-09-04T08:54:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2640"},"modified":"2024-09-07T09:23:11","modified_gmt":"2024-09-07T12:23:11","slug":"a-beleza-negra-entre-o-descobrimento-do-ser-e-a-sociedade-brasileira-pos-escravismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2640","title":{"rendered":"A beleza negra: entre o descobrimento do ser e a sociedade brasileira p\u00f3s-escravismo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2642 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/renan3.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/renan3.jpg 250w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/renan3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/p>\n<p>Afinal, quando n\u00f3s negros e negras do Brasil nos deparamos com nossa etnia de fato? Quais foram os processos que nos levaram a crer que estamos longe da considera\u00e7\u00e3o social em rela\u00e7\u00e3o a<em> beleza<\/em> e aquilo que \u00e9 tido como belo \u201caos olhos de todos\u201d? Quem foram os mentores do projeto pol\u00edtico que excluiu nossos tra\u00e7os durante tantos s\u00e9culos? Qual \u00e9 a heran\u00e7a psicossocial que o modelo escravista perdurado por mais de trezentos anos incutiu na mentalidade do <em>ser negro<\/em>?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s Maio de 1888, a popula\u00e7\u00e3o negra deste pa\u00eds n\u00e3o lidou com a quest\u00e3o de sua identidade pois n\u00e3o havia tempo, ao fim \u201cformal\u201d da escravatura nosso horizonte foi outro, os questionamentos foram outros: \u201co que faremos agora?\u201d, ao oposto, \u201cdevemos fazer algo?\u201d, \u201cpara onde vamos?\u201d, \u201cpermaneceremos nas senzalas ou ocupamos os morros que tanto crescem?\u201d, ou seja, a gama de d\u00favidas que norteavam as decis\u00f5es futuras das vidas dessas pessoas era fruto hist\u00f3rico da mesma conjuntura, daquele processo, de sua pr\u00f3pria materialidade, pois aquilo que a sociedade negra do s\u00e9culo XXI pensa e reflete sobre sua identidade e logo, suas particularidades, n\u00e3o reflete de fato aos anseios do per\u00edodo em quest\u00e3o, da escravatura, pois a sociedade \u201ccaucasiana\u201d e escravocrata do s\u00e9culo XVI at\u00e9 o s\u00e9culo XIX cumpriu seu papel: animalizou os tra\u00e7os e caracter\u00edsticas do homem e da mulher negra, demonizou as suas cren\u00e7as, os extinguiu de toda e qualquer opini\u00e3o p\u00fablica que tratasse do ser, da identidade como valor social, da valora\u00e7\u00e3o dos cuidados pessoais, portanto n\u00e3o s\u00f3 os \u201catrasou\u201d para a ascens\u00e3o ao mercado formal de trabalho, ao acesso a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a habita\u00e7\u00e3o digna, a inser\u00e7\u00e3o dentro de nossas universidades e a ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de renome, mas fez com que o entendimento acerca de sua pr\u00f3pria etnia e suas caracter\u00edsticas dentro da beleza humana, algo que trato aqui como o <em>ser negro<\/em><strong>, <\/strong>fosse um objeto de estudo social de nossa contemporaneidade.<\/p>\n<p>Atento as condi\u00e7\u00f5es e problemas daquela \u00e9poca pois esses problemas eram de fato distintos. Mesmo que haja um consenso entre n\u00f3s historiadores que a problem\u00e1tica socioecon\u00f4mica dos negros e negras n\u00e3o tenha progredido para um est\u00e1gio de devida <em>tranquilidade financeira<\/em> podemos observar que sim, aqueles que pertencem a ascend\u00eancia dos povos que aqui foram escravizados\u00a0 buscam hoje\u00a0 entender-se como pessoas negras &#8211; por mais que esse entendimento passe pelo \u201cfiltro\u201d da opini\u00e3o branca, em outras palavras, pelo racismo.<\/p>\n<h4><strong>Da animaliza\u00e7\u00e3o a s\u00e1tira dos tra\u00e7os<\/strong><\/h4>\n<p>Quando mais jovem sempre me auto questionava: porque tenho os fios\u00a0 cacheados e n\u00e3o lisos como os\u00a0 dos outros colegas? Certa vez at\u00e9 tentei alisar\u00a0 escondido de meus pais, \u201czerava\u201d o meu cabelo sempre que podia, alguns anos depois me vi de barba, a compara\u00e7\u00e3o de minha barba com o<em> bombril<\/em>, a palha de a\u00e7o que tanto ficou conhecida pelas \u00a0suas mil e uma utilidades ( inclusive, infelizmente, tamb\u00e9m por associa\u00e7\u00f5es racistas) se alastrou rapidamente por minha sala. A juventude dos negros no Brasil se d\u00e1 pela nega\u00e7\u00e3o de seus tra\u00e7os, fora a pr\u00f3pria complexidade das fases de nossas vidas, como por exemplo a adolesc\u00eancia junto da puberdade e suas quest\u00f5es biol\u00f3gicas, lidamos com o n\u00e3o entendimento de nossa identidade como seres humanos. Engana-se quem acredita que apenas o estado brasileiro deve algo para o povo negro; uma indeniza\u00e7\u00e3o devido aos 388 anos de escravatura por exemplo, h\u00e1 uma d\u00edvida de car\u00e1ter social pelos feitos da sociedade durante esses s\u00e9culos, pela constru\u00e7\u00e3o do <em>ide\u00e1rio racista<\/em>.<\/p>\n<p>A animaliza\u00e7\u00e3o foi o primeiro processo, quando os negros e negras eram vistos ambiguamente como <em>mercadoria<\/em> e como um <em>animal<\/em>. Insiro o termo animaliza\u00e7\u00e3o para justamente caracterizar a viol\u00eancia da \u00e9poca e seu entorno, pois para que haja a viol\u00eancia de outro ser como se deu durante a escravatura primeiramente voc\u00ea o animaliza, ou seja, descarta seu car\u00e1ter humano e o atomiza a condi\u00e7\u00e3o de um animal, depois imp\u00f5e a viol\u00eancia de fato.<\/p>\n<p>Bem a frente veremos a <em>s\u00e1tira dos tra\u00e7os <\/em>como um elemento moderno de descaracteriza\u00e7\u00e3o de nossa identidade. O homem negro ser\u00e1 retratado pelas novelas, tramas e com\u00e9dias\u00a0 como um b\u00eabado, descompromissado, cheio de \u201cvergonhas econ\u00f4micas\u201d , distante de qualquer intelectualidade, quando n\u00e3o mero s\u00edmbolo sexual. A\u00a0 mulher sempre nas cozinhas,\u00a0 hipersexualizada ou como uma mera faxineira, distante dos pap\u00e9is principais. Reflitam: o que a juventude negra pensava ao assistir isso tudo? Melhor, por uma \u00f3tica anal\u00edtica, como isso reflete para a busca atual do <em>ser negro<\/em>?<\/p>\n<p>Leiam, como diria Jorge Ben Jor:<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Negro \u00e9 lindo!<\/strong> <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Por\u00e9m, devido a tais processos hist\u00f3ricos, n\u00f3s, negros e negras desse pa\u00eds, demoramos muito tempo para notarmos nossa beleza, para aceitarmos nossos tra\u00e7os. Nos descobrimos como negros atrav\u00e9s dos primeiros racismos. O negro descobre sua etnia atrav\u00e9s do racismo, seja ele velado ou n\u00e3o. Depois, devido a um longo per\u00edodo de reflex\u00f5es por aquilo que as pessoas n\u00e3o-racistas nos dizem de forma espont\u00e2nea, pelos afetos, amores, amizades e rela\u00e7\u00f5es familiares nos vemos dignos de sermos considerados belos. Nos vemos como pessoas belas atrav\u00e9s daquilo que \u00e9 dito pelos outros, e por aquilo que \u00e9 associado por n\u00f3s mesmos, digo por mim, anteriormente ao momento em que algu\u00e9m me classificou positivamente em rela\u00e7\u00e3o <em>a beleza<\/em> no m\u00e1ximo me via como algu\u00e9m esfor\u00e7ado para as \u00e1reas art\u00edsticas e humanas, logo me associava aos estudos, n\u00e3o a beleza. Se esse momento n\u00e3o tivesse acontecido n\u00e3o teria refletido sobre, e posteriormente seguiria negativo perante minha autoestima.<\/p>\n<p><em>Malcom X <\/em>certa vez em um de seus incr\u00edveis discursos, disse:<\/p>\n<blockquote><p><em>Quem te ensinou a odiar a textura de seu cabelo?<\/em><\/p>\n<p><em>Quem te ensinou a odiar a cor de sua pele?<\/em><\/p>\n<p><em>Quem te ensinou a odiar o formato de seu nariz? O formato de seus l\u00e1bios?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Pondero por outra reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean Paul Sartre:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cN\u00e3o importa o que fizeram de mim, o que importa \u00e9 o que eu fa\u00e7o com que fizeram de mim\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E caso o pensamento cr\u00edtico se der como uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para\u00a0 que os negros e negras entendam aquilo que fizeram conosco, com a negatividade de nossa identidade, ent\u00e3o sejamos altamente cr\u00edticos da cr\u00edtica cr\u00edtica &#8211; para n\u00e3o dizer que\u00a0 n\u00e3o citei Marx.<\/p>\n<p><strong>* Renan Freire \u00e9 m\u00fasico e estudante de hist\u00f3ria na Universidade Estadual do Norte do Paran\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal, quando n\u00f3s negros e negras do Brasil nos deparamos com nossa etnia de fato? 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