{"id":2680,"date":"2024-10-06T10:58:24","date_gmt":"2024-10-06T13:58:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2680"},"modified":"2024-10-06T10:58:24","modified_gmt":"2024-10-06T13:58:24","slug":"soja-e-gado-se-criam-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2680","title":{"rendered":"Soja e gado se criam no deserto?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2183 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-300x165.jpeg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-1024x562.jpeg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511-768x422.jpeg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/WhatsApp-Image-2023-10-17-at-16.32.511.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Um dos cart\u00f5es postais brasileiros mais famosos e motivos de atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica internacional \u00e9 o Pantanal. Muitos estrangeiros vinham at\u00e9 o pa\u00eds para visitar esse ambiente \u00fanico no mundo em toda a sua pot\u00eancia natural. N\u00e3o sei ao certo se algu\u00e9m se aventura ainda a vir de fora para se deparar com esse ambiente em cinzas.<\/p>\n<p>O Pantanal \u00e9 considerado \u2013 ou talvez dentro em pouco n\u00e3o mais \u2013 um dos patrim\u00f4nios naturais da humanidade, justamente por reunir em uma s\u00f3 regi\u00e3o aspectos da vegeta\u00e7\u00e3o, rios, fauna\u00a0 \u00fanicas no planeta, al\u00e9m da beleza indescrit\u00edvel. Acontece que um grupo de \u201cfazendeiros\u201d (coloco entre aspas porque na minha concep\u00e7\u00e3o a denomina\u00e7\u00e3o fazendeiro envolve conceitos muito diferentes dos que est\u00e3o relacionados a esses verdadeiros genocidas ambientais) tem como meta devastar todo o bioma para colocar soja e gado na cobertura terrestre, onde ainda resta alguma vegeta\u00e7\u00e3o exuberante.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 materno era fazendeiro. Naquela parte do Estado de Minas Gerais, onde o Cerrado era ainda um dos grande biomas brasileiros, em todo o seu esplendor, o chamado fazendeiro fazia parte de uma categoria social que somente assim era chamado por possuir alguma terra com dimens\u00e3o acima do \u201cs\u00edtio\u201d. N\u00e3o andava de camionete de tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas, mas a cavalo. Nem sabia dirigir. Quando precisava ir \u00e0 cidade, pegava uma \u201cjardineira\u201d que levava horas em um trajeto que hoje pode ser feito em minutos. No Cruzeiro edificado na parte mais alta da terra, rezavam e faziam novenas para que ningu\u00e9m adoecesse e preisasse de atendimento m\u00e9dico com urg\u00eancia e para o tempo ser generoso com a planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 e seu irm\u00e3o possu\u00edam terras no Tri\u00e2ngulo Mineiro e de acordo com os relatos da minha m\u00e3e e seus irm\u00e3os, que viveram ali at\u00e9 terminarem o ensino b\u00e1sico, a vida era bem modesta. A casa era muito simples, de madeira e terra batida, minha av\u00f3 cozinhava no fog\u00e3o a lenha, al\u00e9m de fazer praticamente sozinha todas as tarefas consideradas do quintal: cuidar da horta, das galinhas, do pomar, preparar as carnes dos animais que eram abatidos e tratar de defum\u00e1-las acima do fog\u00e3o, cozinhar, fazer doces, queijos, quitandas (como s\u00e3o chamados, naquela regi\u00e3o, os p\u00e3es, roscas, biscoitos, bolos, no seu conjunto), lavar roupa, cuidar da casa e de sete crian\u00e7as. Meu av\u00f4, por sua vez, cuidava dos animais de maior porte, das ro\u00e7as de arroz, milho, feij\u00e3o, mandioca e caf\u00e9, e, no mais perfeito estilo campon\u00eas, guardava parte da colheita para a subsist\u00eancia da fam\u00edlia e outra era destinada ao mercado. O mesmo para o gado. Era uma vida dura. Uma vida simples e baseada no trabalho. Ensinou os filhos a n\u00e3o almejarem jamais aquilo que era do outro e que o que tinham era o suficiente para a fam\u00edlia. O maior luxo da fazenda foi uma escola que fez construir nas suas terras \u2013 um c\u00f4modo apenas \u2013 e trazer um professor para ensinar da primeira \u00e0 quarta s\u00e9rie, a garotada da fam\u00edlia e dos trabalhadores vizinhos. Embora nenhum dos dois, av\u00f4 e av\u00f3, tivessem tido a oportunidade de estudar, consideravam os estudos muito importantes e formaram todos os filhos. E os filhos ensinaram aos filhos \u2013 e aqui me identifico \u2013 a cuidar das \u00e1rvores, das plantas e dos rios, a respeitarem o ciclo da natureza, pois \u00e9 dela que vem o que nos alimenta. Vem o arroz, o feij\u00e3o, o milho, a mandioca, as verduras, as frutas. Algu\u00e9m pensou na produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar? Pois \u00e9, meu av\u00f4 fazendeiro estava mais para um agricultor familiar produtor de comida do que para um fazendeir\u00e3o frequentador de leil\u00f5es. Nunca lhe perguntei, mas tenho comigo que se tivesse perguntado na minha inoc\u00eancia de dez anos, se ele desmataria a parte nativa da sua terra para plantar soja, que seria exportada para virar ra\u00e7\u00e3o, ele provavelmente ficaria horrorizado. Homem r\u00fastico do Cerrado, criado em meio \u00e0s \u00e1rvoes tortuosas daquele ambiente ainda hostil naquela \u00e9poca, preservava a sabedoria dos que t\u00eam que conviver de forma harm\u00f4nica com o seu meio, pois qualquer mudan\u00e7a provocada pelo ser humano poderia significar uma altera\u00e7\u00e3o no ciclo das chuvas, que desbalancearia a \u00e9poca da colheta, podeira aumentar a estiagem e secar os p\u00e9s de milho antes dos gr\u00e3os ficarem granados. Muito provavelmente jamais imaginaria aquelas terras suas e do tio Zeca, seu irm\u00e3o, pelada, sem a mata de Cerrado com seus p\u00e9s de gabiroba, de pequi (Deus me livre daqueles espinhos!), jatob\u00e1 e os muitos bichinhos que ali habitavam: paca, tatu, on\u00e7a pintada, lobo guar\u00e1 e \u2013 terror dos terrores, as cobras. Era uma vida dura, era simples, mas era s\u00e1bia. Felizmente cresci na presen\u00e7a desse ambiente, quando visitava meus av\u00f3s, e enquanto o carro atravessava o Cerrado pelas estradas esburacadas, observava aquelas \u00e1rvores tortuosas, de baixa estatura, de tronco retorcido e folhas \u00e1speras a perder de vista. Primeiro vieram as lavouras de arroz, depois as planta\u00e7\u00f5es de cana para alimentar a usina de \u00e1lcool, e l\u00e1 se iam as \u00e1rvores, caindo uma ap\u00f3s a outra, at\u00e9 que a paisagem mudou completamente. Fui criada familiarizada com o Cerrado, dando valor \u00e0quela regi\u00e3o que alguns hoje acham que \u00e9 uma cobertura vegetal qualquer, \u00e0 espera da devasta\u00e7\u00e3o para dar lugar \u00e0 planta\u00e7\u00e3o de soja e do caf\u00e9 grifado <em>Caf\u00e9 do Cerrado<\/em>.<\/p>\n<p>Hoje presencio as manchetes escancarando not\u00edcias sobre um \u201cfazendeiro\u201d, que pode contratar um avi\u00e3o, sobrevoar centenas e centenas de hect\u00e1res do Pantanal e pulverizar um produto qu\u00edmico semelhante ao Napalm que foi jogado sobre o Vietn\u00e3 durante a Segunda Guerra e devastar tudo l\u00e1 embaixo, plantas, bichos, rios. Simples assim. Porque tomar posse de algo t\u00e3o grandioso que n\u00e3o lhe pertence significa fazer a coisa completa, n\u00e3o deixar testemunha de pelo, de pena, de couro. Transformar o que era naquilo que j\u00e1 n\u00e3o se assemelha. Assim, sem testemunha de vida, parece que ningu\u00e9m vai notar. Dar falta do que j\u00e1 n\u00e3o existe?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>T\u00eam nome e sobrenome<\/em><\/p>\n<p>Bicho n\u00e3o fala, n\u00e3o denuncia, morre em sil\u00eancio na sua dor e na sua surpresa, no seu desentendimento: por qu\u00ea?? Mas se homem devasta, outro testemunha e registra, porque em tempos de negacionismo, palavra muito em voga, tem que haver registro de imagem para que creiam, sim, o Pantanal, o Cerrado, a Amaz\u00f4nia est\u00e3o ardendo e desaparecendo, e alguns registram em nome da natureza silenciosa o sofrimento e a mortandade pelo fogo. Registram tamb\u00e9m para mostrar aos netos, bisnetos \u2013 n\u00e3o sei se haver\u00e1 tataranetos \u2013 desses \u201cfazendeiros\u201d o que seus antepassados lhes legaram.<\/p>\n<p>Voltando ao meu av\u00f4, ele era de um tempo em que nem tanto valor assim tinha uma assinatura no papel, mesmo porque naqueles confins l\u00e1 pelos lados de Cachoeira Dourada, eram poucos os que podiam botar seu nome por escrito em algum documento. E a\u00ed entrava o valor da palavra: ai daquele que descumprisse uma palavra dada, uma promessa feita! Ou mesmo ver seu nome envolvido com coisas da lei, por ter praticado coisa suja, coisa feia! O seu nome estaria jogado para sempre no lodo\u00e7al do mangueir\u00e3o dos porcos. Vergonha suprema! Tempos outros, aquele, em que ter o nome estampado para todos verem \u2013 nos jornais, no r\u00e1dio, em bocas de Candinha, poderia significar a morte. Tempos outros, esse, em que um \u201cfazendeiro\u201d, com nome e sobrenome para todos na m\u00eddia saberem, atira de avi\u00e3o desfolhantes qu\u00edmicos, assassinando tudo abaixo; em que \u201cfazendeiros\u201d, combinados por um grupo de whatsapp, marcam de incendiar milhares de hect\u00e1res de floresta amaz\u00f4nica, no chamado Dia do Fogo; \u201cfazendeiros\u201d esses que, em nome da terra \u00e1rida que deixar\u00e3o para seus netos, devastam o patrim\u00f4nio que hoje \u00e9 de todos n\u00f3s. S\u00e3o esses \u201cfazendeiros\u201d, que s\u00e3o p\u00fablicos o nome, sobrenome e endere\u00e7o, que se abrigam tranquilamente sob um Direito permissivo, que \u00e9 incapaz de lhes imputar uma pena que seja. Embora muitos desses sejam bastante conhecidos e estejam cobertos de multas ambientais milion\u00e1rias, passeiam tranquilamente pelos corredores do poder aproveitando a sua invencibilidade e confiantes que conseguir\u00e3o cultivar soja e criar gado no deserto.<\/p>\n<p><strong>* Andr\u00e9ia Terzariol Couto \u00e9 p\u00f3s-doutora pela ECA-USP<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos cart\u00f5es postais brasileiros mais famosos e motivos de atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica internacional \u00e9 o Pantanal. Muitos estrangeiros vinham at\u00e9 o pa\u00eds para visitar esse ambiente \u00fanico no mundo em toda a sua pot\u00eancia natural. 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