{"id":2772,"date":"2025-01-05T07:30:08","date_gmt":"2025-01-05T10:30:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2772"},"modified":"2025-01-05T08:42:15","modified_gmt":"2025-01-05T11:42:15","slug":"a-construcao-historica-de-idearios-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2772","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de ide\u00e1rios brasileiros"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2646 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/WhatsApp-Image-2024-09-07-at-06.50.21-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/WhatsApp-Image-2024-09-07-at-06.50.21-300x300.jpeg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/WhatsApp-Image-2024-09-07-at-06.50.21-150x150.jpeg 150w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/WhatsApp-Image-2024-09-07-at-06.50.21.jpeg 449w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A linguagem \u00e9 um fator social, e a propaganda tamb\u00e9m. A sociedade produz formas de intera\u00e7\u00e3o, e essas mesmas intera\u00e7\u00f5es s\u00e3o frutos hist\u00f3ricos que foram disseminados atrav\u00e9s de s\u00e9culos de constru\u00e7\u00f5es psico-sociais. A maneira como o outro interpreta aquilo que falo, a ideia que propago, as nuances de meu discurso, s\u00e3o captadas pela \u00f3tica de conhecimento intr\u00ednseca ao conte\u00fado em que a mesma foi educada, ou seja, como dir\u00e1 Wittgenstein &#8211; fil\u00f3sofo da linguagem &#8211; <em>\u201cos limites de minha linguagem s\u00e3o o limite do meu mundo\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A vinda da fam\u00edlia real no ano de 1808 trouxe consigo v\u00e1rios aparatos, um deles a Imprensa R\u00e9gia. Por meio dos textos publicados para a sociedade brasileira da \u00e9poca cria-se uma vis\u00e3o de mundo, um mundo euroc\u00eantrico, o mundo do colonizador vindo de al\u00e9m-mar. As dores do povo ref\u00e9m do processo de coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram publicadas. Sim, haviam ideais populares e materiais, mas essas mesmas n\u00e3o possu\u00edam meio relevante se comparadas a produ\u00e7\u00e3o textual que era movida devido aos ac\u00famulos financeiros da ent\u00e3o coroa portuguesa saqueadora.<\/p>\n<p>Por exemplo, v\u00e1rias foram as propaga\u00e7\u00f5es em meio a ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que auxiliaram para a constru\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio racista da \u00e9poca. Em um per\u00edodo com poucas cr\u00edticas ao que era propagado, an\u00fancios como a compra e venda explicita de negros escravizados nos jornais da \u00e9poca era um fato comum. Portanto criava-se a partir da\u00ed uma <em>normatividade comunicativa<\/em> para os corpos negros vitimas do genoc\u00eddio escravista.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o que trago aqui \u00e9 sobre aquilo que era consumido pelos sujeitos sociais, mas vamos al\u00e9m. Hoje por exemplo ainda vemos um consumo deliberado de assuntos que constituem um ide\u00e1rio, o <em>patriotismo<\/em>. Esse mesmo que fere diariamente os tr\u00eas poderes e que constitui uma constru\u00e7\u00e3o de ideias e cria-se portanto uma ideologia contempor\u00e2nea. Voltemos ao passado, uma ideia que surge dos mecanismos nacionalistas: temos como exemplo o movimento de Pl\u00ednio Salgado durante a d\u00e9cada de 30,\u00a0 o<em> integralismo<\/em>, que se colocou no \u00e2mago do discurso nacional com caracter\u00edsticas fascistas e nacionalistas &#8211; mas acima de tudo &#8211; rebuscando o sentimento das camadas populares, o apelo \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o. Essa propaganda era disseminada em jornais e revistas geridas\u00a0 pelos pr\u00f3prios integralistas.<\/p>\n<p>Para que uma ideia exista \u00e9 necess\u00e1rio que haja consumo, a ideia n\u00e3o deixa de ser um produto, a sociedade consome ideias, e a quest\u00e3o \u00e9: porque as ideias <em>neofascistas<\/em> ainda s\u00e3o t\u00e3o bem difundidas?<\/p>\n<p>Nos atentamos por isso ao poderio de um capital que extrapola sua simples din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o infinita. Aqueles que vivenciam hoje um para\u00edso fiscal e possuem seus bilh\u00f5es podem muito bem auxiliar para que uma propaganda chegue at\u00e9 o povo, mas a pergunta que devemos fazer quanto a esse prop\u00f3sito &#8211; pensando a partir da \u00f3tica dos que atentam hoje contra o campo democr\u00e1tico burgu\u00eas &#8211; \u00e9 : \u201cqual ser\u00e1 o lucro obtido?\u201d, \u201cpropagar uma ideia pr\u00f3-golpe auxilia para que n\u00e3o citem meus crimes fiscais?\u201d, \u201cmeu capital continuar\u00e1 intacto a partir do momento em que fecho com ideias<em> neofascistas<\/em>?\u201d.<\/p>\n<p>O povo talvez n\u00e3o fa\u00e7a essas mesmas perguntas quando consome o conte\u00fado X pela falta de tempo para reflex\u00e3o, mas as elites nacionais quando fecham com o <em>candidato<\/em> X pois o mesmo lhe garantir\u00e1 paz sobre tais assuntos, esses sabem muito bem de seus interesses.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a sua classe? Vamos, diga!<\/p>\n<p>Uso aqui da frase de Paulo Autran expressa no filme \u201cTerra em transe\u201d (1967) de Glauber Rocha, para indaga-los:<\/p>\n<blockquote><p><em>Qual \u00e9 a sua classe? Caso deixe de trabalhar hoje, por quantos dias, meses ou anos sobreviveria? <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Se a resposta n\u00e3o lhe traz um horizonte de tranquilidade, parab\u00e9ns, voc\u00ea pertence a classe social daqueles que trabalham, logo, a classe trabalhadora, que quase nada acumula mas sem sombra de d\u00favidas tudo produz &#8211; inclusive cultura e educa\u00e7\u00e3o &#8211; para n\u00e3o dizer que n\u00e3o referencio os professores e artistas que est\u00e3o a ler esse texto.<\/p>\n<p>Notem, as l\u00e1stimas de um modelo econ\u00f4mico n\u00e3o apenas se fundam na escassez para uns e no ac\u00famulo para outros, mas \u00e9 evidente que aquilo que \u00e9 propagado para as camadas mais pobres \u00e9 fruto de um ide\u00e1rio que vem de cima para baixo, que joga o <em>lixo<\/em> da produ\u00e7\u00e3o fascista para aqueles ou aquelas que n\u00e3o possuem a linguagem necess\u00e1ria para a sua pr\u00f3pria defesa, para aqueles que n\u00e3o tiveram acesso ao pensamento cr\u00edtico. Se uma pessoa pobre envereda para a extrema direita hoje \u00e9 porque o Estado aburguesado n\u00e3o chegou at\u00e9 ela, n\u00e3o cumpriu sua obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O discurso feito pelo mundo do mercado das palestras &#8211; e atravessado pela mentalidade empresarial atual &#8211; leva os trabalhadores brasileiros a crerem que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos dos bilion\u00e1rios do que de sua pr\u00f3pria classe origin\u00e1ria. Vendem a ideia da ascens\u00e3o f\u00e1cil, do ac\u00famulo a partir do zero, usam de exce\u00e7\u00f5es para determinarem regras, criam f\u00f3rmulas,\u00a0 comercializam cursos, publicam livros,\u00a0 discursam para multid\u00f5es e em alguns casos espec\u00edficos disputam as corridas eleitorais das grandes capitais.<\/p>\n<p>O conflito entre as classes sociais brasileiras \u00e9 um campo amplo e hist\u00f3rico de disputas ideol\u00f3gicas. Tomemos como exemplo as publica\u00e7\u00f5es textuais do movimento comunista brasileiro em seus jornais partid\u00e1rios iniciais. Peri\u00f3dicos como <em>\u201cVoz oper\u00e1ria\u201d<\/em>, <em>\u201cTerra livre\u201d<\/em>,<em> \u201cA classe oper\u00e1ria\u201d<\/em>; jornais esses que desde suas funda\u00e7\u00f5es foram amplamente perseguidos, proibidos e hostilizados para dizer pouco. O jornalismo independente nos demonstra como um ve\u00edculo comunicativo pode se por ao mundo, se auto apresentar como ve\u00edculo de resist\u00eancia, de criticidade, de n\u00e3o influ\u00eancia direta dos capitais que manipulam e distorcem as realidades sociais conforme a sua pr\u00f3pria \u00f3tica.<\/p>\n<p>Mas afinal o que gira em torno do mundo das classes mais pobres? Iniciei essa an\u00e1lise citando Wittgenstein &#8211; a quem carrego grande admira\u00e7\u00e3o te\u00f3rica &#8211; pois atrav\u00e9s da linguagem, daquilo que \u00e9 expressado, falado, cantado, assistido vemos as influ\u00eancias contempor\u00e2neas em contraponto a viv\u00eancia di\u00e1ria de uma classe. Se um trabalhador hoje tem uma opini\u00e3o formalizada que vai contra a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia como trabalhador \u00e9 porque uma lacuna estava aberta, haviam d\u00favidas que n\u00e3o tinham sido preenchidas, e de alguma forma foram respondidas atrav\u00e9s das ideologias vigentes,\u00a0 atrav\u00e9s da propaga\u00e7\u00e3o daqueles que tanto tem.<\/p>\n<p><em><strong>* Renan Freire \u00e9 m\u00fasico e graduando em Hist\u00f3ria na Universidade Estadual do Norte do Paran\u00e1.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A linguagem \u00e9 um fator social, e a propaganda tamb\u00e9m. 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