{"id":2774,"date":"2024-11-04T13:02:14","date_gmt":"2024-11-04T16:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2774"},"modified":"2024-12-26T13:06:59","modified_gmt":"2024-12-26T16:06:59","slug":"o-longo-trajeto-do-colegio-eleitoral-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2774","title":{"rendered":"O longo trajeto do col\u00e9gio eleitoral nos EUA"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1865 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL-300x164.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/DANIEL.jpg 303w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><em>Na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira, dia 5, termina a vota\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia dos Estados Unidos e se inicia uma longa e aflitiva contagem de c\u00e9dulas<\/em><\/p>\n<p>O mandato de Joe Biden chega ao fim em 20 de janeiro e o mundo volta a estar atento para saber quem estar\u00e1 a mando do Sal\u00e3o Oval da Casa Branca, em Washington. H\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que os Estados Unidos s\u00e3o na pr\u00e1tica um sistema bipartid\u00e1rio, ainda que n\u00e3o oficialmente. Uma delas \u00e9 a atual vice-presidente, a democrata Kamala Harris, a outra \u00e9 o ex-presidente republicano derrotado pelo <em>cansado<\/em> Biden, Donald Trump.<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/quando-sai-o-resultado-nos-eua-disputa-acirrada-e-sistema-fragmentado-prolongam-indefinicao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Todos os jornais recordam que a elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 marcada para 5 de novembro, mas, na realidade, ela j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo. S\u00f3 termina neste dia.<\/a><\/p>\n<p>Diferentemente do caso brasileiro, as elei\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam um dia de domingo como o grande dia de vota\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tampouco utilizam urnas eletr\u00f4nicas, como ocorre no Brasil desde 1996 \u2013 ao menos, n\u00e3o as usam para a maioria dos votos, j\u00e1 que cerca de 70% dos locais de vota\u00e7\u00e3o s\u00f3 contam com c\u00e9dulas de papel. Salvo o fato de que at\u00e9 ter\u00e7a-feira todas as pessoas j\u00e1 dever\u00e3o ter enviado o seu voto, poucas outras regras das elei\u00e7\u00f5es estadunidenses se aplicam a todos os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Isso se d\u00e1 porque os Estados Unidos da Am\u00e9rica, como o nome do pa\u00eds indica, s\u00e3o uma federa\u00e7\u00e3o de <em>estados, unidos<\/em> sob uma \u00fanica bandeira. Essa federa\u00e7\u00e3o se fundou com base na Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, um documento de 1787, uma das mais antigas do mundo ainda em vig\u00eancia, nessa t\u00e3o longeva rep\u00fablica, nunca interrompida por um sistema ditatorial desde a sua funda\u00e7\u00e3o. Esse documento cont\u00e9m sete artigos e 26 emendas, tendo na sua hist\u00f3ria rejeitado seis outras emendas.<\/p>\n<p>No primeiro artigo deste pergaminho original da forma\u00e7\u00e3o da superpot\u00eancia global, se versa sobre as regras para eleger os deputados e senadores. No segundo artigo, se estabelece o conhecido col\u00e9gio eleitoral, alterado pela 22\u00aa emenda, de 1951, que criou a nova regra que impede mais de dois mandatos seguidos do mesmo presidente.<\/p>\n<p>Inicialmente esse modelo ditava que o n\u00famero de delegados, as pessoas que efetivamente <em>votam<\/em> nas <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/o-retorno-do-trabalhador-a-cena-politica-norte-americana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">elei\u00e7\u00f5es dos Estados Unido<\/a>s, \u00e9 determinado pelo n\u00famero total de senadores e deputados que cada estado tem no Congresso, o que por sua vez \u00e9 determinado por sua popula\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio, n\u00e3o se versava sobre como esses delegados eram escolhidos, apenas que isso era responsabilidade dos pr\u00f3prios estados. Atualmente, todos os estados contam com vota\u00e7\u00f5es abertas para a escolha dos delegados. Contudo, existem particularidades que se mant\u00eam devido aos ditos \u201cdireitos dos Estados\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 por isso que na pr\u00e1tica o presidente dos Estados Unidos ganha o mandato ao conseguir o voto de no m\u00ednimo de 270 delegados, um voto a mais do que a metade do total de delegados (538).<\/p>\n<p><strong>Uma pessoa, um voto?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 de se recordar que, no momento em que os Estados Unidos instauravam o seu sistema eleitoral, as comunica\u00e7\u00f5es eram feitas com a velocidade que um cavalo ou um navio simples permitiam. Os motores a vapor j\u00e1 existiam, mas ainda n\u00e3o estavam em todos os lugares. Ainda assim, no melhor dos cen\u00e1rios, levaria dias para que se comunicasse a Nova York os votos do estado da Ge\u00f3rgia, o mais distante da provis\u00f3ria capital.<\/p>\n<p>A ideia de ter delegados que fossem at\u00e9 a capital votar em nome da popula\u00e7\u00e3o local foi uma sa\u00edda l\u00f3gica em um cen\u00e1rio como esse. Outra lembran\u00e7a importante \u00e9 que a funda\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos se deu durante uma guerra contra o controle colonial ingl\u00eas, momento em que ao mesmo tempo as rec\u00e9m-fundadas tropas do pa\u00eds come\u00e7avam a se expandir, inclusive ao oeste.<\/p>\n<p>Esse modelo de vota\u00e7\u00e3o era o mais moderno que se poderia criar em um pa\u00eds que n\u00e3o tinha nem certeza de onde seria a sua capital. Nova York foi capital por apenas um ano, tendo o governo posteriormente residido na Filad\u00e9lfia, no estado da Pensilv\u00e2nia. Ao olharmos para o mapa vemos o qu\u00e3o mais centralizada estava essa capital em rela\u00e7\u00e3o aos treze estados iniciais. Em 1971, o pa\u00eds anunciou a jun\u00e7\u00e3o de mais tr\u00eas estados \u00e0quela federa\u00e7\u00e3o, Vermont, Kentucky e Tennessee. Seria s\u00f3 em 1800 que Washington terminaria de ser constru\u00edda e se tornaria a capital do pa\u00eds, enquanto a expans\u00e3o para o oeste seguia a todo o vapor \u2013 literalmente, porque surgiam os trens a vapor que cortavam aqueles territ\u00f3rios <em>virgens<\/em>, onde <em>s\u00f3<\/em> viviam os nativo-americanos. Em 1850, o pa\u00eds j\u00e1 tinha 31 estados federados. Ainda no s\u00e9culo XIX, tentou-se fazer emendas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o para reformar o modelo de vota\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vingaram.<\/p>\n<p>Em 1814 e 1820, foram feitas tentativas para for\u00e7ar os estados a dividirem seus delegados por distritos, em vez de todos serem escolhidos de forma completamente estatal. A proposta foi rejeitada. J\u00e1 em 1950, um senador republicano se juntou a um deputado democrata para tentar substituir os delegados por uma contagem direta do col\u00e9gio dos votos populares de cada estado. A proposta tamb\u00e9m foi rejeitada.<\/p>\n<p>Em 1956, o ent\u00e3o senador e posterior vice-presidente democrata, Hubert Humphrey, tentou negociar com os estados para chegar a uma esp\u00e9cie de <em>meio termo<\/em>. Era uma proposta bem t\u00edmida para reconhecer o voto popular no pa\u00eds: dois delegados de cada estado deveriam ser escolhidos de acordo com a propor\u00e7\u00e3o do voto popular para democratas e republicanos. Os demais delegados seguiriam sendo escolhidos de acordo com as regras de cada estado, e os estados preservariam a proporcionalidade entre o seu n\u00famero de delegados e a sua popula\u00e7\u00e3o \u2013 naquele momento, a Calif\u00f3rnia, por exemplo, era o estado com mais delegados, com quarenta. Mesmo assim, a proposta foi recha\u00e7ada, os estados n\u00e3o pareciam interessados em renunciar ao direito do col\u00e9gio eleitoral, a base da democracia dessa federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estado de Delaware, em 1966, tentou recorrer \u00e0 Suprema Corte contra o modelo \u201co vencedor leva tudo\u201d para a escolha de delegados no pa\u00eds. Salvo o estado do Maine, todos os outros escolhiam seus delegados da seguinte maneira: o mais votado leva <em>todos<\/em> os delegados que v\u00e3o a Washington votar no col\u00e9gio eleitoral. Delaware argumentava que este modelo exclu\u00eda os votos minorit\u00e1rios a n\u00edvel estatal e, assim, for\u00e7ava as campanhas a pensarem somente em estados onde era poss\u00edvel vencer como maioria. A Corte n\u00e3o levou o processo adiante, afinal, quem decidia sobre como deveriam ser feitas as elei\u00e7\u00f5es eram os estados, isso era um <em>direito<\/em> deles. Desde ent\u00e3o, somente mais um estado da federa\u00e7\u00e3o optou por dividir seus delegados proporcionalmente, Nebraska.<\/p>\n<p>Em 1968, durante o auge dos protestos estudantis e do movimento contr\u00e1rio \u00e0 guerra do Vietn\u00e3, o republicano Richard Nixon venceu as elei\u00e7\u00f5es com 301 votos no col\u00e9gio, contra 191 do democrata Humphrey e 46 do candidato independente, o dissidente democrata George Wallace, que tinha sua campanha baseada no movimento pr\u00f3-segrega\u00e7\u00e3o racial. Nesse mesmo ano, a confer\u00eancia democrata que escolhera Humphrey foi marcada por muitas pol\u00eamicas, especialmente porque se alegava que os democratas estavam ignorando o voto popular dos seus filiados nas prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1960 j\u00e1 era um momento de especial viol\u00eancia pol\u00edtica nos Estados Unidos. O ent\u00e3o presidente John F. Kennedy foi assassinado em Dallas em 22 de novembro de 1963. Em 1968, em 6 de junho, o seu irm\u00e3o mais novo, Robert F. Kennedy, foi morto em Los Angeles quando j\u00e1 tinha em seu nome 393 delegados para as prim\u00e1rias do partido democrata. Diante daquela trag\u00e9dia, o partido manteve sua conven\u00e7\u00e3o e Humphrey venceu com larga vantagem.<\/p>\n<p>Acontece que no momento da morte de Robert Kennedy, ele e o senador de Minnesota, Eugene McCarthy, tinham juntos 651 delegados para a conven\u00e7\u00e3o, ambos defendendo o fim da guerra no Vietn\u00e3 (McCarthy sozinho tinha 258 delegados). Humphrey j\u00e1 tinha 561 delegados garantidos. Ele era vice-presidente de Lyndon B. Johnson, que naquele momento sofria enormes press\u00f5es por n\u00e3o ter posto fim \u00e0 guerra iniciada pelo republicano Dwight Eisenhower, em 1955. Pode-se avaliar que o erro dos candidatos contr\u00e1rios \u00e0 guerra foi n\u00e3o terem se juntado em uma \u00fanica chapa contra Humphrey. Contudo, como a l\u00f3gica do \u201cvencedor leva tudo\u201d era usada at\u00e9 nas prim\u00e1rias, havia algo mais a se considerar: McCarthy tinha 38,7% do voto popular (2.914.933 votos), Robert Kennedy, 30,6% (2.304.542 votos), e Humphrey, 2,2% (166.463 votos). Para coroar esse magistral estelionato eleitoral perpetrado pelos democratas, a conven\u00e7\u00e3o que escolheu Humphrey foi marcada por uma enorme viol\u00eancia policial contra jovens que protestavam contra a guerra.<\/p>\n<p>Humphrey, como dito, perdeu aquela elei\u00e7\u00e3o para Nixon por uma diferen\u00e7a de 191 delegados. No voto popular, perdeu por menos de 1% dos votos (511.944). Na conven\u00e7\u00e3o republicana que escolheu Nixon como candidato, ironicamente o mais votado pelo voto popular foi o seu maior rival, o ent\u00e3o governador da Calif\u00f3rnia e futuro presidente do pa\u00eds, Ronald Reagan. Por\u00e9m, aquela vit\u00f3ria de Reagan foi por apenas 17.189 votos. Ainda assim, a vit\u00f3ria no voto popular lhe rendeu apenas o terceiro lugar na conven\u00e7\u00e3o republicana. Ele s\u00f3 angariou 182 delegados, enquanto o segundo colocado, Nelson Rockefeller, chegou a 277 e Nixon a 692. Rockefeller ganhou apenas 3,67% do voto popular (164.340 votos).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa tumultuada elei\u00e7\u00e3o que elegeu um especialmente controverso republicano para a Casa Branca, os democratas iniciaram um processo para abolir o col\u00e9gio eleitoral, alegando que ele distorcia a vontade popular. Ap\u00f3s dois anos de delibera\u00e7\u00f5es e algumas vit\u00f3rias pol\u00edticas, chegaram a ter apoio verbal at\u00e9 de Nixon, que dizia que era mesmo a hora de acabar com o col\u00e9gio. Contudo, no final faltaram alguns votos republicanos para o projeto avan\u00e7ar. Quando a proposta voltou para o plen\u00e1rio da Casa, sofreu o conhecido processo de <em>filibuster<\/em> \u2013 prolongar o debate at\u00e9 que se desista de votar o assunto. Posteriormente, foi revelado que pol\u00edticos conservadores, dos dois partidos, queriam manter o col\u00e9gio eleitoral porque assim tamb\u00e9m mantinham a influ\u00eancia pol\u00edtica dos estados sobre a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, foram feitas outras propostas para mudar o sistema, majoritariamente por democratas, todas derrotadas ou que sofreram o <em>filibuster<\/em>, incluindo uma tentativa do presidente democrata Jimmy Carter.<\/p>\n<p><strong>Direitos para todos, exceto para o povo eleger diretamente o presidente<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo mais recente, cr\u00edticas sobre o col\u00e9gio eleitoral partiram desde Trump at\u00e9 de alguns democratas presidenci\u00e1veis.<\/p>\n<p>A primeira cr\u00edtica do atual candidato republicano ao modelo foi em 2012, quando ele foi derrotado nas prim\u00e1rias do partido republicano para o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney. Quando Barack Obama venceu aquela elei\u00e7\u00e3o no col\u00e9gio eleitoral, Trump imediatamente afirmou que Romney vencera no voto popular (o que depois se provou falso), e tuitou que o \u201ccol\u00e9gio eleitoral era uma desgra\u00e7a para a democracia\u201d. Em 2016, uma semana depois de ser declarado vencedor daquelas elei\u00e7\u00f5es contra Hillary Clinton, Trump defendeu que o col\u00e9gio eleitoral era, na verdade, \u201cgenial\u201d, porque \u201ctrazia todos os estados para participar, inclusive os pequenos\u201d.<\/p>\n<p>Em 2020, Pete Buttigieg, prefeito de South Bend (Indiana), despontou como favorito para disputar as prim\u00e1rias democratas contra Bernie Sanders. Naquela situa\u00e7\u00e3o, o jovem democrata reclamou que o sistema de col\u00e9gio eleitoral era datado e que j\u00e1 havia passado da hora dos Estados Unidos assumirem que \u201cuma pessoa, um voto\u201d era o melhor modelo para eleger um presidente. Buttigieg diminuiu o tom das cr\u00edticas ap\u00f3s vencer o primeiro caucus daquela campanha, em Iowa. Ele ganhou os primeiros delegados daquela prim\u00e1ria da forma mais rudimentar que a elei\u00e7\u00e3o estadunidense permite, com eleitores se juntando em igrejas e outros locais p\u00fablicos para disputas de contraste de presen\u00e7a, como ocorre em assembleias estudantis de universidades brasileiras.<\/p>\n<p>Em seguida, Sanders viria a ganhar a primeira elei\u00e7\u00e3o com voto direto daquela prim\u00e1ria democrata, em New Hampshire (embora n\u00e3o tenha levado todos os delegados, porque o estado dividia a vota\u00e7\u00e3o em distritos), fazendo com que aquela elei\u00e7\u00e3o parecesse fadada a ser disputada por um desses dois nomes pouco badalados pelo establishment democrata. Ent\u00e3o, a maioria dos numerosos candidatos daquela prim\u00e1ria, preocupados com a possibilidade do partido escolher um nome <em>jovem demais<\/em> ou <em>radical demais<\/em> contra Trump, foi se juntando ao \u00fanico proponente que parecia unir todos os lados do partido, Joe Biden. A campanha do ex-vice-presidente ganhou impulso somente ap\u00f3s Biden vencer as prim\u00e1rias em estados importantes do sul, majoritariamente conservadores em elei\u00e7\u00f5es gerais. Dos 29 candidatos iniciais daquela grande prim\u00e1ria, Biden conseguiu o apoio de 15 antes mesmo da conven\u00e7\u00e3o do partido. Foi escolhido como candidato, derrotando Sanders, e venceu tanto em n\u00famero de delegados (2695 a 1073) quanto no voto popular (quase 10 milh\u00f5es de votos a mais).<\/p>\n<p>Em 2024, o partido democrata n\u00e3o realizou prim\u00e1rias, j\u00e1 que se contava que Biden disputaria a reelei\u00e7\u00e3o. No entanto, ao apresentar sinais preocupantes de que seria derrotado por Trump, a candidatura do presidente foi substitu\u00edda pela de sua vice, Kamala Harris. N\u00e3o acharam necess\u00e1rio que os democratas discutissem quem deveria ser o novo l\u00edder do partido.<\/p>\n<p>No lado republicano, desde que Trump conseguiu sua vit\u00f3ria nas prim\u00e1rias de 2016, quando venceu Ted Cruz com 890 delegados de vantagem e quase o dobro de votos do advers\u00e1rio, seu controle no partido jamais chegou perto de ser efetivamente contestado. Em 2020, por disputar a reelei\u00e7\u00e3o, era o candidato \u00f3bvio. Mesmo depois da derrota contra Biden, Trump voltou a vencer as prim\u00e1rias do partido republicano em 2024, conquistando 54 dos 56 distritos dispon\u00edveis, e derrotando Nikky Haley, ex-governadora da Carolina do Sul, que logo correu para apoi\u00e1-lo. Apesar da acachapante vit\u00f3ria no col\u00e9gio, Trump venceu Haley no voto popular por 76,4% contra 19,7% dos votos.<\/p>\n<p>Apenas em cinco elei\u00e7\u00f5es presidenciais estadunidenses o candidato que perdeu no voto popular foi eleito pelo col\u00e9gio eleitoral, e, com a exce\u00e7\u00e3o do pleito de 1824, anterior \u00e0 funda\u00e7\u00e3o dos partidos Democrata e Republicano, isso sempre favoreceu o candidato republicano. Em 1876 o republicano Rutherford B. Hayes venceu o democrata Samuel J. Tilden dessa forma. Em 1888, Benjamin Harrison, republicano, virou presidente sobre o democrata Grover Cleveland, mesmo perdendo no voto popular. Nessas duas elei\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XIX, o candidato democrata era de Nova York e os republicanos de estados mais rurais, Ohio e Indiana. Os outros dois exemplos s\u00e3o recentes: a vit\u00f3ria de George W. Bush sobre Al Gore em 2000 e a de Trump sobre Hillary Clinton em 2016.<\/p>\n<p>Ainda que essa ferramenta pare\u00e7a necessariamente ajudar os republicanos, o <em>New York Times<\/em> inferiu que a chance de que Trump ven\u00e7a Kamala Harris no voto popular e perca no col\u00e9gio eleitoral \u00e9 bastante real. Se assim for, \u00e9 dif\u00edcil prever qual seria a rea\u00e7\u00e3o do republicano. No entanto, os democratas hoje tampouco parecem animados com a ideia de mudar o modelo de vota\u00e7\u00e3o, porque o establishment do partido acredita ser mais f\u00e1cil garantir as suas escolhas desta forma. O voto popular costuma favorecer candidatos de zonas urbanas das costas leste e oeste do pa\u00eds, ignorando os estados do interior. Fora isso, as elei\u00e7\u00f5es deste ano j\u00e1 est\u00e3o marcadas por diversos processos de interfer\u00eancia, sem contar o famoso <em>gerrymandering<\/em>, h\u00e1bito de desenhar distritos de vota\u00e7\u00e3o de forma a favorecer a manuten\u00e7\u00e3o de seus candidatos, que ambos os partidos realizam.<\/p>\n<p>Nessa longa elei\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m acontece por correio e por outros m\u00e9todos de antecipar o voto, j\u00e1 houve den\u00fancias de urnas eleitorais incendiadas, o que causou a perda de c\u00e9dulas. Tamb\u00e9m houve uma tentativa de Trump de mudar as leis eleitorais de Nebraska, para que o estado n\u00e3o dividisse mais seus delegados por distrito, o que poderia potencialmente lhe dar um delegado a mais numa elei\u00e7\u00e3o que est\u00e1 empatada em todos os aspectos. Tudo isso considerando tamb\u00e9m as cl\u00e1ssicas medidas que governadores, de maioria republicana, realizam para suprimir votos de bols\u00f5es democratas, como dificultar o acesso aos locais de vota\u00e7\u00e3o, restringir os hor\u00e1rios de voto, impedir que se vote sem um documento de identifica\u00e7\u00e3o nacional (e os Estados Unidos n\u00e3o contam com essa documenta\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de passaportes e carteiras de motorista) e tamb\u00e9m retirando para sempre o direito a voto de qualquer pessoa que j\u00e1 foi condenada por um crime, como ocorre no Tennessee.<\/p>\n<p>Para ajudar na tens\u00e3o, a contagem dos votos ser\u00e1 lenta, levando dias, e provavelmente tensionar\u00e1 ainda mais um pa\u00eds que j\u00e1 parece estar no limite da viol\u00eancia pol\u00edtica. O mesmo <em>New York Times<\/em> mostrou como at\u00e9 os fiscais de certifica\u00e7\u00e3o de votos, em alguns casos, est\u00e3o t\u00e3o envenenados pela ideologia que podem atravancar a contagem. Mesmo ap\u00f3s uma defini\u00e7\u00e3o, h\u00e1 risco de que o resultado do pleito n\u00e3o seja aceito, o que pode gerar semanas de tens\u00e3o at\u00e9 o dia da inaugura\u00e7\u00e3o, em janeiro.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds que desenhou um sistema t\u00e3o bem pensado para garantir a democracia quando os votos vinham a galope, h\u00e1 de se perguntar se, em 2024, esse modelo segue servindo ao seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>* <strong>Daniel Azevedo Mu\u00f1oz<\/strong> \u00e9 doutor internacional em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidad Aut\u00f3noma de Madrid, com est\u00e2ncia realizada na Universidade de S\u00e3o Paulo. Dedicado especialmente \u00e0 Hist\u00f3ria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e \u00e0 Hist\u00f3ria da M\u00eddia Internacional. \u00c9 tamb\u00e9m mestre em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela mesma institui\u00e7\u00e3o espanhola e jornalista formado pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Integra o grupo de pesquisa em Jornalismo Popular &amp; Alternativo, da Universidade de S\u00e3o Paulo, e a Rede de Investigadores em Comunica\u00e7\u00e3o Internacional, da Universidade Estadual de Ponta Grossa.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIA:<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/o-longo-trajeto-do-colegio-eleitoral-nos-eua\/<\/p>\n<p><em>Texto reproduzido com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira, dia 5, termina a vota\u00e7\u00e3o para a Presid\u00eancia dos Estados Unidos e se inicia uma longa e aflitiva contagem de c\u00e9dulas O mandato de Joe Biden chega ao fim em 20 de janeiro e o mundo volta a estar atento para saber quem estar\u00e1 a mando do Sal\u00e3o Oval da Casa Branca, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1865,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[305],"tags":[402],"class_list":["post-2774","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusiva","tag-eleicoes-norte-americanas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2774"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2774\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2776,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2774\/revisions\/2776"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}