{"id":2826,"date":"2025-02-19T17:48:09","date_gmt":"2025-02-19T20:48:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=2826"},"modified":"2025-02-19T17:48:27","modified_gmt":"2025-02-19T20:48:27","slug":"a-vox-digitalis-e-a-obliteracao-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=2826","title":{"rendered":"A \u201cvox digitalis\u201d e a oblitera\u00e7\u00e3o do jornalismo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2827 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/aa1-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/aa1-169x300.jpg 169w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/aa1.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><\/p>\n<p>A maioria das inova\u00e7\u00f5es da tecnologia digital chegaram ao jornalismo j\u00e1 nos anos 1990. E a partir da virada do mil\u00eanio provocaram profundas mudan\u00e7as no comportamento dos consumidores. Com a chegada dos smartphones, milhares de conte\u00fados jornal\u00edsticos gr\u00e1tis passaram a invadir os telefones de pessoas que sequer consumiam jornais ou revistas. E temos, nos \u00faltimos 25 anos, esse estranho fen\u00f4meno do aumento consider\u00e1vel da leitura de informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica gr\u00e1tis por jovens e adultos, ao mesmo tempo em que a grande maioria dos ve\u00edculos impressos come\u00e7am a desaparecer.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, a virada do s\u00e9culo, surgem as redes sociais, que os analistas do momento chamavam de Internet 2.0, e que traziam um fato novo, a possibilidade de qualquer indiv\u00edduo postar sua pr\u00f3pria mensagem. E qual \u00e9 a principal caracter\u00edstica dessas mensagens? A transposi\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o oral, agora em forma de textos e v\u00eddeos digitalizados. Vou chamar esse fen\u00f4meno de \u201cvox digitalis\u201d. Desde a piadinha com a sogra ao \u00faltimo discurso de Donald Trump, tudo \u00e9 relatado nos moldes informais da oralidade. \u00c9 com esse conte\u00fado que o jornalismo compete no dia a dia da comunica\u00e7\u00e3o digital. Para competir, as mensagens s\u00e3o curtas e concisas, pois nenhum texto com muito mais do que um par\u00e1grafo tem muita leitura.<\/p>\n<p>Por aqui (como no interior da \u00cdndia ou do Afeganist\u00e3o) a comunica\u00e7\u00e3o oral ainda tem papel determinante na vida do pa\u00eds. Esse modelo de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-hist\u00f3rico, passado de pai para filho desde o in\u00edcio dos tempos, e se apresenta como flagrante demonstra\u00e7\u00e3o de nosso analfabetismo funcional. Durante os prim\u00f3rdios de nossa civiliza\u00e7\u00e3o a comunica\u00e7\u00e3o oral foi important\u00edssima. Com o desenvolvimento da escrita, o mundo conseguiu criar a ci\u00eancia e desenvolver a pr\u00f3pria ideia de pol\u00edtica. Foi a partir da escrita e n\u00e3o da express\u00e3o puramente oral que nosso conhecimento explodiu.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de ambiente do papel para a tela causou uma altera\u00e7\u00e3o na maneira que se consome jornalismo. No formato impresso, diagramado, artigos e reportagens podem ser aprofundados, analisados com acur\u00e1cia e com a chance de entregar ao leitor aquilo que \u00e9 o melhor do relato de atualidade: informa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria com opini\u00f5es contextualizadas, sem abdicar da complexidade em que a comunica\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, a vida social e a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e3o enredadas.<\/p>\n<p>Com essas mudan\u00e7as significativas na tecnologia e no consumo, perderam-se leitores, telespectadores e receitas. No caso do telejornalismo, que tamb\u00e9m sofre um encolhimento por conta da diminui\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito de se consumir televis\u00e3o e sua consequente queda de receitas publicit\u00e1rias, h\u00e1 um preju\u00edzo consider\u00e1vel na qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o, ao menos no Brasil. N\u00e3o me refiro \u00e0 TV aberta, que ainda possui capital para produzir bons jornais, dentro das limita\u00e7\u00f5es desse formato. As emissoras a cabo, v\u00edtimas da queda de audi\u00eancia e das receitas minguantes, acabam por substituir reportagens, cujo custo \u00e9 sempre alto, por programas de opini\u00f5es e coment\u00e1rios. \u00c9 opini\u00e3o de manh\u00e3, na hora do almo\u00e7o, \u00e0 tarde, \u00e0 noite, de madrugada. O jornalismo esportivo, ent\u00e3o, virou uma grande mesa redonda 24 horas por dia. E como a maioria de nossos jornalistas (h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es) s\u00e3o pouco versados em opini\u00f5es densas e contextualizadas, haja paci\u00eancia para aturar tanta opini\u00e3o prec\u00e1ria e improvisada.<\/p>\n<p>As vers\u00f5es do impresso seguem sendo produzidas e oferecidas pelos grandes jornais, at\u00e9 porque o modo de produ\u00e7\u00e3o segue o mesmo nas reda\u00e7\u00f5es. Espelhadas no digital, diagramadas, com suas cores, fontes, manchetes e ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, oferecem uma importante contribui\u00e7\u00e3o para que o leitor tenha uma vis\u00e3o di\u00e1ria da realidade social de modo estruturado em prioridades e relev\u00e2ncia. Por \u00f3bvio, jornais e jornalistas n\u00e3o s\u00e3o propriet\u00e1rios da verdade, e o jornal, como produto final di\u00e1rio, enquadrado em um dado espa\u00e7o, com certo n\u00famero de p\u00e1ginas, entrega a vis\u00e3o daquele dado ve\u00edculo e de seus profissionais, sobre o que consideram o mais pr\u00f3ximo da realidade factual. Ao escolher uma manchete, o jornal emite valor sobre aquele assunto. Ou seja, o jornal, no seu formato impresso ou com o espelho do impresso entregue nos portais digitais, entrega mais do que um amontoado de informa\u00e7\u00f5es. Entrega valor e abre o debate. Jamais o encerra. Apresenta tend\u00eancias? Pode ser que sim. Um jornal deve ter compromisso com princ\u00edpios, e n\u00e3o com personalidades ou partidos. Gosto sempre de trazer o exemplo franc\u00eas. O \u201cLe Figaro\u201d \u00e9 parisiense, tem 199 anos e \u00e9 de direita. O Le Monde \u00e9 igualmente parisiense, tem 81 anos e \u00e9 de esquerda. Ambos t\u00eam credibilidade e s\u00e3o honestos quanto \u00e0 realidade dos fatos. Suas diferen\u00e7as se estabelecem nas opini\u00f5es, fruto de seus valores. Se formos para a tradi\u00e7\u00e3o norte-americana, h\u00e1 jornais que expressam publicamente seus preferidos em elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n<p>Isto posto, voltemos \u00e0 nossa realidade brasileira, caracterizada por baix\u00edssimos \u00edndices de escolaridade e leitura. Nunca fomos bons leitores de nada, incluindo-se a\u00ed os jornais e revistas. Nossos recordes de leitura de jornal sempre foram n\u00fameros p\u00edfios, se comparados \u00e0 leitura de peri\u00f3dicos em na\u00e7\u00f5es com n\u00edveis educacionais mais s\u00f3lidos. Por estarmos ainda num est\u00e1gio social de forte presen\u00e7a da oralidade, somos presas f\u00e1ceis para um fen\u00f4meno que, de uma forma ou outra, sempre esteve presente em nossa vida pol\u00edtica: o populismo de qualquer matiz.<\/p>\n<p>Com o surgimento da direita radical, no come\u00e7o da segunda d\u00e9cada desse s\u00e9culo, e a chegada ao poder ao final dessa mesma d\u00e9cada, nossa ignor\u00e2ncia e incapacidade de entendermos a realidade e estabelecermos debates pol\u00edticos produtivos se exacerbou. Nada que esse pessoal fez \u00e9 in\u00e9dito. A maior rede de telejornalismo do pa\u00eds, chamada por eles de \u201clixo\u201d, era chamada pela esquerda \u2013 poucos anos antes &#8211; de \u201cgolpista\u201d. Tudo dentro da clara l\u00f3gica segundo a qual, seja \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, defensores de autocracias s\u00f3 querem saber de narrativas que abrigam suas perspectivas sect\u00e1rias. Para eles, o Judici\u00e1rio \u00e9 vendido, o Congresso s\u00f3 quer fazer neg\u00f3cios (embora haja bons nacos de verdade nisso) e o debate em busca da verdade dos fatos \u00e9 uma bobagem. Por essa l\u00f3gica, concluem, bom mesmo seria se o l\u00edder pudesse governar \u201ccom m\u00e3o de ferro\u201d, sem se preocupar com esses empecilhos que o \u201csistema\u201d oferece, sem ter que dar satisfa\u00e7\u00e3o a deputados e ju\u00edzes. O que interessa \u00e9 a verdade que eles, que viram a Luz, j\u00e1 possuem.<\/p>\n<p>Ao somar o modus operandi dos populistas com a nova realidade da media\u00e7\u00e3o das redes sociais e seus conte\u00fados dominados pela oralidade, a \u201cvox digitalis\u201d, temos o ambiente perfeito para o surgimento do radicalismo pol\u00edtico e a polariza\u00e7\u00e3o entre radicais de ambos os lados. A oralidade, por vir de pessoas comuns, assume tons de pureza e de verdade, porque do povo, ecoando ideias sacralizadas pela tradi\u00e7\u00e3o do \u201cvox populi, vox Dei\u201d (a voz do povo \u00e9 a voz de<br \/>\nDeus).<\/p>\n<p>Ocorre que a frase acima em latim, embora bonita, sonora, quase po\u00e9tica, nada tem a ver com a realidade dos fatos. Mesmo assim, a nova voz do povo, a \u201cvox digitalis\u201d, oferece a cura da diabetes, do c\u00e2ncer, da riqueza em um ano, sem qualquer razoabilidade. Por sua quase onipresen\u00e7a, invade a pol\u00edtica e passa a defender teses como a de que devemos ser governados por um \u201cl\u00edder forte\u201d , que n\u00e3o deveria ser atrapalhado por ju\u00edzes e deputados corruptos. \u00c9 esse mesmo modelo de comunica\u00e7\u00e3o que passou a chancelar ideias como as de que a cloroquina cura Covid e mulher que usa minissaia est\u00e1 pedindo para ser abusada. Com suas categoriza\u00e7\u00f5es ing\u00eanuas, ju\u00edzos de senso comum, relatos tortos e repeti\u00e7\u00f5es rasas de cartilhas ideol\u00f3gicas, preconceitos e nenhum compromisso com qualquer vis\u00e3o cr\u00edtica, a \u201cvox digitalis\u201d tornou-se a nova \u201cvox Dei\u201d. Se esse fen\u00f4meno ficasse somente no \u00e2mbito das redes sociais, tudo bem, colocar\u00edamos na conta da liberdade de express\u00e3o e pronto. O problema \u00e9 que tais conte\u00fados e seus sujeitos n\u00e3o somente dominam as redes, como acabam por impor pautas e provocar rea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Ou seja, m\u00eddia, atores pol\u00edticos e o que chamamos de sociedade civil s\u00e3o, hoje, ref\u00e9ns da \u201cvox digitalis\u201d. Assim como a hist\u00f3ria da ci\u00eancia e da pol\u00edtica nos ensinam o valor da escrita, o jornalismo (impresso ou seu espelho digital) pode nos auxiliar a debater nossos problemas com mais profundidade e acur\u00e1cia, e sem as palavras de ordem e conclus\u00f5es apressadas dessa nova comunica\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata de propor qualquer forma de censura. N\u00e3o se acaba com informa\u00e7\u00f5es ruins suprimindo-as. Devemos restaurar a defesa de John Milton ainda no s\u00e9culo XVII, segundo a qual a informa\u00e7\u00e3o ruim tem o valor de mostrar a import\u00e2ncia da boa informa\u00e7\u00e3o, comprometida com a realidade dos fatos. Impedir incautos de escrever bobagens n\u00e3o est\u00e1 no card\u00e1pio de sociedades democr\u00e1ticas. Informa\u00e7\u00e3o ruim se combate com uma informa\u00e7\u00e3o melhor, mais verdadeira e transparente, que possa ser checada, discutida e refutada por novos fatos que a corrijam. A verdade n\u00e3o \u00e9<br \/>\num produto acabado. \u00c9 assim na ci\u00eancia, que discute e corrige seus erros, deveria ser assim na pol\u00edtica, deveria ser assim na comunica\u00e7\u00e3o digital. Mas, cad\u00ea esse jornalismo denso, bem fundamentado e porta voz do precioso dissenso que floresce numa sociedade aberta, a sociedade do livre debate? Sabemos que ele at\u00e9 existe, mas \u00e9 preciso retir\u00e1-lo da UTI. E voc\u00ea pode me dizer: \u201c ah, mas os jornalistas precisam melhorar muito\u201d! Sim, precisam, mas isso \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. No momento, precisamos oxigenar nossas mentes com muitas leituras. Incluindo-se a\u00ed o melhor que o jornalismo pode nos oferecer.<\/p>\n<p><strong>* Alvaro Em\u00eddio Ferreira \u00e9 jornalista, radialista e publicit\u00e1rio.<\/strong><br \/>\n<strong>Apresentador do Podshow 91,7 na R\u00e1dio Paiquer\u00ea 91,7 em Londrina-PR.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria das inova\u00e7\u00f5es da tecnologia digital chegaram ao jornalismo j\u00e1 nos anos 1990. E a partir da virada do mil\u00eanio provocaram profundas mudan\u00e7as no comportamento dos consumidores. Com a chegada dos smartphones, milhares de conte\u00fados jornal\u00edsticos gr\u00e1tis passaram a invadir os telefones de pessoas que sequer consumiam jornais ou revistas. 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