{"id":3186,"date":"2026-04-15T09:18:26","date_gmt":"2026-04-15T12:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=3186"},"modified":"2026-04-15T10:24:07","modified_gmt":"2026-04-15T13:24:07","slug":"amarelo-em-disputa-a-nova-camisa-da-selecao-e-o-campo-de-batalha-do-imaginario-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=3186","title":{"rendered":"Amarelo em disputa: a nova camisa da Sele\u00e7\u00e3o e o campo de batalha do imagin\u00e1rio brasileiro"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3190\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/gu2.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 momentos em que um s\u00edmbolo deixa de ser apenas um objeto e passa a funcionar como term\u00f4metro social. A nova camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira para a Copa de 2026 \u2014 ainda antes de sua estreia oficial \u2014 j\u00e1 ocupa esse lugar. N\u00e3o pelo tecido, pelo corte ou pela est\u00e9tica, mas pelo que ela reativa: uma disputa aberta pelo significado de ser Brasil.<\/p>\n<p>O retorno ao amarelo cl\u00e1ssico, em si, parece um movimento de reconcilia\u00e7\u00e3o. Uma tentativa de reconectar a Sele\u00e7\u00e3o a uma mem\u00f3ria afetiva anterior \u00e0s fraturas recentes do debate p\u00fablico. Durante d\u00e9cadas, vestir a camisa amarela foi participar de um pacto simb\u00f3lico relativamente est\u00e1vel, no qual o futebol operava como linguagem comum, capaz de suspender diferen\u00e7as e produzir identifica\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Esse pacto foi rompido.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a camisa deixou de ser apenas signo de unidade para se tornar tamb\u00e9m marcador de posi\u00e7\u00e3o. O que antes agregava passou a dividir. E \u00e9 nesse terreno inst\u00e1vel que a nova estrat\u00e9gia se insere: n\u00e3o como simples relan\u00e7amento de uniforme, mas como tentativa de reinscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Sob a l\u00f3gica da comunica\u00e7\u00e3o digital, a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel. Recuperar um elemento cl\u00e1ssico, de alta legibilidade emocional, e reativar sua circula\u00e7\u00e3o em redes altamente performativas. Em termos de branding, trata-se de uma estrat\u00e9gia de reconex\u00e3o. Mas, ao atravessarmos essa leitura com as teorias do imagin\u00e1rio social, a complexidade se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>O amarelo da Sele\u00e7\u00e3o sempre funcionou como um significante de pertencimento. Um desses elementos que, como prop\u00f5e Cornelius Castoriadis, integram as chamadas institui\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias da sociedade: constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que organizam a experi\u00eancia coletiva e passam a operar como se fossem naturais. A camisa n\u00e3o apenas representa o Brasil \u2014 ela ajuda a produzir o que entendemos por Brasil.<\/p>\n<p>No entanto, o simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico.<\/p>\n<p>E foi justamente ao tentar atualiz\u00e1-lo que surgiram as tens\u00f5es mais evidentes. A inser\u00e7\u00e3o do slogan \u201cVai, Brasa\u201d no uniforme, pensada como aproxima\u00e7\u00e3o com uma linguagem jovem e digital, revelou um descompasso entre inten\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o. O que parecia, do ponto de vista estrat\u00e9gico, uma tentativa de organicidade, foi percebido como artif\u00edcio. A rea\u00e7\u00e3o negativa n\u00e3o se deu pela express\u00e3o em si, mas pela sensa\u00e7\u00e3o de que o pertencimento estava sendo encenado.<\/p>\n<p>Aqui, a teoria das representa\u00e7\u00f5es sociais de Serge Moscovici oferece uma chave importante: os sentidos n\u00e3o s\u00e3o simplesmente emitidos, mas negociados socialmente. Nenhum s\u00edmbolo entra em circula\u00e7\u00e3o como consenso. Ele precisa ser reconhecido como leg\u00edtimo dentro de um campo j\u00e1 estruturado de significados. O \u201cBrasa\u201d, ao tentar se apresentar como linguagem compartilhada, acabou evidenciando sua condi\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p>A parceria com a Jordan Brand adiciona outra camada a essa disputa. Ao incorporar o logo associado a Michael Jordan, a camisa desloca parte de seu eixo simb\u00f3lico para um territ\u00f3rio global, fortemente marcado pela cultura esportiva norte-americana. N\u00e3o se trata apenas de design ou inova\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mas de uma inflex\u00e3o cultural: o encontro entre um dos principais s\u00edmbolos nacionais e uma marca que carrega consigo um imagin\u00e1rio transnacional.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de estranhamento por parte da torcida revela justamente esse atrito. A camisa da Sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 percebida como espa\u00e7o neutro de experimenta\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9, antes de tudo, um territ\u00f3rio de identifica\u00e7\u00e3o. E, como tal, resiste a deslocamentos que pare\u00e7am diluir sua ancoragem nacional.<\/p>\n<p>Do ponto de vista psicanal\u00edtico, especialmente a partir de Jacques Lacan, essa tens\u00e3o pode ser compreendida como efeito da pr\u00f3pria estrutura do significante. O sentido n\u00e3o pertence a quem o produz, mas ao campo simb\u00f3lico em que ele circula. A camisa, enquanto signo, escapa ao controle institucional e passa a ser continuamente reinterpretada por aqueles que a investem de desejo, mem\u00f3ria e identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o digital atua menos como canal e mais como arena. \u00c9 nas redes que esses sentidos s\u00e3o disputados, amplificados e reorganizados em tempo real. O uniforme deixa de ser apenas lan\u00e7ado \u2014 ele \u00e9 imediatamente testado, tensionado, apropriado e, se necess\u00e1rio, rejeitado.<\/p>\n<p>A r\u00e1pida retirada do \u201cVai, Brasa\u201d ap\u00f3s a repercuss\u00e3o negativa n\u00e3o \u00e9 apenas um ajuste de campanha. \u00c9 um sintoma. Indica que o imagin\u00e1rio em torno da Sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para reprograma\u00e7\u00e3o direta. Ele exige negocia\u00e7\u00e3o, escuta e, sobretudo, reconhecimento de sua complexidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Talvez o ponto mais interessante desse epis\u00f3dio n\u00e3o esteja no acerto ou no erro da estrat\u00e9gia, mas no que ele revela: a camisa da Sele\u00e7\u00e3o continua sendo um dos espa\u00e7os mais sens\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o de sentido no Brasil contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o diz apenas quem somos.<\/p>\n<p>Ela exp\u00f5e, com rara nitidez, o quanto ainda estamos disputando o que significa ser.<\/p>\n<p><strong>* Renata Nandes \u00e9 jornalista, psicanalista e mestre em Comunica\u00e7\u00e3o Digital<\/strong><\/p>\n<p><strong>* D\u00e9bora Vasconcelos \u00e9 graduanda em Jornalismo no Centro de Ensino Universit\u00e1rio do Distrito Federal (UDF)<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Raphaela Kubo \u00e9 graduanda em jornalismo na UNIP<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Edwaldo Costa \u00e9 jornalista, professor e p\u00f3s-doutor pela ECA-USP<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que um s\u00edmbolo deixa de ser apenas um objeto e passa a funcionar como term\u00f4metro social. 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