{"id":3221,"date":"2026-05-28T12:20:41","date_gmt":"2026-05-28T15:20:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=3221"},"modified":"2026-05-28T12:20:41","modified_gmt":"2026-05-28T15:20:41","slug":"o-corpo-da-selecao-o-mito-neymar-e-o-sintoma-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=3221","title":{"rendered":"O corpo da Sele\u00e7\u00e3o, o mito Neymar e o sintoma brasileiro"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3190 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/gu2.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando Carlo Ancelotti decidiu levar Neymar para a Copa do Mundo de 2026, a escolha ultrapassou imediatamente o futebol. N\u00e3o se tratava apenas de desempenho t\u00e9cnico, minutagem ou fisiologia esportiva. O debate nacional que se instaurou revelou algo mais profundo. O Brasil continua preso \u00e0 necessidade emocional de um \u201csalvador\u201d masculino capaz de restaurar uma identidade ferida.<br \/>\nAncelotti tentou enquadrar a decis\u00e3o como estritamente profissional, baseada em forma f\u00edsica e desempenho, e n\u00e3o em emo\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o pr\u00f3prio t\u00e9cnico reconheceu que Neymar \u00e9 muito amado pelo elenco e pelo pa\u00eds, e que sua presen\u00e7a n\u00e3o desorganizaria o vesti\u00e1rio.<br \/>\n\u00c9 justamente a\u00ed que reside a quest\u00e3o psicanal\u00edtica e pol\u00edtica da convoca\u00e7\u00e3o. Porque Neymar nunca foi apenas um jogador. Neymar \u00e9 um significante nacional.<br \/>\nDurante mais de uma d\u00e9cada, o futebol brasileiro depositou sobre ele um lugar quase messi\u00e2nico. O menino-prod\u00edgio transformado em astro global virou o espelho narc\u00edsico de um pa\u00eds que ainda busca desesperadamente reconhecimento internacional. Em um Brasil marcado por desigualdade estrutural, masculinidade perform\u00e1tica e cultura do espet\u00e1culo, Neymar se tornou uma s\u00edntese contradit\u00f3ria. \u00c9 vulner\u00e1vel e arrogante, genial e infantilizado, v\u00edtima e produto perfeito da ind\u00fastria da celebridade.<br \/>\nSua trajet\u00f3ria tamb\u00e9m escancarou algo muito brasileiro, que \u00e9 a dificuldade coletiva de separar talento de idolatria.<br \/>\nEnquanto atletas mulheres precisam provar excel\u00eancia cont\u00ednua para obter reconhecimento m\u00ednimo, homens como Neymar seguem ocupando centralidade simb\u00f3lica mesmo atravessando longos per\u00edodos de instabilidade f\u00edsica, emocional e esportiva. O futebol feminino brasileiro precisou construir legitimidade enfrentando d\u00e9cadas de invisibiliza\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rios prec\u00e1rios e apagamento midi\u00e1tico. Neymar, mesmo ausente por les\u00f5es e temporadas irregulares, continua orbitando como eixo inevit\u00e1vel da narrativa nacional.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa negar sua qualidade t\u00e9cnica. Seria intelectualmente desonesto. Neymar continua sendo um dos jogadores mais talentosos da hist\u00f3ria do futebol brasileiro. O problema est\u00e1 menos no atleta e mais no dispositivo cultural que o cerca.<br \/>\nO Brasil frequentemente transforma homens talentosos em totens emocionais. Depois, exige deles uma perfei\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Em seguida, destr\u00f3i esses mesmos homens publicamente quando eles fracassam em sustentar o ideal projetado. \u00c9 um ciclo profundamente narc\u00edsico.<br \/>\nFreud talvez enxergasse nisso um movimento de identifica\u00e7\u00e3o coletiva. Lacan provavelmente apontaria para Neymar como objeto do desejo nacional, aquilo que promete preencher uma falta estrutural, mas jamais consegue complet\u00e1-la. E essa falta n\u00e3o \u00e9 futebol\u00edstica. \u00c9 identit\u00e1ria.<br \/>\nA decis\u00e3o de Ancelotti tamb\u00e9m revela um choque entre dois modelos de futebol e de lideran\u00e7a. O treinador italiano chega carregando a l\u00f3gica europeia da gest\u00e3o pragm\u00e1tica, enquanto encontra uma cultura futebol\u00edstica brasileira ainda movida por afetos, mitos e her\u00f3is. Sua preocupa\u00e7\u00e3o em controlar o ambiente externo \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o mostra que ele entende perfeitamente que, no Brasil, o time nunca joga apenas dentro de campo.<br \/>\nCada Copa do Mundo brasileira \u00e9 uma esp\u00e9cie de sess\u00e3o coletiva de an\u00e1lise nacional. Projetamos nela nossas fantasias de pot\u00eancia, reconhecimento e reden\u00e7\u00e3o. Queremos vencer para provar alguma coisa ao mundo e, talvez, a n\u00f3s mesmos. Por isso Neymar importa tanto. Porque ele encarna uma ideia de brilho individual que o Brasil aprendeu historicamente a amar, a do homem improvisador, carism\u00e1tico, genial, quase indom\u00e1vel.<br \/>\nH\u00e1 tamb\u00e9m um componente profundamente masculino nessa obsess\u00e3o. O futebol brasileiro ainda resiste em abandonar a figura do camisa 10 salvador, aquele homem que resolve tudo sozinho. \u00c9 uma l\u00f3gica patriarcal cl\u00e1ssica, centralizar esperan\u00e7a em uma figura masculina extraordin\u00e1ria enquanto o coletivo permanece emocionalmente dependente dela.<br \/>\nTalvez a grande pergunta n\u00e3o seja se Neymar merece ou n\u00e3o estar na Copa. Talvez a pergunta seja outra. Por que o Brasil continua precisando tanto que ele esteja?<br \/>\nNo fundo, a convoca\u00e7\u00e3o de Neymar fala menos sobre futebol e mais sobre um pa\u00eds que ainda tem dificuldade de elaborar seus pr\u00f3prios lutos. O luto do futebol-arte idealizado. O luto da hegemonia absoluta. O luto da imagem rom\u00e2ntica do Brasil como centro m\u00e1gico do futebol mundial.<br \/>\nAncelotti pode at\u00e9 ter tomado uma decis\u00e3o t\u00e9cnica. Mas o Brasil jamais viver\u00e1 Neymar de maneira apenas t\u00e9cnica.<\/p>\n<div class=\"entry-content post_content\">\n<div class=\"cm-posts\">\n<article id=\"post-5598\" class=\"post-5598 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-na-academia tag-copa-do-mundo\">\n<div class=\"cm-post-content\">\n<div class=\"cm-entry-summary\">\n<p><strong>* Renata Nandes \u00e9 jornalista, psicanalista e mestre em Comunica\u00e7\u00e3o Digital<\/strong><\/p>\n<p><strong>* D\u00e9bora Vasconcelos \u00e9 graduanda em Jornalismo no Centro de Ensino Universit\u00e1rio do Distrito Federal (UDF)<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Raphaela Kubo \u00e9 graduanda em jornalismo na UNIP<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Edwaldo Costa \u00e9 jornalista, professor e p\u00f3s-doutor pela ECA-USP<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Carlo Ancelotti decidiu levar Neymar para a Copa do Mundo de 2026, a escolha ultrapassou imediatamente o futebol. 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