{"id":715,"date":"2020-06-19T00:11:20","date_gmt":"2020-06-19T03:11:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/alterjor\/?p=715"},"modified":"2020-07-17T14:21:05","modified_gmt":"2020-07-17T17:21:05","slug":"jornalismo-humanizacao-e-o-racismo-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=715","title":{"rendered":"Jornalismo, humaniza\u00e7\u00e3o e o racismo estrutural"},"content":{"rendered":"<pre>\u201cO ser humano como ponto de partida e de chegada na narrativa jornal\u00edstica\u201d<\/pre>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-700 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jkijuim_3x4-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3444139640271073\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Jorge Kanehide Ijuim<\/em><\/a><br \/>\nCom a colabora\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6293254607271473\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>G\u00e9ssica Gabrieli Valentini<\/em><\/a><\/p>\n<p>Os recentes protestos antirracistas nos Estados Unidos n\u00e3o est\u00e3o restritos \u00e0 morte de George Floyd por um policial branco, em Mine\u00e1polis. Parece ter sido uma gota d\u2019\u00e1gua numa longa hist\u00f3ria de domina\u00e7\u00e3o sobre as popula\u00e7\u00f5es fragilizadas \u2013 afro-americanos, latinos, pobres. A exemplo do Brasil, o continente norte-americano tamb\u00e9m estabeleceu suas bases de desenvolvimento no sistema escravocrata. Ali tamb\u00e9m, o sucesso econ\u00f4mico se deveu \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra de negros africanos.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura foi sangrenta. S\u00f3 foi oficializada quando o presidente Lincoln assinou a Proclama\u00e7\u00e3o de Emancipa\u00e7\u00e3o, e em 1865, com a aprova\u00e7\u00e3o da D\u00e9cima Terceira Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o americana, abolindo a escravid\u00e3o em todo o territ\u00f3rio dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A luta pela conquista dos direitos civis igualmente n\u00e3o foi f\u00e1cil. O preconceito ao que se considerava um ser inferior imp\u00f4s ao afro-americano normas e leis especiais, com avan\u00e7os e retrocessos, por d\u00e9cadas. Desde a limita\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e aos postos de trabalho, at\u00e9 a superexposi\u00e7\u00e3o perniciosa, como relatou o The New York Times, numa edi\u00e7\u00e3o de reminisc\u00eancias, em 2006.<\/p>\n<figure id=\"attachment_399\" class=\"wp-caption aligncenter\" data-shortcode=\"caption\" aria-describedby=\"caption-attachment-399\"><\/figure>\n<div id=\"attachment_695\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-695\" class=\"wp-image-695 size-medium\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ota-Benga-300x167.jpg\" alt=\"Ota Benga\" width=\"300\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ota-Benga-300x167.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ota-Benga-768x427.jpg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ota-Benga-1024x569.jpg 1024w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ota-Benga.jpg 1063w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-695\" class=\"wp-caption-text\">Wildlife Conservation Society<\/p><\/div>\n<p>Em 1916, os nova-iorquinos que foram ao zool\u00f3gico do Bronx tiveram uma nova atra\u00e7\u00e3o na Casa dos Macacos. Um homem negro e pequeno compartilhava da mesma jaula dos primatas. Era Ota Benga, um pigmeu congol\u00eas, na \u00e9poca com 23 anos. Sim, um ser humano negro e pequeno foi exibido como atra\u00e7\u00e3o num zool\u00f3gico entre os macacos, pela negocia\u00e7\u00e3o entre um antrop\u00f3logo e o diretor daquele parque. Os jornais noticiaram a curiosidade de v\u00e1rias formas, do tom grotesco \u00e0 situa\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica. Veja a reportagem.<\/p>\n<p>Como e em que medida a imprensa contribui para a manuten\u00e7\u00e3o \u2013 e a amplifica\u00e7\u00e3o \u2013 das diferen\u00e7as?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, ainda que os negros representem 13% da popula\u00e7\u00e3o norte-americana, os homens negros s\u00e3o encarcerados em quase seis vezes a taxa de homens brancos. A pol\u00edcia continua a matar negros em n\u00fameros desproporcionais: s\u00e3o 2,5 vezes mais sujeitos a serem mortos pela pol\u00edcia do que os brancos. Uma pessoa negra desarmada est\u00e1 cinco vezes mais sujeita a ser morta pela pol\u00edcia do que uma pessoa branca desarmada.<\/p>\n<p>Portanto, o assassinato de George Floyd n\u00e3o foi casual, \u00e9 fruto do que conhecemos por racismo estrutural. Est\u00e1 naturalizado em grande parcela da sociedade e ainda levar\u00e1 tempo para ser desconstru\u00eddo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o desfruta de hist\u00f3ria diferente. A col\u00f4nia portuguesa da Am\u00e9rica do Sul foi constru\u00edda com o suor e o sangue do negro africano. Sob o signo do parasitismo imperialista, no dizer de Abdias do Nascimento, o negro africano \u201cplantou, alimentou e colheu a riqueza material do pa\u00eds para o desfrute exclusivo da aristocracia branca\u201d.<\/p>\n<p>O genoc\u00eddio de afrodescendentes e de ind\u00edgenas n\u00e3o terminou com a lei \u00c1urea, em 1888. Libertos, foram jogados \u00e0 rua sem acesso \u00e0 moradia, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e aos postos de trabalho. Como nos lembra Renato Ortiz, uma pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o europeia, a partir de 1850, pretendeu \u201cbranquear\u201d a popula\u00e7\u00e3o brasileira, pois acreditava-se que os negros e os ind\u00edgenas iriam desaparecer.<\/p>\n<p>Conforme a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE, entre negros e pardos hoje s\u00e3o 53,63% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Como assevera Jess\u00e9 Souza, esta extensa faixa da sociedade experimenta condi\u00e7\u00f5es de <em>subcidadania<\/em>, uma singularidade brasileira. S\u00e3o a maioria pobre e marginalizada do pa\u00eds. Continuam com menor acesso ao ensino formal e ao mercado de trabalho, com consequ\u00eancias semelhantes aos irm\u00e3os norte-americanos. As pol\u00edticas de encarceramento e aumento de pena se voltam, via de regra, contra a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre. Entre os presos, 61,7% s\u00e3o pretos ou pardos. Conforme o <em>Mapa do encarceramento: os jovens do Brasil<\/em>, publicado em 2015, em 2012 havia 292.242 negros presos e 175.536 brancos, ou seja, 60,8% da popula\u00e7\u00e3o prisional era negra.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia policial tamb\u00e9m \u00e9 real e efetiva nas ruas brasileiras, em geral nas comunidades empobrecidas, de maioria negra. No Estado do Rio de Janeiro, os pretos comp\u00f5em 11,1% da popula\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o 32,4% dos mortos pela pol\u00edcia. Entre os brancos o quadro se inverte: s\u00e3o 54,5% da popula\u00e7\u00e3o e 19,7% dos mortos pela for\u00e7a policial. J\u00e1 para os pardos, 34% da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, a incid\u00eancia de mortes \u00e9 de 21,8%, tamb\u00e9m acima da porcentagem registrada entre brancos. Em S\u00e3o Paulo, segundo o relat\u00f3rio do PNUD, a taxa de homic\u00eddios por 100 mil habitantes para a popula\u00e7\u00e3o negra (pretos e pardos) \u00e9 de 46,3 (1,9 vez a dos brancos). Morte por balas perdidas parecem fazer parte da rotina nas comunidades do Rio de Janeiro <em>(pretos e pardos pela categoriza\u00e7\u00e3o do IBGE)<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_696\" style=\"width: 494px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-696\" class=\"wp-image-696 size-full\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Pedro-.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Pedro Mattos Pinto\" width=\"484\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Pedro-.jpg 484w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Pedro--300x150.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 484px) 100vw, 484px\" \/><p id=\"caption-attachment-696\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Pedro Mattos Pinto<\/p><\/div>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es policiais frequentes em geral sacrificam vidas de crian\u00e7as negras. O garoto <b>Jo\u00e3o Pedro Mattos Pinto<\/b>, de 14 anos, foi uma das v\u00edtimas dessa viol\u00eancia policial, em maio. Numa suposta persegui\u00e7\u00e3o a traficantes, policiais saltaram o muro da casa em que morava e dispararam ao que estava a sua frente. Atingiram mortalmente Jo\u00e3o Pedro, que engrossa as estat\u00edsticas dos que perderam a vida em opera\u00e7\u00f5es policiais no estado do Rio. S\u00f3 em 2019, foram 5 crian\u00e7as e 19 adolescentes. Assim, o genoc\u00eddio do negro, como lembraria Abdias do Nascimento, continua.<\/p>\n<p>Por que a morte de negros estaria naturalizada em nosso pa\u00eds?<\/p>\n<p>Elza Soares canta a indigna\u00e7\u00e3o dessa realidade. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yktrUMoc1Xw\">Ou\u00e7a Elza Soares.<\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_697\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-697\" class=\"wp-image-697 size-medium\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/alterjor\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Elza-Soares-3-300x214.jpg\" alt=\"Elza Soares\" width=\"300\" height=\"214\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Elza-Soares-3-300x214.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Elza-Soares-3-768x549.jpg 768w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Elza-Soares-3.jpg 827w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-697\" class=\"wp-caption-text\">Elza Soares<\/p><\/div>\n<p><em>A carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra<br \/>\nS\u00f3-s\u00f3 cego n\u00e3o v\u00ea<br \/>\nQue vai de gra\u00e7a pro pres\u00eddioE para debaixo do pl\u00e1stico<\/em><br \/>\n<em>E vai de gra\u00e7a pro subemprego<\/em><br \/>\n<em>E pros hospitais psiqu\u00edatricos<\/em><br \/>\n<em>A carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra<\/em><br \/>\n<em>Dizem por a\u00ed [\u2026]<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pesquisadora L\u00e9lia Gonzalez reflete com humor ir\u00f4nico essa naturaliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo, \u00e9 que todo mundo acha que \u00e9 natural. Que negro tem mais \u00e9 que viver na mis\u00e9ria. Por qu\u00ea? Ora, porque ele tem umas qualidades que n\u00e3o est\u00e3o com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice etc. e tal. Da\u00ed, \u00e9 natural que seja perseguido pela pol\u00edcia, pois n\u00e3o gosta de trabalho, sabe? Se n\u00e3o trabalha, \u00e9 malandro e se \u00e9 malandro \u00e9 ladr\u00e3o. Logo, tem que ser preso, naturalmente. Menor negro s\u00f3 pode ser pivete ou trombadinha, pois filho de peixe, peixinho \u00e9. Mulher negra, naturalmente, \u00e9 cozinheira, faxineira, servente, trocadora de \u00f4nibus ou prostituta. Basta a gente ler jornal, ouvir r\u00e1dio e ver televis\u00e3o. Eles n\u00e3o querem nada. Portanto t\u00eam mais \u00e9 que ser favelados. <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/eurocentrismoemxeque\/para-compreender-a-amefrica-e-o-pretugues\/\">Leia mais.<\/a><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos nos ajuda a compreender esse quadro. Ainda que a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, em v\u00e1rios artigos, destaque o direito \u00e0 dignidade, este princ\u00edpio est\u00e1 muito mais nos discursos do que na pr\u00e1tica cotidiana. O pensador lusitano alerta que o desprezo \u00e0 igualdade e \u00e0 diferen\u00e7a tem origem no que chama de <em>Pensamento abissal<\/em>, que remonta a \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es. Por este pensamento, a supremacia de um homem ideal \u2013 europeu, branco, burgu\u00eas, ilustrado e munido de armas \u2013 tensiona com o diferente, o conquistado. Esta l\u00f3gica, portanto, ao criar uma linha imagin\u00e1ria abissal, gera distin\u00e7\u00f5es entre a metr\u00f3pole e a col\u00f4nia, o civilizado e o selvagem, o Ocidente e o Oriente, o Norte e o Sul, o branco e o negro. A crueldade dessa linha abissal \u00e9 a impossibilidade de copresen\u00e7a [coexist\u00eancia] e, assim, promove a exclus\u00e3o e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>No caso da imprensa brasileira, este pensamento abissal parece estar t\u00e3o encrustado em parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do racismo encontrar porta-vozes nas redes sociais, parte significativa da imprensa brasileira e de seus jornalistas colaboram para a estrutura\u00e7\u00e3o e a amplifica\u00e7\u00e3o do racismo. Alguns de forma intencional, outros, por mais que tentem acertar, escorregam ao ignorar culturas diferentes. Em minhas pesquisas recentes, tenho observado que o preconceito n\u00e3o se restringe ao afrodescendente.<\/p>\n<p>Quando um rep\u00f3rter menciona o termo \u201cafricano\u201d cinco vezes numa mat\u00e9ria, a partir do t\u00edtulo, para se referir a uma pessoa de Cabo Verde\u2026 ou quando o jornalista cita \u201chaitiano\u201d v\u00e1rias vezes durante a reportagem para caracterizar um suspeito de agress\u00e3o\u2026 s\u00e3o evid\u00eancias de que, no fundo da consci\u00eancia, tal rep\u00f3rter faz uma associa\u00e7\u00e3o infeliz: \u00e9 africano, portanto negro\u2026 \u00e9 haitiano, portanto negro. Veja as reportagens:<\/p>\n<ul>\n<li class=\"western\"><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/sc\/santa-catarina\/noticia\/2014\/11\/africano-e-preso-suspeito-de-tentar-estuprar-duas-estudantes-na-ufsc.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Africano \u00e9 preso suspeito de tentar estuprar duas estudantes na UFSC<\/a><\/li>\n<li class=\"western\"><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/sc\/santa-catarina\/noticia\/2015\/01\/haitiano-mata-companheira-com-golpe-de-faca-em-chapeco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Haitiano mata companheira com golpe de faca em Chapec\u00f3<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>Por isso, quando L\u00e9lia Gonzales diz \u201cBasta a gente ler jornal, ouvir r\u00e1dio e ver televis\u00e3o\u201d, suas palavras s\u00e3o mais que de uma ativista, mas um olhar antropol\u00f3gico que escancara o quanto os meios de comunica\u00e7\u00e3o podem intensificar e estruturar o racismo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como indagaria o bom amigo <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3718172627365657\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Manuel Carlos Chaparro<\/a>, onde est\u00e1 <em>XIS da quest\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Tenho defendido desde 2002 a possibilidade de um jornalismo humanizado ou humanizador. Como j\u00e1 escrevi anteriormente,<\/p>\n<blockquote><p>\u2026em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo, [o jornalista] esvazia-se de preconceitos de modo a captar, ver e enxergar, ouvir e escutar, questionar e sentir. Munido de uma racionalidade criativa e da emo\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, assume a postura de curiosidade e descoberta, de humildade para sentir as dores do mundo (Dines), de empatia, de solidariedade \u00e0s dores universais (Medina). Assim, seu trabalho respeita as diferen\u00e7as de qualquer natureza e se isenta de prejulgamentos, de preconceitos e estere\u00f3tipos. Sua narrativa adquire car\u00e1ter emancipat\u00f3rio, pois, de forma humanizada, seu ato \u00e9 humanizador (2002, 2012).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, entendo a pot\u00eancia do jornalismo para ter <em>o ser humano como ponto de partida e de chegada.<\/em> Se a imprensa pode ajudar a manter e a amplificar estigmas e preconceitos, pode tamb\u00e9m potencializar mudan\u00e7as estruturais. Para a produ\u00e7\u00e3o de narrativas humanizadas este fazer come\u00e7a antes da pauta, na consci\u00eancia do <em>ser jornalista<\/em>. Humaniza\u00e7\u00e3o, para Paulo Freire, exige engajamento com a realidade, cumplicidade com o outro \u2013 solidariedade. Se negar este compromisso e esta solidariedade, o jornalista \u2013 alienado dos valores universais \u2013 ignora tamb\u00e9m a complexidade dos acontecimentos que deve investigar. O <em>XIS da quest\u00e3o<\/em>, portanto, est\u00e1 na eleva\u00e7\u00e3o da nossa consci\u00eancia [n\u00f3s jornalistas] para contribuir, por meio do nosso trabalho, para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da sociedade. Esta amplia\u00e7\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia podem quebrar as heran\u00e7as euroc\u00eantricas de um <em>pensamento abissal<\/em>. Podem cooperar para a desestrutura\u00e7\u00e3o do racismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Para conhecer mais:<\/b><\/p>\n<p>Alma Negra \u2013 Jornalismo Preto Livre: <a href=\"https:\/\/www.almapreta.com\/editorias\/realidade\/negros-e-perifericos-sao-os-mais-afetados-pelo-aumento-da-populacao-carceraria-no-brasil\">https:\/\/www.almapreta.com\/editorias\/realidade\/negros-e-perifericos-sao-os-mais-afetados-pelo-aumento-da-populacao-carceraria-no-brasil<\/a><\/p>\n<p>COMISS\u00c3O DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS: <a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/atividade-legislativa\/comissoes\/comissoes-permanentes\/cdhm\/noticias\/sistema-carcerario-brasileiro-negros-e-pobres-na-prisao\">https:\/\/www2.camara.leg.br\/atividade-legislativa\/comissoes\/comissoes-permanentes\/cdhm\/noticias\/sistema-carcerario-brasileiro-negros-e-pobres-na-prisao<\/a><\/p>\n<p>Human Rights Watch \u2013 Relat\u00f3rio Mundial 2018: <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/world-report\/2018\/country-chapters\/312941\">https:\/\/www.hrw.org\/pt\/world-report\/2018\/country-chapters\/312941<\/a><\/p>\n<p>Mapa do encarceramento: os jovens do Brasil 2015: <a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Mapa_do_Encarceramento_-_Os_jovens_do_brasil.pdf\">https:\/\/nacoesunidas.org\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Mapa_do_Encarceramento_-_Os_jovens_do_brasil.pdf<\/a><\/p>\n<p>NASCIMENTO, Abdias do. <b>O genoc\u00eddio do negro brasileiro<\/b>: Processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.<\/p>\n<p>Vers\u00e3o encaminhada por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3444139640271073\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jorge Kanehide Ijuim<\/a> especialmente para Alterjor a partir do conte\u00fado dispon\u00edvel em seu <a href=\"https:\/\/ijuimshinbun.wordpress.com\">Blog<\/a>, <a href=\"https:\/\/ijuimshinbun.wordpress.com\/2020\/06\/17\/jornalismo-humanizacao-e-o-racismo-estrutural\/#more-392\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui para ler a vers\u00e3o integral<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO ser humano como ponto de partida e de chegada na narrativa jornal\u00edstica\u201d<\/p>\n<p>Por Jorge Kanehide Ijuim<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":756,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[103,108],"tags":[109,69,110,111,112,113],"class_list":["post-715","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunistas","category-jornalismo-humanizado","tag-humanizacao","tag-jornalismo","tag-jornalismo-humanizado","tag-movimento-negro","tag-questoes-etnicorraciais","tag-racismo-estrutural"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=715"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/715\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":757,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/715\/revisions\/757"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}