{"id":942,"date":"2020-11-25T00:10:04","date_gmt":"2020-11-25T03:10:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/alterjor\/?p=942"},"modified":"2020-11-25T22:25:26","modified_gmt":"2020-11-26T01:25:26","slug":"sobre-o-racismo-e-o-caso-do-carrefour","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=942","title":{"rendered":"SOBRE O RACISMO E O CASO DO CARREFOUR"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7499421629464858\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dennis de Oliveira<\/a>.<\/p>\n<p>Parte significativa da sociedade brasileira resiste as admitir o racismo, ainda que colocada ante a evid\u00eancias. N\u00e3o foram poucas as pessoas que admitiram que o assassinato de Jo\u00e3o Alberto Freitas no dia 19 de novembro por seguran\u00e7as em uma loja do Carrefour em Porto Alegre foi hediondo mas n\u00e3o se configurou como racismo. A l\u00f3gica dos argumentos destas pessoas foi que a v\u00edtima tinha \u201cprovocado\u201d antes funcion\u00e1rios da loja e os seguran\u00e7as agiram de forma impudente, independente da ra\u00e7a da v\u00edtima. Seria mais um caso de \u201ctreinamento inadequado\u201d dos seguran\u00e7as do que uma pr\u00e1tica racista. Alguns v\u00e3o mais al\u00e9m e afirmam que \u00e9 necess\u00e1rio treinar melhor os seguran\u00e7as de modo geral. Deslocam o problema do racismo para uma quest\u00e3o de postura inadequada de seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Coincidentemente, no dia 20 de novembro um epis\u00f3dio de intoler\u00e2ncia tamb\u00e9m ocorreu na cidade de S\u00e3o Paulo, na padaria Dona Deola, na zona oeste da cidade. Neste dia, Lidiane Biezok estava no balc\u00e3o do estabelecimento, jogou guardanapos no ch\u00e3o e falou para uma das atendentes: \u201cSabe para o que voc\u00ea presta? Para pegar os meus restos.\u201d Al\u00e9m disto, desferiu uma onda de ataques de cunho racista e homof\u00f3bico direcionados principalmente para um casal homossexual que consumia na padaria. A padaria acionou a Pol\u00edcia Militar que deteve a cliente mas foi liberada em seguida a pedido da sua m\u00e3e que afirmou que ela sofria de transtornos psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<p>Trago estes dois fatos para demonstrar a diferen\u00e7a de tratamento. No segundo, uma mulher branca agride verbalmente clientes e funcion\u00e1rios da loja e foi tratada com todos os cuidados. No primeiro, as supostas ofensas que o cliente negro desferiu contra os funcion\u00e1rios foi punida com a morte. Se fosse uma pr\u00e1tica comum situa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o em estabelecimentos serem tratadas com viol\u00eancia, a cliente da Dona Deola poderia tamb\u00e9m estar morta. E n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 viva como est\u00e1 solta e ainda se colocando como v\u00edtima.<\/p>\n<p>Antes que algum desavisado fale, n\u00e3o estou em hip\u00f3tese alguma defendendo que Lidiane Biezok seja agredida fisicamente por seguran\u00e7as ou policiais. Mas que todos os cuidados que ela recebeu neste incidente sejam para todos \u2013 e inclusive deveria ser tamb\u00e9m para Jo\u00e3o Alberto Freitas que, se assim acontecesse, estaria vivo como Lidiane Biezok. A diferen\u00e7a de tratamento nos dois casos \u00e9 a prova cabal do racismo que existe no Brasil. S\u00f3 n\u00e3o enxerga quem quer ou que \u00e9 privilegiado pelo racismo.<\/p>\n<h3>Racismo gera privil\u00e9gios<\/h3>\n<p>Na sexta feira, dia 20, ap\u00f3s o tr\u00e1gico acontecimento em Porto Alegre, as a\u00e7\u00f5es do Carrefour tiveram alta de 0,49%. A repercuss\u00e3o negativa do caso fez as a\u00e7\u00f5es da empresa terem uma queda de mais de 6% no dia 23, segunda feira.<\/p>\n<p>O mercado de a\u00e7\u00f5es pouco est\u00e1 preocupado com racismo, toler\u00e2ncia, valores \u00e9ticos. O que importa neste cassino \u00e9 a aposta no crescimento da empresa. A queda de 6% se deveu a percep\u00e7\u00e3o de que estes fatos ir\u00e3o gerar um impacto negativo na imagem e, por tabela, no faturamento da empresa pelo menos no curto-m\u00e9dio prazo. Chamo a aten\u00e7\u00e3o disto: a repercuss\u00e3o, inclusive internacional, pedidos de cassa\u00e7\u00e3o de alvar\u00e1s, protestos em todo o Brasil, campanhas de boicote, entre outros, colocaram a empresa na defensiva. H\u00e1 uma crise da marca que ter\u00e1 impactos imediatos na sua rentabilidade. E \u00e9 isto que teve como consequ\u00eancia imediata a queda nas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o que se coloca \u00e9: esta situa\u00e7\u00e3o se manter\u00e1 por muito tempo? Passado o calor dos acontecimentos, esta imagem negativa da marca Carrefour ir\u00e1 se manter?<\/p>\n<p>A an\u00e1lise deste processo \u00e9 que indica a consolida\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o da estrutura racista no Brasil ou se ela se movimenta para dar conta deste universo de press\u00f5es. A cultura corporativa no Brasil \u00e9 extremamente atrasada e resistente a pensar a diversidade como ferramenta de gest\u00e3o como j\u00e1 existe, por exemplo, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No artigo <a href=\"https:\/\/hbr.org\/1996\/09\/making-differences-matter-a-new-paradigm-for-managing-diversity\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Making diferences matter<\/a>, os autores David Thomas e Robin Ely, da Universidade Harvard, apontam a import\u00e2ncia de se constituir ambientes de diversidade como forma de aumentar a efici\u00eancia e a produtividade. Para eles, um ambiente corporativo n\u00e3o diverso causa estranhamentos aos trabalhadores e isto gera impactos na produtividade. J\u00e1 um ambiente em que a diversidade est\u00e1 presente, inclusive com mecanismos de gest\u00e3o dos conflitos internos, n\u00e3o s\u00f3 retira este estranhamento como tamb\u00e9m gera um conforto de acolhimento que potencializa a produ\u00e7\u00e3o. Isto tem se revelado uma tend\u00eancia na gest\u00e3o empresarial nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No Brasil, condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas singulares que levaram a racializa\u00e7\u00e3o das classes sociais desde o princ\u00edpio (branco como senhor, negro como escravizado e depois, branco como propriet\u00e1rio e negro como subalterno) transforma o racismo como uma estrutura de estratifica\u00e7\u00e3o social que, muitas vezes, \u00e9 aproveitada pelo Capital como forma de potencializar seu faturamento. O racismo permite, por exemplo, dispor de m\u00e3o de obra negra em que se pode pagar sal\u00e1rios aviltantes e ainda se posar de benem\u00e9rito porque \u201cest\u00e1 dando uma chance\u201d. Por isto, normaliza-se posi\u00e7\u00f5es em que se tenta justificar um homic\u00eddio como o que ocorreu em Porto Alegre. E, no mesmo diapas\u00e3o, se justifica a agress\u00e3o de uma cliente em uma padaria porque ela sofre transtornos mentais. Ao branco se permite at\u00e9 mesmo transgress\u00f5es justificada por problemas de sa\u00fade mental. Ao negro, o suposto desrespeito \u00e9 punido com agress\u00e3o e morte.<\/p>\n<p>Por estar solidificada esta cultura racista na sociedade \u00e9 que as empresas ainda tratam a quest\u00e3o da diversidade como t\u00f3pica, superficial, como mera carta de inten\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se sentem ainda pressionadas. O Carrefour tem sete epis\u00f3dios graves de intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia. Este \u00faltimo foi b\u00e1rbaro e gerou protestos em todo o mundo. Somente ap\u00f3s tudo isto \u00e9 que as suas a\u00e7\u00f5es tiveram uma queda e n\u00e3o se sabe at\u00e9 quando.<\/p>\n<p>O racismo estrutural brasileiro \u00e9 isto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.dennisoliveira.info\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dennis de Oliveira<\/a> \u00e9 Professor associado da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, coordenador do <a href=\"http:\/\/celacc.eca.usp.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CELACC<\/a> (Centro de Estudos de Cultura e Comunica\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina) e integrante da Rede Antirracista Quilomba\u00e7\u00e3o. E-mail: <a href=\"mailto:dennisol@usp.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dennisol@usp.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dennis de Oliveira. Parte significativa da sociedade brasileira resiste as admitir o racismo, ainda que colocada ante a evid\u00eancias. 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