{"id":994,"date":"2021-01-20T12:10:40","date_gmt":"2021-01-20T15:10:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=994"},"modified":"2021-01-21T11:36:17","modified_gmt":"2021-01-21T14:36:17","slug":"994","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/?p=994","title":{"rendered":"IDEALIZADO POR UMA BRASILEIRA, MUSEU VIRTUAL COM SEDE EM BERLIM D\u00c1 VOZ A MIGRANTES"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8317139192163255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enio Moraes J\u00fanior<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_995\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-995\" class=\"wp-image-995 size-medium\" src=\"https:\/\/alterjor.ddev.site\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Texto-8.-Arquivo-Pessoal-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Texto-8.-Arquivo-Pessoal-300x225.jpg 300w, https:\/\/alterjor.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Texto-8.-Arquivo-Pessoal.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-995\" class=\"wp-caption-text\">Suely Torres<br \/>Fotografia: Udo Rzadkowski<\/p><\/div>\n<p>Suely Torres mudou-se do Brasil para a Alemanha no final dos anos 1980, quando o pa\u00eds ainda era dividido pelo Muro. O objetivo era claro e foi devidamente cumprido: cursar mestrado em Literaturas e Culturas Latino-Americanas na Universidade Livre de Berlim (FU), institui\u00e7\u00e3o onde atualmente estuda Antropologia Social e Cultural. Trabalhando como professora de l\u00edngua portuguesa, Suely \u00e9 tamb\u00e9m uma fot\u00f3grafa talentosa e recentemente exp\u00f4s seus trabalhos sobre o cotidiano berlinense em galerias da cidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das aulas, das fotos e de eventos liter\u00e1rios que eventualmente realiza, as din\u00e2micas migrat\u00f3rias e seus personagens sempre chamaram a aten\u00e7\u00e3o dessa pernambucana natural de Recife. O olhar atento para essas quest\u00f5es foi o est\u00edmulo para que ela idealizasse e levasse adiante o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.deutschesmigrationsmuseum.de\/\">Deutsches Migrantionsmuseum (DMM)<\/a>, o Museu Alem\u00e3o da Migra\u00e7\u00e3o, dispon\u00edvel online desde o dia 28 de dezembro, contando com a chancela do governo da Alemanha.<\/p>\n<p>\u201cComo conhecer o migrante de perto, se grande parte da m\u00eddia ainda o reproduz como um estranho?\u201d, questiona. Com um acervo formado por depoimentos em v\u00eddeo, o DMM \u00e9 uma plataforma digital que pretende consolidar-se como ponto de encontro, di\u00e1logo e troca de informa\u00e7\u00f5es sobre migra\u00e7\u00e3o. Leia, a seguir, uma entrevista com Suely Torres, a brasileira que idealizou o projeto sediado em Berlim.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 uma brasileira, recifense, que mora h\u00e1 mais de 30 anos na Alemanha. A ideia de implantar o DMM tem a ver com voc\u00ea e com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que fazemos por livre e espont\u00e2nea vontade tem sempre a ver com n\u00f3s mesmos. \u00c9 sempre produto de uma inquieta\u00e7\u00e3o, de um inc\u00f4modo, de uma necessidade. E nada melhor do que tudo isso junto para nos motivar. A Alemanha sempre foi um pa\u00eds de migra\u00e7\u00e3o e, como uma das maiores pot\u00eancias econ\u00f4micas no momento, claro que \u00e9 um foco de interesses. Talvez a l\u00edngua seja a \u00fanica barreira para muita gente que pretende vir estudar, trabalhar ou morar aqui. Mas n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 pessoas de outros continentes que querem vir morar na Europa; os europeus tamb\u00e9m querem viver em outros lugares onde h\u00e1 sol, praia, leveza ou onde possam comprar terras, construir pousadas ou montar neg\u00f3cios. A circula\u00e7\u00e3o de pessoas no mundo \u00e9, enfim, um fato. Ao criar um museu como esse, estou exatamente tentando come\u00e7ar a ocupar uma lacuna; a propor algo que possa reunir e contar um pouco dessas hist\u00f3rias. Eu n\u00e3o conseguia entender como um pa\u00eds como a Alemanha ainda n\u00e3o tinha sentido a necessidade de reunir hist\u00f3rias desse tipo. O mais interessante \u00e9 que a iniciativa acabou surgindo por meio do meu trabalho, com o apoio fundamental de tr\u00eas brasileiras competentes e entusiasmadas: Mariana Florio, Fernanda Sumita e Maria do Carmo Carrasco. Talvez fa\u00e7a sentido pensar que essa ideia parta mesmo do migrante, assim ele pode criar atrav\u00e9s da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e perspectiva.<\/p>\n<p><strong>Em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/jornalismo-no-mundo\/mudancas-no-jornalismo-local-na-alemanha-da-queda-do-muro-de-berlim-as-reportagens-sobre-os-refugiados\/\">entrevista recentemente publicada no Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a>, a jornalista alem\u00e3 Ulrike Schleicher afirmou que, h\u00e1 cinco anos, a m\u00eddia alem\u00e3 era bastante simp\u00e1tica \u00e0 quest\u00e3o humanit\u00e1ria que envolve os imigrantes. Hoje, segundo ela, for\u00e7ado pela opini\u00e3o p\u00fablica, o jornalismo tem sido menos tolerante com a causa. Voc\u00ea concorda? Dar visibilidade e dignidade ao imigrante foi um dos est\u00edmulos para o seu projeto?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de ser ou n\u00e3o simp\u00e1tica com os imigrantes, mas de ser justa, humana e respeitosa. Ser migrante na Alemanha, como em muitos pa\u00edses do mundo, \u00e9 carregar um carimbo, seja na fala ou na apar\u00eancia. A migra\u00e7\u00e3o, infelizmente, ainda \u00e9 vista como uma amea\u00e7a, como um problema, e a cada dia que passa as fronteiras vis\u00edveis e invis\u00edveis filtram ainda mais o movimento de migra\u00e7\u00e3o. Depois que voc\u00ea ultrapassa essa primeira barreira, as fronteiras, voc\u00ea enfrenta as outras: a l\u00edngua, a sua apar\u00eancia, o seu sotaque\u2026 E as chances no mercado de trabalho tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o democr\u00e1ticas. A pessoa tem que ser forte e estar preparada para enfrentar tudo isso. Al\u00e9m disso, ningu\u00e9m conhece ou se interessa pela bagagem que ela traz consigo, exatamente porque esse background \u00e9 resumido ao prot\u00f3tipo do estrangeiro, do outro, do migrante. Como conhecer o migrante de perto, se ningu\u00e9m tem tempo e se grande parte da m\u00eddia ainda o reproduz como um estranho?<\/p>\n<p><strong>O DMM funciona \u00fanica e exclusivamente de forma virtual?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 uma plataforma digital, sem barreiras, sem fronteiras, sem hor\u00e1rio de funcionamento, acess\u00edvel a qualquer pessoa, como todos os museus deveriam ser. \u00c9 um lugar de encontro, de descobertas e de aproxima\u00e7\u00e3o de pessoas. A ideia \u00e9 sermos bastante democr\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s visitas e aos acessos\u2026 Enfim, \u00e9 um museu que pode ser levado \u00e0s escolas, \u00e0s universidades, a qualquer lugar. \u00c9 importante dizer que o DMM \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, registrada e reconhecida pelo governo alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O conte\u00fado da plataforma \u00e9 constitu\u00eddo por depoimentos em v\u00eddeo, em que os migrantes relatam suas experi\u00eancias. Quem s\u00e3o os entrevistados que se encontram no acervo? H\u00e1 alguma \u00eanfase, como refugiados, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Refugiados n\u00e3o s\u00e3o exatamente o foco do projeto. O DMM est\u00e1 centrado em qualquer pessoa, independentemente de onde ela veio e para onde ela se movimente. Todos os sujeitos dos fluxos migrat\u00f3rios desse planeta podem ter uma boa hist\u00f3ria para contar. Por isso, europeus, norte-americanos, africanos, asi\u00e1ticos, todos n\u00f3s estamos em movimento e essas hist\u00f3rias juntas criam um paralelo, um reconhecimento em comum, uma reflex\u00e3o social e pol\u00edtica do que significa migrar. Levam-nos a pensar que esse fato n\u00e3o \u00e9 um problema, nem uma amea\u00e7a, sen\u00e3o algo natural, mesmo quando se est\u00e1 fugindo de uma guerra, porque fugir significa querer estar vivo em algum lugar. E colocar essa ideia em pr\u00e1tica exigiu muita organiza\u00e7\u00e3o, estudo e pesquisa. Exatamente por isso eu fiz uma resid\u00eancia num museu virtual, o Museu da Pessoa, criado por tr\u00eas mulheres nos anos 1990, em S\u00e3o Paulo. Meu objetivo era aprender a metodologia e as pr\u00e1ticas desse tipo de plataforma. Al\u00e9m disso, como todo museu precisa de uma curadora, fiz a especializa\u00e7\u00e3o na Universidade das Artes em Berlim (UDK) para curar a cole\u00e7\u00e3o do DMM.<\/p>\n<p><strong>De que maneira voc\u00ea encontra esses personagens e quais s\u00e3o os temas mais recorrentes nos relatos trazidos por eles?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2016, eu fiz um trabalho de coaching com a diretora do museu Martin Gropius Bau, em Berlim, e ela me sugeriu que seria mais pr\u00e1tico se os meus primeiros entrevistados viessem da minha networking e, com o tempo e a pr\u00e1tica, eu poderia ir expandindo. Foi uma excelente dica. Como gestora cultural, tenho contato com muitos artistas, tanto no Brasil como na Alemanha, e pensei que seria melhor selecionar narrativas de migra\u00e7\u00e3o dos artistas que eu conhe\u00e7o. Artistas que, inclusive, trabalham em suas obras tem\u00e1ticas como identidade, deslocamento e migra\u00e7\u00e3o. Comecei a produzir o material em v\u00eddeo com pessoas como a cantora da \u00d3pera de Berlim, Adriane Queiroz, de Bel\u00e9m do Par\u00e1; Luzia Simons, artista pl\u00e1stica cearense, e um amigo afro-alem\u00e3o, m\u00fasico e professor de jazz em New York. As primeiras entrevistas me levaram a novos contatos cada vez mais distantes da minha networking e agora a lista est\u00e1 gigante! Os temas recorrentes s\u00e3o empoderamento e a identidade. E a\u00ed eu destaco: o interesse de interagir com a sociedade onde se vive, de serem aceitos como pessoas e n\u00e3o apenas tolerados como migrantes, de terem reconhecimento e n\u00e3o serem resumidos ao seu sotaque ou apar\u00eancia. No final das contas, s\u00e3o narrativas que deixam claro que todo ser humano quer ser entendido, aceito, amado.<\/p>\n<p>O conte\u00fado foi originalmente publicado no site <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/entrevista\/idealizado-por-uma-brasileira-museu-virtual-com-sede-em-berlim-da-voz-a-migrantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Observat\u00f3rio da Imprensa em 19\/01\/2021<\/a>. A republica\u00e7\u00e3o em Alterjor foi realizada com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8317139192163255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Enio Moraes J\u00fanior<\/strong><\/a> \u00e9 jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Portf\u00f3lio do autor dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/enioonline.wordpress.com\/\">EnioOnLine<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Enio Moraes J\u00fanior. Suely Torres mudou-se do Brasil para a Alemanha no final dos anos 1980, quando o pa\u00eds ainda era dividido pelo Muro. O objetivo era claro e foi devidamente cumprido: cursar mestrado em Literaturas e Culturas Latino-Americanas na Universidade Livre de Berlim (FU), institui\u00e7\u00e3o onde atualmente estuda Antropologia Social e Cultural. 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