
Inicio esse texto sem muitas indagações, mas sim uma afirmação: os “perambulantes” locais deveriam ter acesso a chave da cidade. Me refiro as pessoas que simplesmente andam pelos cantos das cidades observando as nuances do dia a dia, vejam, sem qualquer compromisso com a formalidade do trabalho, com a economia nacional, sim, essas ou aqueles que preferem aproveitar as belezas das cidades do que o contrário, suas “canseiras” todas.
Você conhece alguém assim? Um bom vivant, alguém que se tornou “o sujeito da cidade”, patrimônio humano tombado, anda pelas vielas, bairros distantes, bares, prova da comida local. No meu caso que venho de Piraju, interior de São Paulo – cidade pacata e turística – se banha nas águas do Rio Paranapanema, descansa nas praças históricas, e no fim da tarde aprecia um belo por do sol as margens do nosso rio.
Aquilo que chamo de perambulantes locais para Charles Baudelaire, poeta francês do século XIX, tem um nome, flâneur. Baudelaire, autor de As flores do mal, célebre obra considerada o grande marco da poesia moderna, durante a reconstrução de Paris na década de sessenta do século XIX observará essas pessoas. Apreciadores da cidade, comprometidos com a vivência urbana, com a conversa, para nós, da boa prosa, nada mais que isso.
O flâneur é aquele ou aquela que não se aquieta em casa, quer sentir o gosto de estar localizado entre os demais. Ao mesmo tempo que não descarta a solitude, longe disso, entende ela mas se põe como sujeito social primordialmente, pessoa da multidão. Pessoas que observam a questão urbanística diariamente e suas mudanças, e que por isso, sabem o que acontece nas entrelinhas, são sujeitos de seu tempo. Praticam a arte do diálogo, tecem críticas sobre as mudanças da cidade, poetizam e divagam.
Conforme avança o mundo, os capitais, a globalização, essas pessoas vão ficando para trás. Notem, o mundo cada vez mais tem menos tempo para tudo. As paisagens não servem mais para serem apreciadas ao belo som de um violão ao fundo, quem sabe, não, elas são retratadas por uma câmera de celular, entram para os storys, as músicas são adicionadas pelo aplicativo e fim.
Há uma certa modificação dos sujeitos sociais, por exemplo o conceito de boêmio, muito bem retratado na canção A volta do boêmio (1957) de Adelino Moreira, gravada por Nelson Gonçalves em 1967. Onde vemos a dor de um sujeito que sai da vida boêmia e retorna a ela com todo o festejo poético possível. Tanto Baudelaire quanto Adelino Moreira queriam expor um tipo social de cidadão que ao meu ver, não veremos mais.
Alguns estilos de vida naturalmente estão sendo devorados pela aceleração externa. Porém vejam, para níveis de retratação histórica, ou da própria memória contada, logo, para a historiografia vejo que teremos a perca de pessoas que poderiam relatar e muito. Por exemplo, se pretendo expor a história da velha vida noturna de minha cidade natal, meus objetos para a história oral poderiam ser os boêmios pirajuenses. Até que ainda existam esses sujeitos, temos oralidade e memória popular, do contrário, não mais.
Baudelaire dirá:
Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito.
Trecho da obra de o Pintor do mundo publicado em Le Figaro (1863)
Um observador apaixonado, por essas, a paixão é a sua própria ótica de mundo. Temos um desafio ao retratarmos algo contado tanto por um dito “flâneur” quanto por um “boêmio”, pois para a história a paixão pelo objeto de estudo nem sempre problematizará certas questões, ao contrário, certas oralidades não verão as problemáticas ao entorno pois estão muito alheias a elas.
Ou seja, a oralidade como instrumento analítico ou base para uma pesquisa, necessita de critério.
Mas múltiplas são as possibilidades que o século XXI nos dará, por exemplo, devemos nos questionar: quais as possibilidades de um jovem de hoje em dia ter contato com a simplicidade da apreciação urbanística? Me refiro ao papel alienativo da tela de um celular, dos reels, do conteúdo rápido, sem espaço para reflexões.
Estamos diante de uma geração inquieta não por níveis de criticidade, mas pelo impulso da globalização.
Uma paisagem ou um lugar de sociabilidade traz consigo, de certa maneira, várias histórias que ali foram escritas. A descrição daquilo que vi diz mais sobre mim do que o próprio lugar, a minha forma de descrever me expõe, as palavras que uso, a intensidade lírica e o modo que abordo aquilo que vivi ou vi trazem consigo a minha psique, meus devaneios todos.
Para Baudelaire, o flâneur não só descreve a Paris da época, mas é o próprio cidadão que faz com haja Paris em seu âmbito poético e analítico, ou seja, preenche o alicerce da urbanidade local através da descrição. Na minha opinião não há cidade sem cultura local, sem certos nomes da própria poesia de paisagem específica, de Paris a Piraju. São várias as figuras que pude conhecer que detalham as ruas e as noites, os dias e as praças com seus mínimos detalhes. Mas ainda assim Baudelaire nos demonstra um quesito de classe a esse personagem, afinal, por mais simples que seja o fato de perambular, há um desprendimento social nisso tudo, pois a contrapartida podemos imaginar cidadãos que em vez disso se ocupavam com o trabalho diário e nada apreciavam além do descanso ao fim do dia.
Qual o nível de nossa atenção para o mundo lá fora? E o empenho para as telas? Sinto que há um mundo dividido naquilo que observamos e interpretamos e naquilo que reproduzimos. Sem tempo para reflexão X sem tempo para o mundo, é quase que uma conta simples ao meu ver. O que resta? As telas, telinhas e telões. Essas acabam preenchendo nosso pequeno vazio social, entre desinformação e informação surgem novos tipos de cidadãos.
* Renan Freire é músico e graduando em História na Universidade Estadual do Norte do Paraná.
