A construção histórica de ideários brasileiros

A linguagem é um fator social, e a propaganda também. A sociedade produz formas de interação, e essas mesmas interações são frutos históricos que foram disseminados através de séculos de construções psico-sociais. A maneira como o outro interpreta aquilo que falo, a ideia que propago, as nuances de meu discurso, são captadas pela ótica de conhecimento intrínseca ao conteúdo em que a mesma foi educada, ou seja, como dirá Wittgenstein – filósofo da linguagem – “os limites de minha linguagem são o limite do meu mundo”.

A vinda da família real no ano de 1808 trouxe consigo vários aparatos, um deles a Imprensa Régia. Por meio dos textos publicados para a sociedade brasileira da época cria-se uma visão de mundo, um mundo eurocêntrico, o mundo do colonizador vindo de além-mar. As dores do povo refém do processo de colonização não foram publicadas. Sim, haviam ideais populares e materiais, mas essas mesmas não possuíam meio relevante se comparadas a produção textual que era movida devido aos acúmulos financeiros da então coroa portuguesa saqueadora.

Por exemplo, várias foram as propagações em meio a veículos de comunicação que auxiliaram para a construção do ideário racista da época. Em um período com poucas críticas ao que era propagado, anúncios como a compra e venda explicita de negros escravizados nos jornais da época era um fato comum. Portanto criava-se a partir daí uma normatividade comunicativa para os corpos negros vitimas do genocídio escravista.

A observação que trago aqui é sobre aquilo que era consumido pelos sujeitos sociais, mas vamos além. Hoje por exemplo ainda vemos um consumo deliberado de assuntos que constituem um ideário, o patriotismo. Esse mesmo que fere diariamente os três poderes e que constitui uma construção de ideias e cria-se portanto uma ideologia contemporânea. Voltemos ao passado, uma ideia que surge dos mecanismos nacionalistas: temos como exemplo o movimento de Plínio Salgado durante a década de 30,  o integralismo, que se colocou no âmago do discurso nacional com características fascistas e nacionalistas – mas acima de tudo – rebuscando o sentimento das camadas populares, o apelo à indignação. Essa propaganda era disseminada em jornais e revistas geridas  pelos próprios integralistas.

Para que uma ideia exista é necessário que haja consumo, a ideia não deixa de ser um produto, a sociedade consome ideias, e a questão é: porque as ideias neofascistas ainda são tão bem difundidas?

Nos atentamos por isso ao poderio de um capital que extrapola sua simples dinâmica de acumulação infinita. Aqueles que vivenciam hoje um paraíso fiscal e possuem seus bilhões podem muito bem auxiliar para que uma propaganda chegue até o povo, mas a pergunta que devemos fazer quanto a esse propósito – pensando a partir da ótica dos que atentam hoje contra o campo democrático burguês – é : “qual será o lucro obtido?”, “propagar uma ideia pró-golpe auxilia para que não citem meus crimes fiscais?”, “meu capital continuará intacto a partir do momento em que fecho com ideias neofascistas?”.

O povo talvez não faça essas mesmas perguntas quando consome o conteúdo X pela falta de tempo para reflexão, mas as elites nacionais quando fecham com o candidato X pois o mesmo lhe garantirá paz sobre tais assuntos, esses sabem muito bem de seus interesses.

Qual é a sua classe? Vamos, diga!

Uso aqui da frase de Paulo Autran expressa no filme “Terra em transe” (1967) de Glauber Rocha, para indaga-los:

Qual é a sua classe? Caso deixe de trabalhar hoje, por quantos dias, meses ou anos sobreviveria?

Se a resposta não lhe traz um horizonte de tranquilidade, parabéns, você pertence a classe social daqueles que trabalham, logo, a classe trabalhadora, que quase nada acumula mas sem sombra de dúvidas tudo produz – inclusive cultura e educação – para não dizer que não referencio os professores e artistas que estão a ler esse texto.

Notem, as lástimas de um modelo econômico não apenas se fundam na escassez para uns e no acúmulo para outros, mas é evidente que aquilo que é propagado para as camadas mais pobres é fruto de um ideário que vem de cima para baixo, que joga o lixo da produção fascista para aqueles ou aquelas que não possuem a linguagem necessária para a sua própria defesa, para aqueles que não tiveram acesso ao pensamento crítico. Se uma pessoa pobre envereda para a extrema direita hoje é porque o Estado aburguesado não chegou até ela, não cumpriu sua obrigação.

O discurso feito pelo mundo do mercado das palestras – e atravessado pela mentalidade empresarial atual – leva os trabalhadores brasileiros a crerem que estão mais próximos dos bilionários do que de sua própria classe originária. Vendem a ideia da ascensão fácil, do acúmulo a partir do zero, usam de exceções para determinarem regras, criam fórmulas,  comercializam cursos, publicam livros,  discursam para multidões e em alguns casos específicos disputam as corridas eleitorais das grandes capitais.

O conflito entre as classes sociais brasileiras é um campo amplo e histórico de disputas ideológicas. Tomemos como exemplo as publicações textuais do movimento comunista brasileiro em seus jornais partidários iniciais. Periódicos como “Voz operária”, “Terra livre”, “A classe operária”; jornais esses que desde suas fundações foram amplamente perseguidos, proibidos e hostilizados para dizer pouco. O jornalismo independente nos demonstra como um veículo comunicativo pode se por ao mundo, se auto apresentar como veículo de resistência, de criticidade, de não influência direta dos capitais que manipulam e distorcem as realidades sociais conforme a sua própria ótica.

Mas afinal o que gira em torno do mundo das classes mais pobres? Iniciei essa análise citando Wittgenstein – a quem carrego grande admiração teórica – pois através da linguagem, daquilo que é expressado, falado, cantado, assistido vemos as influências contemporâneas em contraponto a vivência diária de uma classe. Se um trabalhador hoje tem uma opinião formalizada que vai contra a sua própria essência como trabalhador é porque uma lacuna estava aberta, haviam dúvidas que não tinham sido preenchidas, e de alguma forma foram respondidas através das ideologias vigentes,  através da propagação daqueles que tanto tem.

* Renan Freire é músico e graduando em História na Universidade Estadual do Norte do Paraná.