
A maioria das inovações da tecnologia digital chegaram ao jornalismo já nos anos 1990. E a partir da virada do milênio provocaram profundas mudanças no comportamento dos consumidores. Com a chegada dos smartphones, milhares de conteúdos jornalísticos grátis passaram a invadir os telefones de pessoas que sequer consumiam jornais ou revistas. E temos, nos últimos 25 anos, esse estranho fenômeno do aumento considerável da leitura de informação jornalística grátis por jovens e adultos, ao mesmo tempo em que a grande maioria dos veículos impressos começam a desaparecer.
Nessa mesma época, a virada do século, surgem as redes sociais, que os analistas do momento chamavam de Internet 2.0, e que traziam um fato novo, a possibilidade de qualquer indivíduo postar sua própria mensagem. E qual é a principal característica dessas mensagens? A transposição da comunicação oral, agora em forma de textos e vídeos digitalizados. Vou chamar esse fenômeno de “vox digitalis”. Desde a piadinha com a sogra ao último discurso de Donald Trump, tudo é relatado nos moldes informais da oralidade. É com esse conteúdo que o jornalismo compete no dia a dia da comunicação digital. Para competir, as mensagens são curtas e concisas, pois nenhum texto com muito mais do que um parágrafo tem muita leitura.
Por aqui (como no interior da Índia ou do Afeganistão) a comunicação oral ainda tem papel determinante na vida do país. Esse modelo de comunicação é pré-histórico, passado de pai para filho desde o início dos tempos, e se apresenta como flagrante demonstração de nosso analfabetismo funcional. Durante os primórdios de nossa civilização a comunicação oral foi importantíssima. Com o desenvolvimento da escrita, o mundo conseguiu criar a ciência e desenvolver a própria ideia de política. Foi a partir da escrita e não da expressão puramente oral que nosso conhecimento explodiu.
A mudança de ambiente do papel para a tela causou uma alteração na maneira que se consome jornalismo. No formato impresso, diagramado, artigos e reportagens podem ser aprofundados, analisados com acurácia e com a chance de entregar ao leitor aquilo que é o melhor do relato de atualidade: informação séria com opiniões contextualizadas, sem abdicar da complexidade em que a comunicação jornalística, a vida social e a ação política estão enredadas.
Com essas mudanças significativas na tecnologia e no consumo, perderam-se leitores, telespectadores e receitas. No caso do telejornalismo, que também sofre um encolhimento por conta da diminuição do hábito de se consumir televisão e sua consequente queda de receitas publicitárias, há um prejuízo considerável na qualidade de sua produção, ao menos no Brasil. Não me refiro à TV aberta, que ainda possui capital para produzir bons jornais, dentro das limitações desse formato. As emissoras a cabo, vítimas da queda de audiência e das receitas minguantes, acabam por substituir reportagens, cujo custo é sempre alto, por programas de opiniões e comentários. É opinião de manhã, na hora do almoço, à tarde, à noite, de madrugada. O jornalismo esportivo, então, virou uma grande mesa redonda 24 horas por dia. E como a maioria de nossos jornalistas (há exceções) são pouco versados em opiniões densas e contextualizadas, haja paciência para aturar tanta opinião precária e improvisada.
As versões do impresso seguem sendo produzidas e oferecidas pelos grandes jornais, até porque o modo de produção segue o mesmo nas redações. Espelhadas no digital, diagramadas, com suas cores, fontes, manchetes e ocupação de espaço, oferecem uma importante contribuição para que o leitor tenha uma visão diária da realidade social de modo estruturado em prioridades e relevância. Por óbvio, jornais e jornalistas não são proprietários da verdade, e o jornal, como produto final diário, enquadrado em um dado espaço, com certo número de páginas, entrega a visão daquele dado veículo e de seus profissionais, sobre o que consideram o mais próximo da realidade factual. Ao escolher uma manchete, o jornal emite valor sobre aquele assunto. Ou seja, o jornal, no seu formato impresso ou com o espelho do impresso entregue nos portais digitais, entrega mais do que um amontoado de informações. Entrega valor e abre o debate. Jamais o encerra. Apresenta tendências? Pode ser que sim. Um jornal deve ter compromisso com princípios, e não com personalidades ou partidos. Gosto sempre de trazer o exemplo francês. O “Le Figaro” é parisiense, tem 199 anos e é de direita. O Le Monde é igualmente parisiense, tem 81 anos e é de esquerda. Ambos têm credibilidade e são honestos quanto à realidade dos fatos. Suas diferenças se estabelecem nas opiniões, fruto de seus valores. Se formos para a tradição norte-americana, há jornais que expressam publicamente seus preferidos em eleições presidenciais.
Isto posto, voltemos à nossa realidade brasileira, caracterizada por baixíssimos índices de escolaridade e leitura. Nunca fomos bons leitores de nada, incluindo-se aí os jornais e revistas. Nossos recordes de leitura de jornal sempre foram números pífios, se comparados à leitura de periódicos em nações com níveis educacionais mais sólidos. Por estarmos ainda num estágio social de forte presença da oralidade, somos presas fáceis para um fenômeno que, de uma forma ou outra, sempre esteve presente em nossa vida política: o populismo de qualquer matiz.
Com o surgimento da direita radical, no começo da segunda década desse século, e a chegada ao poder ao final dessa mesma década, nossa ignorância e incapacidade de entendermos a realidade e estabelecermos debates políticos produtivos se exacerbou. Nada que esse pessoal fez é inédito. A maior rede de telejornalismo do país, chamada por eles de “lixo”, era chamada pela esquerda – poucos anos antes – de “golpista”. Tudo dentro da clara lógica segundo a qual, seja à direita ou à esquerda, defensores de autocracias só querem saber de narrativas que abrigam suas perspectivas sectárias. Para eles, o Judiciário é vendido, o Congresso só quer fazer negócios (embora haja bons nacos de verdade nisso) e o debate em busca da verdade dos fatos é uma bobagem. Por essa lógica, concluem, bom mesmo seria se o líder pudesse governar “com mão de ferro”, sem se preocupar com esses empecilhos que o “sistema” oferece, sem ter que dar satisfação a deputados e juízes. O que interessa é a verdade que eles, que viram a Luz, já possuem.
Ao somar o modus operandi dos populistas com a nova realidade da mediação das redes sociais e seus conteúdos dominados pela oralidade, a “vox digitalis”, temos o ambiente perfeito para o surgimento do radicalismo político e a polarização entre radicais de ambos os lados. A oralidade, por vir de pessoas comuns, assume tons de pureza e de verdade, porque do povo, ecoando ideias sacralizadas pela tradição do “vox populi, vox Dei” (a voz do povo é a voz de
Deus).
Ocorre que a frase acima em latim, embora bonita, sonora, quase poética, nada tem a ver com a realidade dos fatos. Mesmo assim, a nova voz do povo, a “vox digitalis”, oferece a cura da diabetes, do câncer, da riqueza em um ano, sem qualquer razoabilidade. Por sua quase onipresença, invade a política e passa a defender teses como a de que devemos ser governados por um “líder forte” , que não deveria ser atrapalhado por juízes e deputados corruptos. É esse mesmo modelo de comunicação que passou a chancelar ideias como as de que a cloroquina cura Covid e mulher que usa minissaia está pedindo para ser abusada. Com suas categorizações ingênuas, juízos de senso comum, relatos tortos e repetições rasas de cartilhas ideológicas, preconceitos e nenhum compromisso com qualquer visão crítica, a “vox digitalis” tornou-se a nova “vox Dei”. Se esse fenômeno ficasse somente no âmbito das redes sociais, tudo bem, colocaríamos na conta da liberdade de expressão e pronto. O problema é que tais conteúdos e seus sujeitos não somente dominam as redes, como acabam por impor pautas e provocar reações políticas. Ou seja, mídia, atores políticos e o que chamamos de sociedade civil são, hoje, reféns da “vox digitalis”. Assim como a história da ciência e da política nos ensinam o valor da escrita, o jornalismo (impresso ou seu espelho digital) pode nos auxiliar a debater nossos problemas com mais profundidade e acurácia, e sem as palavras de ordem e conclusões apressadas dessa nova comunicação oral.
E não se trata de propor qualquer forma de censura. Não se acaba com informações ruins suprimindo-as. Devemos restaurar a defesa de John Milton ainda no século XVII, segundo a qual a informação ruim tem o valor de mostrar a importância da boa informação, comprometida com a realidade dos fatos. Impedir incautos de escrever bobagens não está no cardápio de sociedades democráticas. Informação ruim se combate com uma informação melhor, mais verdadeira e transparente, que possa ser checada, discutida e refutada por novos fatos que a corrijam. A verdade não é
um produto acabado. É assim na ciência, que discute e corrige seus erros, deveria ser assim na política, deveria ser assim na comunicação digital. Mas, cadê esse jornalismo denso, bem fundamentado e porta voz do precioso dissenso que floresce numa sociedade aberta, a sociedade do livre debate? Sabemos que ele até existe, mas é preciso retirá-lo da UTI. E você pode me dizer: “ ah, mas os jornalistas precisam melhorar muito”! Sim, precisam, mas isso é uma outra história. No momento, precisamos oxigenar nossas mentes com muitas leituras. Incluindo-se aí o melhor que o jornalismo pode nos oferecer.
* Alvaro Emídio Ferreira é jornalista, radialista e publicitário.
Apresentador do Podshow 91,7 na Rádio Paiquerê 91,7 em Londrina-PR.
