BRICS: uma ação contra hegemônica

O século XXI trouxe consigo evoluções a respeito das técnicas perante o próprio advento tecnológico. Diante dos nossos olhos um novo mundo se apresenta, as possibilidades e as inovações do século passado se limitam como àquilo que está superado. Na China contemporânea os primeiros protótipos de possíveis “táxis aéreos” são expostos para o mundo, observamos isso com a devida atenção, porém um fator econômico se mantém: a dolarização.

É válido pensar em que momento a hegemonia do dólar obteve sua expansão, afinal, vários foram os fatores que fizeram com que nossa nação – especificamente – passasse a vivenciar seu trajeto como potência subdesenvolvida e de capitalismo dependente, tendo como estrutura basilar, sua reserva de dólar. A depender “em que pé” está nossa reserva e a própria circulação da moeda norte-americana, pagamos um preço, e aqui a figura é literal.

A partir da invasão portuguesa no século XVI em nossas terras, o mundo girava em torno de um padrão agregativo, que por vias do acúmulo e da reserva, classificava o nível de prosperidade econômica de um país: a busca implacável pelo ouro – essa ação que de fato sempre se pôs como horizonte possível durante todo o período de nossa colonização – passa seu bastão (como instrumento imperialista) para o dólar, diante da atual conjuntura.

O conceito de hegemonia tão bem desenvolvido por Antonio Gramsci, nunca se fez tão presente em nosso país. A forma arcaica prevalece, o projeto político provindo de fora se materializa no sentido em que nossa diplomacia precisa “pisar em ovos” para tecer qualquer nível de crítica, levando em conta que no prezado momento as falas diplomáticas se reverberam como um ataque direto. Os interesses dos norte-americanos em se manter como potência fundamental e centro hegemônico mundial continuam mais vivos do que nunca. Trump ameaça às nações dependentes que visam a desdolarização, tenta de toda a forma possível sufocar as novas potências que se aglutinam dentre as várias outras que competem com o BRICS. O Brasil mantém posturas amenas, diplomáticas e pontuais, a China mantém seu planejamento de médio e longo prazo rumo ao futuro.

Uma ação contra hegemônica organizada se dá, primordialmente, quando há organização por ambas as partes empenhadas. Não acho que devemos supor que o BRICS seja uma proposta revolucionária, pois não vemos a superação de uma estrutura econômica em detrimento de outra, mas sim uma possível reforma monetária que poderá  – com ressalvas – se por como grande feito temporal. Podemos vivenciar a quebra de um padrão historicamente construído através da exploração alheia, da invasão territorial, das guerras e da dizimação dos povos árabes, e como estamos a presenciar atualmente: da subjugação do povo venezuelano e do antigo povo persa.

Os principais parceiros econômicos da China continental hoje vivenciam o mais alto nível de terrorismo possível. Devemos entender como forma transitória aquilo que estamos a presenciar cotidianamente nas mídias hegemônicas. Dentro das espoliações cometidas pelos EUA o imperialismo em si se tornou nada mais nada menos que o primeiro processo, logo, a propagação de modelos de estados tomados por uma nação terrorista se demonstra como eficaz, o completo anarquismo instalado por falsos pressupostos.

O ataque ao Irã nos remete a um cenário similar ao que o mundo presenciou em 2002, quando o Iraque foi acusado pelos ianques de estarem produzindo armas de destruição em massa. Graças a resolução 1.441, deliberada pela ONU em Novembro daquele mesmo ano, foi averiguado que não haviam armas nucleares no território iraquiano, segundo as inspeções. Porém, de qualquer forma e rompendo qualquer acordo de paz possível, os EUA opta pela invasão e gera uma guerra de aproximadamente oito anos, resultando na morte de 200 mil civis.

A atual política externa do governo norte americano divide o mundo e até mesmo sua pobre e falsificada ideologia. A economia global vem demonstrado uma nova forma de observar e gerir as políticas possíveis, e isso se materializa como evidência concreta quando nos debruçamos aos estudos da China e de seus planejamentos estatais. Não há mais espaço para improvisos, o mundo capitalista opera na mesma frequência em que a inteligência artificial se torna inevitável, e com essa mesmíssima rapidez os capitais e os fundos de investimentos sentem cada dia mais que apostar todas as fichas em um Estado Suicida – que é claramente o caso dos EUA – resultará em menos valor que gera valor, logo, menos Capital.

Ou seja, tudo que sólido pode derreter, e todo império chega ao fim, a história nos comprova isso. Na medida em que o mundo observa um ataque bélico a opinião pública se modifica, não há consenso acerca daquilo que é válido ou não, porém os povos de todo o mundo temem uma invasão conseguinte. A pergunta de milhões: como uma pessoa envolvida em casos de pedofilia teria a preocupação real de investigar o PCC e o CV sem possuir interesses imperialistas?

Reformulando: qual a moral que um (ex) frequentador da Ilha de Epstein possui para querer prezar pela segurança da América Latina? Ambas são perguntas retóricas.

O papel do BRICS se denota como fundamental, e sim, é de fato uma ação contra hegemônica e que inclusive põe em xeque a própria política monetária do FMI, dentro de seu papel histórico que se perdura por mais de oitenta anos desde sua criação no ano de 1944, no cenário da pós segunda guerra mundial. Se indagarmos aos brasileiros sobre a década de oitenta vários temas virão a tona: a hiperinflação, os “fiscais do Sarney”, a redemocratização, logo, a Diretas Já, a cultura musical provinda de Brasília, e um tema que até hoje é alvo de estudos por parte dos acadêmicos, desde a historiografia até a economia: a dívida externa com o FMI.  

Durante muito tempo a ótica que prevalecia em meio aos economistas do nosso país era a de que nossa nação não poderia emergir distante da política monetária hegemônica, logo, estrangeira. No sentido em que as “bulas papais” que ditavam nossa economia, necessariamente eram guiadas pela política econômica de fora, pela ação do próprio saqueador norte-americano, que além de roubar o dinheiro dos povos oprimidos historicamente de todo o mundo – pelas vias imperialistas – ainda demonstrava o feito para o mundo como forma de exposição de sua caça, até mesmo para as outras potências racistas como a França, que com toda certeza, no ano de 1987, não derramou uma lágrima sequer quando o líder revolucionário Thomas Sankara foi assassinado. O Brasil nada mais era que uma pequena lebre abatida pelo caçador implacável durante os anos oitenta, ou melhor, pelos mesmos tigres de papel citados por Mao Tse Tung.

Hoje presenciamos um país que vem resistindo e se fortalecendo através de uma nova possibilidade como forma de liderança, caso nossa “régua” daquilo que justamente entendemos como resistência seja a própria figura da ex-guerrilheira e ex-presidenta Dilma Rousseff, à frente do NDB (Novo Banco de Desenvolvimento) mais conhecido como o Banco dos BRICS, que sem sombra de dúvidas é uma das maiores brasileiras vivas de toda a história do nosso país.  Com Dilma representando o Brasil e o mundo, nossas particularidades enquanto país subdesenvolvido, agroexportador e não industrializado, tomam de fato um novo rumo mais concreto e menos entreguista, haja vista que em um passado não tão distante – ao tratarmos de nossas demandas econômicas dentre as relações diplomáticas – infelizmente possuímos um “histórico de atleta” grotesco, no sentido em que o agora presidiário e ex-presidente Jair Bolsonaro, já até mesmo tentou negociar de maneira fracassada nossa querida Amazônia no Fórum de Davos em 2019, com o ex-vice presidente norte americano Al Gore, em mais um dos episódios constrangedores gerados por esse mandatário que infelizmente já esteve à frente de nossa nação como representante principal.

Trago aqui a própria desdolarização já citada nesse texto, que de fato é uma bandeira defendida pela ex-presidenta Dilma Rousseff à frente do NDB, bandeira essa que já serviu como principal narrativa para que lideranças mundiais sofressem inúmeras tentativas de perseguição política. Diante desse futuro que cada dia mais se finda como contra hegemônico, o BRICS ecoa certos temas que estavam amenizados, principalmente após a crise de 2008, momento esse em que os EUA buscou a manutenção de sua ideologia através da revigorização da OTAN na busca de novos aliados, como a Croácia e a Albânia em 2009, países esses que no passado possuíam ligações diretas com a URSS.

Presenciamos hoje a recente adesão ao BRICS de países como a Etiópia e o Irã, totalizando assim um bloco representado ao todo por dez nações, onde cada uma delas representa um tipo de relação externa distinta, uma política interna específica, mas onde as culturas de seus povos acabam  se conectando em volta de um desenvolvimento maior. E nessa reta final irei analisar apenas a adesão desses dois países dentro daquilo que ambos representam para o papel histórico das nações que não se curvaram diante de seus algozes, de seus opressores.

A entrada da Etiópia para os BRICS em 2024, hoje se demonstra como um grande passo dado – e ao mesmo tempo um exemplo – para  países emergentes comercialmente que necessitam de uma “contribuição maior”, contribuição essa que necessariamente precisa se distanciar dos grupos que operam com juros altíssimos e que praticam a falsa amizade diplomática, onde na realidade o saque é o que importa. Países subdesenvolvidos como a Etiópia  – historicamente – apenas representavam uma oportunidade de obter lucro pelas vias imperialistas, como quando dependentes do FMI. Atualmente essa mesma nação enxerga a chance de sua potencialização real e material, do desenvolvimento concreto via financiamento do NDB para obras de infraestrutura, industrialização e energia. E ao mesmo tempo promove um aceno para nações estrategicamente abandonadas mundialmente e que lutam cotidianamente por suas autodeterminações.

A respeito do Irã tentarei ser conciso e pragmático e me atentar ao seu papel fundamental para a composição dos BRICS, mesmo que as palavras praticamente transbordem por si só para tecerem a devida crítica a respeito dos ataques que o povo iraniano vem enfrentando. Ataques esses protagonizados por parte do governo facínora norte americano que diariamente preza pela partilha dos povos, da subjugação, do roubo, tendo como norte a propagação de uma terceira guerra mundial onde os filhos das classes trabalhadoras de todas as nações pagarão o preço dos ditames de Donald Trump.

O Irã neste momento exerce papel fundamental e de suma relevância para a composição atual deste bloco contra hegemônico, e isso se evidencia a partir do momento em que analisamos que este país sofre inúmeras sanções econômicas dos ianques. Sanções essas que enfraquecem não apenas a economia enquanto instrumento político de desenvolvimento interno, mas o próprio povo de cada nação em questão, desde Cuba a Venezuela. A cada dia que passa o exército norte americano está cada vez mais perto da derrota inevitável, acerca do conflito bélico orquestrado pelos mesmos em Fevereiro deste ano em que escrevo. Com embargos econômicos geridos a mais de quarenta anos, logo após a Revolução Islâmica de 1979, que destituiu a antiga Monarquia do Xá (pondo fim nas relações de interesses anticomunistas liderada pelo despota Mohammad Reza Pahlavi e os terríveis mandatários norte americanos) o Irã hoje também prova de um respiro nunca antes possível, levando em consideração que inúmeras foram as maneiras criadas para dinamitar a dignidade do heroico povo iraniano.

A China hoje cumpra uma tarefa de nação amiga a este mesmo povo, sobre uma parceria que de fato é positiva para o Irã, sem intenções falaciosas que por fim votam a favor para que o sangue de crianças indefesas seja novamente derramado no solo do oriente médio. O petróleo iraniano antes dos ataques de Trump possuía trajeto e destino, até mesmo as relações com a Índia estavam alinhadas. O fim dessa guerra se dará a partir do momento em que a bandeira do imperialismo for derrotada, caso contrário quem perderá de fato seremos nós, a humanidade. Para que os ianques vençam o mundo precisará morrer.

* Renan Freire é músico e graduando em História na Universidade Estadual do Norte do Paraná.